Há expressões que, de tanto as ouvirmos, parecem ter nascido conosco ,como se a língua portuguesa, ao ser aprendida, viesse com um pequeno manual de sobrevivência para os desastres nacionais. Uma dessas expressões é o célebre “Isto vai ser um 31”. Dita com aquela resignação lusitana que combina fatalismo com humor, ela anuncia o inevitável: a confusão iminente, o caos em potência, o desastre já confirmado.
Mas o que poucos sabem é que esta expressão não nasceu num café, nem num bairro lisboeta, nem sequer numa mesa de café em Coimbra, embora pudesse muito bem ter acontecido em qualquer desses cenários. O “31” vem, pasme-se, da História de Portugal, e mais precisamente, do 31 de Janeiro de 1891, data do primeiro ensaio republicano na cidade do Porto.
Nessa madrugada fria, um grupo de militares e civis decidiu que a Monarquia já tinha dado o que tinha a dar. Queriam proclamar a República, assim, de espada na mão, bandeiras ao vento e uma esperança ingénua no peito. Infelizmente, Lisboa dormia e o país também. O movimento foi rapidamente abafado, muitos insurgentes foram presos, e o episódio acabou num daqueles fiascos que só a História portuguesa sabe narrar com tanto charme.
Mas o estrago estava feito: o 31 de Janeiro ficou como símbolo de revoltas mal planeadas, entusiasmos precoces e consequências incertas. Ou seja, tudo aquilo que caracteriza uma boa trapalhada nacional. Daí a expressão: quando algo promete confusão, o português não diz “isto vai correr mal”, diz, com ironia e uma piscadela de olhos à História, “isto vai ser um 31”.
O mais curioso é que, com o passar das décadas, o sentido político dissipou-se. Ninguém pensa hoje em republicanos, nem em insurreições, quando profere a fatídica frase. Pensa-se, talvez, em obras que nunca acabam, em jantares de família onde ninguém se entende ou em debates parlamentares onde todos falam e ninguém ouve. O “31” tornou-se um estado de espírito português, aquele caos ordeiro em que o desastre é anunciado, mas ninguém desiste.
Em suma, o “31” não é apenas uma data, é uma metáfora do nosso país, só que, no entanto, abriu caminho para o 5 de outubro de 1910. Um lugar onde tudo pode correr mal, mas onde, de alguma forma inexplicável, as coisas acabam sempre por se compor.
E assim seguimos, entre fiascos e esperanças, revoluções falhadas e rearranjos de última hora. Porque no fundo, sejamos honestos, Portugal sempre foi um eterno 31,com final feliz à moda antiga.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor