sexta-feira, 15 de julho de 2016

Macroscópio – Theresa May, o Brexit e a visão de Washington

Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher
Boa noite!

Como vos disse no último Macroscópio, estou em Washington em trabalho de reportagem para o Observador, mas não deixo por isso de estar atento ao mundo. E, eu como muitos, estou certo, também não deixam de se surpreender com a forma como a política no Reino Unido parece sempre mover-se a uma velocidade mais elevada do que no resto da Europa ou nas outras democracias. A forma como Theresa May chegou a primeira-ministra e formou o seu governo é disso um bom exemplo. Sabíamos que, em Downing Street, a substituição do locatário do nº 10 se pode fazer logo na manhã do dia seguinte às eleições com toda a naturalidade de quem lida com esta coisa da soberania do Parlamento há mais de 300 anos. Mas não tínhamos ideia de que era possível resolver em tão poucas semanas a luta pela liderança dos conservadores depois de David Cameron ter anunciado que deixava o cargo, nem que poucas horas depois de ter recebido a confirmação por parte da Rainha Isabel II, Theresa May já tinha o seu governo praticamente formado. Se nos recordarmos de como foi demorado o processo em Portugal no final do ano passado (e sem substituição de lideranças) ou como está a eternizar-se o processo em Espanha, não podemos deixar de admirar o sentido prático dos britânicos, que vai a par com um respeito enraizado pelas regras da democracia, mesmo as não escritas, como sucede no Reino Unido.

Mas adiante, que interessa começar por saber quem é esta mulher que vai liderar os tories e já está a residir no tal nº 10 de Downing Street. O Milton Cappelletti fez dela um perfil alargado num especial do Observador, Theresa May: o que quer e o que pensa a “Rainha de Gelo”, de que destaco a seguinte passagem: “É fácil compará-la a Margaret Thatcher, uma vez que a Dama de Ferro foi a última mulher a liderar o Reino Unido, entre 1979 e 1990. No entanto, a própria May faz questão de desvalorizar as semelhanças ao afirmar que a antiga primeira-ministra foi “absolutamente única”. “As pessoas adoram fazer comparações, mas eu só quero prosseguir o nosso trabalho”, disse numa entrevista ao jornal Daily Telegraph, publicada este sábado.”

Vale a pena, também, passar os olhos por essa entrevista, dada antes de se saber que tinha ficado sozinha na corrida à liderança dos conservadores. Reparem no curioso título: Theresa May interview: 'Red boxes are very much banned from the bedroom'. Eis a explicação para o título desta entrevista que procurar também revelar quem é esta mulher: “It comes as no surprise that she can make her own pasta as well as her own decisions, enjoys walking holidays with her husband in Switzerland and Wales and is a night owl who stays up into the small hours working. “Red boxes are very much banned from the bed and indeed the bedroom,” she chuckles. “I just send Philip up without me if I have lots to do. But he is terribly thoughtful with the little touches that matter so he might bring me an unexpected cup of tea. He’s also very good about flowers, which is nice.” 
(Para quem não quiser googlar para conhecer o significado de “red boxes”, eu explico: trata-se do nome dado informalmente às pastas usadas pelas ministros britânicos para levarem os seus documentos, uma daquelas tradições a que todos se mantêm fieis.)

No mesmo Telegraph pode ler-se um perfil mais esquemático, mas também mais exaustivo da nova primeira-ministra britânica –Who is Theresa May? A profile of Britain's new Prime Minister – enquanto a The Economist a apresenta num texto onde também fala dos seus tremendos desafios, The irresistible rise of Theresa May. Aí se nota que “As home secretary for six years, she built a reputation as a moderniser, picking fights with the police. She was quicker than most Tories to see which way the wind was blowing on issues such as gay marriage; in 2002 she warned that many voters saw the Conservatives as the “nasty party”. She is a child of England’s home counties, without the privileged background of the outgoing prime minister, David Cameron, and many of his circle.”


