segunda-feira, 5 de junho de 2017

A privacidade online, um problema antigo

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4.0 Tecnologia, inovação e empreendedorismo
 
 
  João Pedro Pereira  
“São os FBIs, as NSAs e as Equifaxes [uma multinacional de análise de risco de crédito] do mundo contra um movimento crescente de cypherpunks, libertários civis e hackers milionários. Em jogo: se a privacidade vai existir no século XXI.”
Este parágrafo dá o mote para o tema de capa da segunda edição da revista Wired, publicada em 1993. O artigo, escrito pelo afamado jornalista de tecnologia Steven Levy, era premonitório em relação a um dos temas quentes da década em que vivemos.
Aquela Wired chegou às bancas poucos anos após a invenção da Web. O Google ainda não existia. E muito menos sites para partilhar vídeos, como o YouTube. As redes sociais online no seu formato moderno (como são o Facebook e o Twitter) demorariam uma década a aparecer e mais algum tempo a massificarem-se.
Com a adopção em massa da Internet e com a criação de todo o tipo de plataformas de publicação e comunicação online, o problema da privacidade tornou-se mais agudo. Sob o espectro do terrorismo, o tema tem sido amplamente discutido, particularmente desde que Edward Snowden revelou os métodos de ciberespionagem em larga escala da Agência Nacional de Segurança dos EUA (a mesma NSA de que a Wired falava).
 Os ataques em Londres trouxeram um novo episódio. Num discurso feito neste domingo, a primeira-ministra britânica enumerou, de forma genérica, várias estratégias de combate ao terrorismo. Entre elas, uma regulação da Internet, feita internamente e também no plano internacional:  
“Não podemos permitir a esta ideologia o espaço seguro de que precisa para crescer. Porém, é precisamente isso que oferecem a Internet e as grandes empresas que fornecem serviços na Internet. Precisamos de trabalhar com os governos democráticos nossos aliados para chegar a acordos internacionais que regulem o ciberespaço, para prevenir a disseminação do extremismo e o planeamento do terrorismo. E precisamos de fazer tudo o que conseguirmos cá dentro para reduzir os riscos do extremismo online.”
É razoável pensar que a referência aos governos democráticos serve para equilibrar a intenção de percorrer o caminho muito estreito que é o de vigiar e controlar a Internet dentro dos limites de uma democracia saudável. Não é difícil resvalar para práticas próximas das que existem em muitas ditaduras.
Como bem argumenta este artigo de opinião no Guardian, culpar a Internet (algo que vai acontecendo recorrentemente neste género de situações) não é o melhor caminho:
Podemos estar bastante seguros de que os atacantes da Ponte de Londres faziam as seguintes coisas: tinham smartphones; e usavam o Google, o YouTube, o Facebook e o WhatsApp. Isso não acontece porque ter essas coisas e usar esses serviços identifique alguém como terrorista; é porque identifica alguém que vive no Ocidente no século XXI.”
Reler aquele artigo da Wired de 1993 mostra que já nos primórdios havia quem se preocupasse com possíveis excessos dos Estados no que diz respeito à vigilância da Internet. Quase um quarto de século depois, a questão está longe de resolvida.

Digno de nota

- É uma decisão que terá deixado muitos anunciantes e gestores de sites com as mãos na cabeça: o Google vai incluir, a partir do início do próximo ano, um bloqueador de publicidade no browser Chrome. Os bloqueadores são cada vez mais populares, mas, por agora, é preciso que sejam instalados pelos utilizadores. Incluir um no browser mais usado do mundo vai estender esta funcionalidade a milhões de pessoas que não têm os conhecimentos ou a vontade de instalar uma extensão como o AdBlock. O bloqueador do Google, porém, vai apenas funcionar em páginas onde a publicidade seja demasiado invasiva e não cumpra critérios de qualidade.
- A Microsoft trouxe para a Europa um sistema de pontos (que já existia nos EUA) para quem fizer pesquisas no motor de busca Bing. Os pontos podem ser acumulados (duplicam se for usado o browser Edge, o sucessor do Internet Explorer) e trocados por aplicações e jogos, por assinaturas de serviços pagos da Microsoft, ou por donativos a associações de solidariedade. É uma táctica legítima para atrair utilizadores, mas também revela as dificuldades da empresa para concorrer com o motor de busca do Google e com o Chrome (não se apresse a clicar no Edge e ir ao Bing: por ora, não há planos anunciados para trazer o sistema de recompensas para Portugal).
- Há “likes” que saem caros. Na Suíça um homem foi condenado a pagar quatro mil francos suíços (perto de 3700 euros) por ter feito “like” no Facebook em publicações consideradas difamatórias. O tribunal argumentou que “ao clicar no botão de like, o arguido endossou claramente o conteúdo indecoroso e tornou-o o seu próprio ponto de vista”; e que, além disso, o disseminou pela sua rede de contactos.
4.0 é uma newsletter semanal dedicada a tecnologia, inovação e empreendedorismo. O conteúdo patrocinado nesta newsletter não é responsabilidade do jornalista. Críticas e sugestões podem ser enviadas para jppereira@publico.pt. Espero que continue a acompanhar.

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