Natural do Bunheiro, concelho da Murtosa, António de Abreu Freire possui um percurso académico singular, marcado pela conjugação entre as Ciências Humanas — área em que se doutorou em Paris — e a Física, área na qual concluiu igualmente um doutoramento no Canadá. Esta formação multidisciplinar reflete-se na diversidade da sua obra, que abrange áreas como a História, a Antropologia, a divulgação científica e a literatura de cordel.
No seu mais recente livro, "O Advento do Quinto Império", o autor revisita um dos temas mais emblemáticos e complexos da cultura portuguesa: o mito do Quinto Império. A obra propõe uma reflexão aprofundada sobre o messianismo português, cuja origem remonta às profecias bíblicas do Livro de Daniel e que ganhou expressão maior através do pensamento do Padre António Vieira, no século XVII.
Reconhecido especialista na vida e obra de Vieira, António de Abreu Freire analisa a evolução desta ideia ao longo do tempo, desde a visão de um império espiritual e religioso liderado por Portugal até à sua transformação, na modernidade, num ideal de império cultural, de paz e de língua.
Mais do que uma análise histórica e filosófica, o livro convida o leitor a refletir sobre o destino de Portugal e sobre a pertinência de um pensamento messiânico num contexto global contemporâneo.
A sessão terá lugar na Casa Museu João de Deus, em São Bartolomeu de Messines, e contará com entrada livre.
+ sobre “O Advento do Quinto Império” Pelos 400 anos da canonização da Rainha Santa Isabel:
A utopia da Era do Espírito Santo, criada no século XII pelo monge calabrês Joaquim de Fiore, era uma antevisão do futuro da Igreja, o desejo de uma renovação da comunidade cristã: um projeto ambicioso para a civilização ocidental e latina, mas que não contemplava as outras civilizações, não se estendia ao resto da humanidade. O Quinto Império do padre António Vieira é uma visão profética do futuro da humanidade inteira, a maior utopia jamais saída da mente de um génio e ela é portuguesa. Patriótica até à loucura, certamente, mas uma visão moderna da sociedade e da história humana, inspirada nas virtudes de um povo cristão: uma “feira universal” de fraternidade, onde “ninguém fica indiferente a ninguém, nem mesmo à ideia de um Criador”.
A ideia de uma cidadania mundial tinha surgido no começo do século Vº da nossa era na mente do berbere Agostinho Aurélio quando o Império Romano se fragmentava, invadido por povos bárbaros que criavam dentro das suas fronteiras novos espaços rebeldes de liberdade. Como no tempo d’A Cidade de Deus, confrontamo-nos hoje com uma realidade nova e emergente, instável e dramática, a de uma civilização em declínio que provoca um sentimento de compaixão pelos excluídos, com uma variante: o bispo de Hipona ignorava a dimensão do mundo e a diversidade das civilizações que o pisavam. As ideias reformadoras de Joaquim de Fiore encontraram acolhimento junto dos soberanos mais poderosos da Europa medieval e chegaram a Portugal com Isabel de Aragão, a esposa de D. Dinis que criou, após a extinção da Ordem dos Templários (1312), um extraordinário movimento popular para continuar e alargar a prática das Obras de Misericórdia: as Irmandades do Espírito Santo, a primeira ação social comunitária e solidária de combate à exclusão, cujos rituais já se praticavam em Alenquer em 1320. A Ordem da Milícia de Cristo, criada por D. Dinis um ano antes, em 1319, dava continuidade e absorvia a função militar e administrativa dos Cavaleiros do Templo; as Irmandades recriaram os rituais da compaixão e da justiça como prenúncios proféticos de um futuro de paz e de felicidade – qual Jerusalém Celeste do Apocalipse.
A dinastia de Aviz endossou o projeto fabuloso de um grande Império cristão e universal, onde a nova Ordem de Cristo desempenharia um papel fundamental. D. Afonso V encomendou ao erudito veneziano Fra Mauro um mapa-mundi; foi-lhe entregue em 1459 e mostrava que, pelos oceanos, se podiam contactar todos os povos de todos os climas da Terra. O papa Nicolau V concedera ao rei português autorização para conquistar uma boa parcela do mundo e submeter todos os infiéis dessas terras à escravidão (bulas Dum Diversas (1452) e Romanus Pontifex (1455). O Império sonhado não se realizou de maneira duradoura, mas foi um dos maiores desafios da humanidade: tão rápido e violento quanto sublime, o projeto pareceu eterno enquanto durou. Como na saga de Ourique, onde se enraizou a Utopia portuguesa do Império, o Divino todo-poderoso não esmagou com palavras nem gestos o poderio dos inimigos; antes exigiu dos crentes o combate para assegurar a vitória e para que acontecesse o milagre. Na hora das lutas, cada qual fez-se predador, as mãos sujas de sangue, para sair vivo da peleja e com o seu quinhão de saque. O Império – Deus o quis - far-se-ia com armas e valores, e só com vitórias e virtudes ressuscitaria. Era necessário reconquistar Jerusalém! Graças a tamanho e tão ousado desafio, contam-se hoje uns 250 milhões de criaturas que falam todos os dias a língua mátria portuguesa.
No tempo da utopia do Vº Império de Vieira, no século XVII, já não restava nenhum pedaço de mundo nem nenhuma civilização por encontrar, mas o sonho imperial português tinha-se desfeito. No nosso tempo, a quantidade de humanos excluídos da cidadania é assustadora e ninguém mais ignora a dimensão do planeta e a diversidade das criaturas que o povoam. Arquitetos, obreiros e artesãos do futuro, enfrentam desafios inéditos, jamais imaginados, para alcançar uma nova era de paz, de liberdade e de fraternidade, qual novo Império do Divino, na versão encantadora e quase romântica da diáspora portuguesa que preserva os rituais do movimento criado em Portugal há mais de 700 anos pela Rainha Santa Isabel: o advento de um mundo novo.
Este livro é também uma parábola poética sobre um dos temas mais emblemáticos e complexos da cultura portuguesa: uma abordagem liberal do messianismo português, cuja origem remota se encontra numa narrativa bíblica do livro do profeta Daniel. Abreu Freire, reconhecido especialista na vida e obra do padre António Vieira, explica como esta utopia, inicialmente um projeto de expansão religiosa e espiritual liderado pela coroa portuguesa, evoluiu ao longo dos séculos, desde o tempo da Rainha Santa Isabel até aos nossos dias, exibindo como símbolos pombas, espadas e coroas, monges e cavaleiros. Uma reflexão sobre o destino de Portugal, questionando a relevância da ideia persistente de um futuro messiânico num mundo globalizado.
A Rainha Santa Isabel foi canonizada há 400 anos, a 24 de junho de 1625. “Assim, este livro é mais do que um tributo a uma Rainha: é um hino à solidariedade, um testemunho de fé na humanidade e um convite à ação”. São 140 páginas de uma escrita que revela muito mais para além daquilo que conta. Não tinha só rosas, no avental de Isabel!