quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Crónica - O papel dos militares em estados de calamidade na nossa História

Em 1755, quando Lisboa ainda ardia e o chão mal deixara de tremer, soldados patrulhavam ruas cobertas de escombros, removiam cadáveres e impunham ordem numa cidade devastada. Em 2026, 2 800 militares atravessam águas turvas, desobstruem estradas submersas e resgatam populações isoladas pelas cheias. Separados por quase três séculos, estes dois momentos revelam uma continuidade profunda na História de Portugal: em estados de calamidade, os militares são chamados a servir a população.
O terramoto de 1 de novembro de 1755 foi uma das maiores catástrofes da Europa moderna. Sismo, tsunami e incêndios sucessivos destruíram grande parte da capital do império português. A resposta do Estado, dirigida por Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, foi rápida e estruturada. O Exército foi mobilizado para impedir saques, garantir segurança e restabelecer a autoridade numa cidade mergulhada no caos.
A presença militar foi decisiva. Tropas patrulharam ruas, criaram cordões de segurança e asseguraram o cumprimento das medidas impostas pelo governo. Participaram na remoção de escombros e na eliminação de focos de insalubridade, transportando muitos cadáveres para o mar para evitar epidemias. A disciplina e a cadeia de comando militar tornaram-se instrumentos essenciais para evitar o colapso social.
Mas o papel dos militares não terminou na fase de emergência.
A reconstrução de Lisboa foi confiada a engenheiros militares altamente qualificados: Manuel da Maia, brigadeiro e engenheiro-mor do Reino; Eugénio dos Santos, capitão de engenheiros; e Carlos Mardel, tenente-coronel. Nenhum era coronel, embora essa designação seja por vezes repetida de forma imprecisa. Todos pertenciam ao Corpo de Engenheiros Militares, que reunia o saber técnico mais avançado da época.
Sob a sua direção nasceu a Baixa Pombalina, concebida segundo princípios de racionalidade urbana e inovação estrutural. A chamada “gaiola pombalina”, estrutura interna de madeira pensada para conferir resistência sísmica aos edifícios, tornou-se símbolo dessa modernidade construtiva.
E aqui surge um episódio particularmente revelador: segundo tradição amplamente referida na historiografia, foram utilizados militares para testar a resistência das novas estruturas. Tropas terão sido mandadas marchar ritmicamente junto ou no interior dos edifícios em construção, provocando vibrações que simulavam abalos sísmicos. Não se tratava ainda de ciência experimental nos moldes modernos, mas de um ensaio empírico pioneiro — um gesto que unia disciplina militar e inovação técnica ao serviço da segurança pública.
Quase 270 anos depois, o país enfrenta cheias severas que afetaram várias regiões. A resposta voltou a envolver as Forças Armadas. Cerca de 2 800 militares encontram-se no terreno, apoiando populações, removendo destroços, assegurando transportes, montando infraestruturas provisórias e colaborando estreitamente com a Proteção Civil e autarquias.
A diferença entre 1755 e 2026 reside nos meios tecnológicos; a continuidade está na função. Ontem como hoje, as Forças Armadas disponibilizam capacidade logística, engenharia, rapidez de mobilização e uma cadeia de comando eficaz — elementos cruciais quando as estruturas civis se veem pressionadas por acontecimentos excecionais.
Outras calamidades marcaram a nossa História — como as cheias de 1967 na região de Lisboa ou grandes incêndios florestais nas últimas décadas — e também aí os militares desempenharam papéis relevantes. Mas é na comparação entre o terramoto que redesenhou Lisboa e as cheias atuais que se percebe com maior nitidez essa linha de continuidade histórica.
Em estados de calamidade, o país não pede guerra; pede organização. Não exige força ofensiva; exige capacidade de servir. E, ao longo da nossa História, os militares portugueses têm sido chamados, repetidamente, a cumprir essa missão.
Entre o chão que tremeu em 1755 — onde soldados testavam as próprias estruturas que ajudavam a erguer — e as águas que hoje sobem, permanece uma certeza: nas horas mais difíceis, a disciplina, a engenharia e o sentido de missão continuam a ser um dos pilares da resposta nacional.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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