Voltando ao Telegraph, este diário conservador defende em editorial que The Tory Party may have found another iron lady in Theresa May. Isto porque “Mrs May has exactly the right qualifications to be prime minister. Aside from a wealth of experience in opposition, she has also made a place for herself in the history books by holding on to the home office brief for so unusually long. This difficult, controversial department is where political reputations usually go to die (…). By contrast, Mrs May proved herself willing to challenge the police on the one hand and the human rights racket on the other – while showing common decency”.

Mas passemos ao seu gabinete, começando por conhecer os seus principais nomes com a ajuda da excelente (e muito objectiva) síntese do Politico, Everything you need to know about Theresa May’s new cabinet. Antes de apresentar, um a um, os principais ministros, aquele jornal online escreve que “Theresa May began ruthlessly clearing out a host of David Cameron loyalists and modernizers Thursday as she continued an opening cabinet reshuffle designed to ease to concerns of the Tory right and promote more women to top jobs. George Osborne, Michael Gove, Stephen Crabb and Nicky Morgan were been axed, making way for a new guard of May supporters. Justine Greening, one of the new prime minister’s closest allies, was handed the Department for Education, becoming the first Tory in the role educated at a comprehensive state school. Greening, who came out as gay last month, was also made minister for women and equalities.”

Já o Financial Times considera que Theresa May’s bold cabinet gambit on band of Brexiters. A leitura do jornal é que “the appointment of Boris Johnson, David Davis and Liam Fox to take Britain out of the EU is a bold move to let pro-Brexit ministers prove that there is a better future outside — and to make it clear where the blame lies if it goes wrong.”

Destes nomes os que chamaram mais a atenção foram os de Boris Johnson, nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros, e David Davis, que ficará encarregado de negociar o Brexit. Comecemos por este último, menos conhecido em Portugal, e que Reuters recordou ser conhecido por 'Charming Bastard' pois era assim que os seus colegas europeus o tratavam nos anos (entre 1994 e 1997) em que teve a responsabilidade das negociação com a União Europeia.

Mas para não ficarmos apenas pela reputação do novo ministro o melhor é conhecer as suas ideias, e acontece que há poucos dias ele publicou um artigo na Conservative Home onde expõe precisamente o que pensa sobre o processo de negociação do Brexit: Trade deals. Tax cuts. And taking time before triggering Article 50. A Brexit economic strategy for Britain. Eis as suas conclusões: “We need to take a brisk but measured approach to Brexit. This would involve concluding consultations and laying out the detailed plans in the next few months. In conjunction with the high intensity negotiating free trade round this increase in certainty will stabilise the markets. As the free trade round and associated economic policies progress, we should see a material increase in foreign direct investment and domestic capital expenditure to take advantage of the opportunities that are created. This means that some of the economic benefits of Brexit will materialise even before the probable formal departure from the EU around December 2018. All economic estimates are subject to the vagaries of the world economy, but this approach should allow us to present to the British electorate in 2020 the early fruits of a successful global trade-based economic strategy as we build our place in the world.”

Boris Jonhson, o carismático líder da campanha pelo Brexit fica com os Negócios Estrangeiros e isso causou um arrepio na espinha de muitos responsáveis da União Europeia, alguns dos quais não hesitaram em expressar a sua opinião com alguma acrimónia. O Telegraph fez um apanhado dessas irritações em 'I wish it was a joke': European leaders furious at Boris Johnson's appointment as Foreign Secretary. No mesmo jornal considera-se contudo que Boris Johnson's enemies will be furious – but Foreign Secretary is the perfect job for this cosmopolitan liberal. Quem o escreve é Tom Harris para quem “Johnson isn’t easily associated with any particular wing of the party – perhaps that’s a source of irritation too. If anything, his political instincts seem to be fairly socially liberal”.

