Numa entrevista recente conduzida por Sandra Felgueiras, André Ventura afirmou que António de Oliveira Salazar morreu pobre, procurando enquadrar historicamente a ideia de que o ditador português não acumulou fortuna pessoal durante o exercício do poder. A afirmação gerou polémica imediata, como sucede sempre que o Estado Novo regressa ao debate público. Importa, contudo, analisá-la com o distanciamento crítico próprio do historiador, separando factos históricos, memória coletiva e uso político contemporâneo.
Este texto não pretende constituir uma defesa política de André Ventura, nem tão-pouco uma reabilitação do salazarismo enquanto regime autoritário. O objetivo é clarificar dados históricos e compreender porque razão certas ideias sobre Salazar continuam a ter ressonância numa parte significativa da sociedade portuguesa.
A ideia de que Salazar morreu pobre não é nova nem resulta de qualquer revisionismo recente. Há muito que a historiografia e diversos testemunhos apontam para o facto de o antigo Presidente do Conselho ter vivido de forma austera e de não ter deixado fortuna pessoal relevante. Quando morreu, em 1970, não eram conhecidas contas bancárias avultadas, património imobiliário significativo ou investimentos financeiros expressivos em seu nome. Os seus bens resumiam-se, essencialmente, a objetos pessoais, livros e haveres modestos. Este dado não iliba o regime das suas práticas repressivas, da censura ou da ausência de liberdades políticas, mas é um facto histórico que não deve ser ignorado.
A própria análise histórica do Estado Novo mostra que esta lógica de sobriedade material não se limitou a Salazar. Américo Tomás, Presidente da República durante grande parte do regime, tinha cerca de 200 contos na conta bancária quando morreu, um valor que está longe de qualquer ideia de enriquecimento pessoal ilícito. Este dado, frequentemente referido pelos historiadores, ajuda a compreender que, ao mais alto nível do regime, não existia um padrão sistemático de acumulação privada de riqueza comparável ao de outras ditaduras do século XX, sem que isso invalide a existência de privilégios, clientelismo e profundas desigualdades estruturais.
Ventura afirmou também que os primeiros anos da governação de Salazar foram positivos para o país. Do ponto de vista histórico, esta afirmação não é falsa, embora exija enquadramento. Quando Salazar assume a pasta das Finanças, em 1928, Portugal encontrava-se numa situação de profunda desordem financeira. O equilíbrio orçamental alcançado nos anos seguintes, o controlo da despesa pública e a estabilização monetária são factos amplamente reconhecidos pela historiografia. A neutralidade portuguesa durante a Segunda Guerra Mundial, ainda que pragmática e cuidadosamente negociada, poupou o país à destruição humana e material que marcou grande parte da Europa. Estes resultados concretos explicam, em parte, a perceção positiva que alguns setores da população mantiveram durante décadas.
Essa perceção não é apenas um fenómeno recente nem exclusivo de determinados quadrantes políticos. Em 2007, Salazar foi eleito a maior figura da História de Portugal no concurso televisivo "Os Grandes Portugueses", promovido pela RTP e decidido por votação popular. Independentemente das críticas que o formato possa suscitar, o resultado é um dado sociológico relevante: demonstra a persistência de uma memória positiva de Salazar em amplos setores da sociedade portuguesa, muito para além de simpatias ideológicas organizadas.
É neste contexto que deve ser entendida a referência feita por André Ventura à sua avó, socialista, que usava a expressão de que "era preciso três Salazares para endireitar o país". Enquanto força de expressão, a frase não traduz uma adesão ao regime, mas antes uma perceção popular associada à ideia de rigor financeiro, autoridade e ordem. Trata-se de um exemplo claro de como a memória histórica se constrói muitas vezes a partir de resultados concretos — contas certas, estabilidade — e não de uma análise global do sistema político.
Reconhecer estes factos não equivale a absolver o Estado Novo. A consolidação financeira e a estabilidade externa coexistiram com repressão política, censura, polícia política, ausência de direitos fundamentais e, mais tarde, com guerras coloniais prolongadas e desgastantes. A história não se faz de balanços morais simplistas, mas de análise crítica e contextualizada.
O debate público ganha quando se apoia em factos verificáveis e perde quando transforma a história num instrumento exclusivamente ideológico. Reconhecer que Salazar morreu pobre, que endireitou as contas públicas nos primeiros anos e que manteve Portugal fora da guerra não significa branquear o regime. Significa, apenas, compreender porque razão estas ideias continuam a surgir no discurso político e na memória coletiva portuguesa.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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