terça-feira, 14 de abril de 2026

Comarca de Viana do Castelo enfrenta constrangimentos estruturais graves e funcionamento em risco

 Viana do Castelo, 14 de abril de 2026 — A Comarca de Viana do Castelo enfrenta constrangimentos estruturais que comprometem a capacidade de resposta do Ministério Público (MP) e colocam em causa a prestação de um serviço de justiça célere, eficaz e acessível. Esta é a principal conclusão do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP), após a reunião plenária de magistrados realizada ontem.
A Comarca cobre um território vasto e profundamente disperso, obrigando magistrados a deslocações constantes entre serviços e juízos. Esta dispersão territorial reduz a eficiência, dificulta a preparação dos processos e compromete a qualidade do serviço prestado aos cidadãos.
A pressão é agravada pela falta de recursos humanos. A Comarca dispõe de 25 procuradores, mais um do Quadro Complementar, quando as necessidades reais apontam para 28 — e 30 para equiparação funcional com os juízes. A rotatividade elevada, com procuradores em regime transitório ou com acumulações sucessivas, fragiliza a continuidade das investigações e gera atrasos. A complexidade crescente de fenómenos como o cibercrime e as burlas transnacionais exige equipas estáveis que a Comarca não tem.
A extinção da vaga de efetivo no Tribunal de Caminha e do lugar de Procurador da República dirigente agravou a pressão no juízo central criminal. No juízo central cível, comércio e juízos locais cíveis, uma magistrada trabalha com sete juízes diferentes, multiplicando sobreposições e dificultando agendamentos.
Na violência doméstica, duas magistradas acumulam cerca de 300 inquéritos cada. A desmotivação é generalizada, alimentada pela dificuldade em conciliar vida pessoal e exigências de serviço. A falta de colaboração dos órgãos de polícia criminal, também sobrecarregados, limita a capacidade de investigação.
A insuficiência de oficiais de justiça é igualmente crítica. A falta de formação transfere tarefas para os magistrados, e há situações extremas, como uma funcionária responsável por mais de 500 inquéritos. Na área de Família e Menores, a atividade disparou: aumentaram os Incidentes de Tutela Educativa (ITE), foram propostas cerca de 100 ações de Promoção e Proteção (PPP) e estão em curso 760 processos de promoção e proteção. Este crescimento não é compatível com a recente alteração dos conteúdos funcionais, que acrescentou ainda mais carga ao cível. Entre setembro e abril, cada magistrado proferiu cerca de 1000 despachos — um ritmo insustentável.
No que respeita às condições de trabalho, o cenário é particularmente grave. Persistem limitações tecnológicas básicas: não existem formulários adequados para a distribuição RDA — o mecanismo que organiza e reparte tarefas entre magistrados e serviços — e muitos computadores estão obsoletos. A isto somam‑se dificuldades recorrentes na assinatura de notificações e a ausência de ferramentas mínimas para organizar e distribuir o trabalho, agravando a sobrecarga já existente.
No plano infraestrutural, a situação não é menos preocupante. Há tribunais onde decorrem obras com magistrados em funções, salas de audiências inutilizadas por infiltrações e equipamentos danificados, além da falta de espaços adequados para diligências, comprometendo a normalidade e a dignidade do serviço prestado.
A aplicação da deliberação sobre conteúdos funcionais — que define as matérias e juízos assegurados por cada procurador — agrava ainda mais a sobrecarga. Os magistrados de Família e Menores acumulam funções nos juízos locais cíveis, situados em edifícios distintos, o que implica deslocações constantes e jornadas que frequentemente se prolongam das 9h às 20h. A sobreposição de diligências, a alternância entre matérias e a dispersão de serviços prejudicam a preparação dos atos e afetam a qualidade do serviço prestado ao cidadão.
O SMMP alerta que este conjunto de fatores põe em causa a proteção das vítimas, a qualidade do serviço e a saúde dos profissionais. O Sindicato defende uma intervenção urgente nos recursos humanos, nas condições de trabalho e nas infraestruturas, sob pena de a justiça na região entrar em rutura.
Esta manhã realiza‑se, em Aveiro, a última reunião plenária promovida pelo SMMP. Até ao final do mês será divulgado o diagnóstico nacional sobre as condições de trabalho do Ministério Público e entregue à tutela um caderno reivindicativo com as medidas consideradas essenciais para recuperar condições mínimas de funcionamento da justiça.

*Gabinete de Imprensa
Rogério Bueno de Matos
Ana Clara Quental

Viana do Castelo, 14 de abril de 2026


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