Mas mesmo tendo sido muito rápida esta sucessão, na imprensa não se pede pressa nas negociações. Nem esta parece ser a estratégia dos britânicos, pelo menos a acreditar no que diz, no entrevista ao El Español, uma das figuras mais destacadas do Leave, o eurodeputado Daniel Hannan. Em "No activaremos el 'brexit' hasta tener alguna idea de las relaciones futuras con la UE", aquele o jornal de Madrid apresenta como “el ideólogo de la campaña de la salida británica del club de los 28”, disse que  “A su juicio, la separación debe hacerse sin acritud, de forma amistosa y negociada para que las dos partes salgan beneficiadas. La salida podría completarse en 2019, según sus cálculos. Su opinión coincide con la de David Davies. (…) Además, asegura que el Reino Unido respetará los derechos de los españoles y el resto de europeos que ya viven en su territorio, a pesar de que ella aseguró durante las primarias conservadoras para sustituir a David Cameron en un tiempo récord que ningún residente tenía nada asegurado.”

A ideia de que a negociação deve ser feita com calma e levando o tempo que for necessário também é defendida no Financial Times por Philip Stephens, em Theresa May (and Angela Merkel) should play Brexit long. É um artigo onde se nota que “Brexit means Brexit” is Mrs May’s favourite phrase. It offers assurance to Tory Outers who worry about her commitment to withdrawal. It says nothing, though, about the shape of post-Brexit relations. The new prime minister has avoided showing her hand on where she wants to draw the balance between access to the single market and national control of immigration policy. This will be the subject of two sets of negotiations — the first with her own party, where the interests of business will collide with the ideology of Little Englanders, and then with the other 27 EU states. The former may be harder than the latter.”

A The Economist vai um pouco mais longe ao defender um Brexit o mais minimal possível em May time. Eis os votos da equipa editorial da revista: “The single market is not a romantic ideal but a way of letting companies trade across borders. Free movement allows British firms and universities to recruit workers and students more flexibly, and lets Britons work and study abroad. These are the practical arguments for negotiating a minimalist Brexit—and their urgency will grow as Britain’s economic predicament worsens. Mrs May seems to be no liberal, but we hope she will champion the conservative case for staying close to Europe.”

E neste ponto deste já longo Macroscópio, uma vez que me encontro nos Estados Unidos, não posse deixar de vos sugerir uma achega deste lado do Atlântico, neste caso uma análise de Daniel W. Drezner saída no Washington Post e já com algumas semanas mas que continua a fazer muito sentido: What does Brexit mean for the 2016 election? Pequena passagem: “Brexit allows Americans to witness what Trump-like policies will produce over the next four months. If the effects are not that great, then I would agree with Bremmer and conclude that Brexit won’t matter in November. If the effects are strongly negative, however, then the Clinton campaign will have a strong incentive to tether Trump to all of the bad things happening in Britain.”

Até ao momento, e já passou quase um mês, não surgiram efeitos que possam ter impacto suficiente para sequer serem notados pelos eleitores americanos. O que há, mas disso me tenho ocupado por aqui, é muitos pontos comuns nas motivações dos eleitores que deram a vitória do Brexit e daqueles que permitiram que Trump triunfasse na primárias republicanas. Mas isso são contas de outro rosário, que guardo para mais tarde. Para já, e como despedida por hoje, deixo-vos uma derradeira sugestão: olhem para os sapatos de Theresa May, que parecem estar a apaixonar os britânicos. O Observador mostra-lhe 15 desses sapatos em Porque é que toda a gente quer saber sobre os sapatos de Theresa May. E isto é sexismo? Deixo a resposta para si.


E por hoje é tudo. O Macroscópio regressará ao vosso convívio na próxima semana, de novo a partir de Lisboa. E não desesperem com a vaga de calor dos próximos dias, pois aqui em Washington tenho vivido com temperaturas igualmente elevadas (e muita humidade) desde o início da semana.

Tenham boas leituras e um descanso retemperador.

(O Observador está em reportagem em Washington, na contagem decrescente para as convenções republicana e democrata com o apoio da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento)

 
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