quinta-feira, 30 de março de 2017

Por que não devemos desacreditar a Companhia de Jesus

Roberto de Mattei (*)
Pintura de Santo Inácio de Loyola com armadura militar. Autor anônimo, séc. XVI, escola francesa. Quadro exposto no museu da Igreja de São Roque em Lisboa.
Pintura de Santo Inácio de Loyola com armadura militar. Autor anônimo, séc. XVI, escola francesa. Quadro exposto no museu da Igreja de São Roque em Lisboa.
Entre as consequências mais desastrosas do pontificado do Papa Francisco há duas, intimamente ligadas entre si: a primeira é a deturpação da virtude tipicamente cristã da obediência; a segunda é o descrédito lançado sobre a Companhia de Jesus e seu fundador, Santo Inácio de Loyola.
A obediência é uma virtude insigne, reconhecida por todos os teólogos e praticada por todos os santos. Ela tem seu modelo perfeito em Jesus Cristo, de quem São Paulo diz que se tornou “obediente até à morte, e morte de cruz!” (Fil 2, 8). Ser obediente significa estar com Cristo (2 Cor 2, 9) e viver plenamente o Evangelho (Rom 10, 16; 2 Tessalonicenses 1, 8).
Assim, os Padres e os Doutores da Igreja definiram a obediência como a guardiã e a mãe de todas as virtudes (Santo Agostinho, De Civ. Dei, Liber XIV, c. 12). O fundamento da obediência é a subordinação aos superiores, por representarem a própria autoridade de Deus. Mas eles a representam enquanto guardando e aplicando a lei divina, a qual, por sua vez, é superior ao poder humano dos encarregados de fazê-la respeitar. A obediência é para um religioso a mais excelsa virtude moral (Summa Theologica 2-2ae, q. 186, AA. 5, 8). No entanto, peca-se contra essa virtude não só pela desobediência, mas também pelo servilismo, conformando-se com as decisões flagrantemente injustas dos superiores.
A deturpação da obediência no pontificado do Papa Francisco ocorre quando os bispos ou o próprio Papa abusam de sua autoridade, exigindo dos fiéis uma submissão servil a documentos que induzem à heresia ou à imoralidade. Essas orientações pastorais não podem ser aceitas. Mas a tentação daqueles que, nesta situação confusa, querem permanecer firmes na fé, é a de questionar não apenas o exercício abusivo da autoridade, mas o próprio princípio de autoridade. Isto é favorecido por uma certa propensão psicológica ao anarquismo que caracteriza as gerações nascidas depois da Revolução de Maio de 1968. Minguando o princípio de autoridade, perde-se o significado da virtude da obediência, com efeitos graves para a vida espiritual.
Primeira edição dos Exercícios Espirituais, em latim, de 1548.
Primeira edição dos Exercícios Espirituais, em latim, de 1548.
Nesta perspectiva, atribuem-se às vezes aos jesuítas culpas que não são suas, como a de terem introduzido na Igreja uma concepção hipertrofiada e voluntarista da obediência religiosa. Cita-se a tal respeito o convite de Santo Inácio de Loyola à “obediência cega”, deturpando o significado que o fundador da Companhia de Jesus dá a essa virtude. A palavra “cega” evoca de fato a irracionalidade, mas se entre os santos há um campeão da racionalidade, este é Santo Inácio, cujos Exercícios Espirituais [capa ao lado] são uma obra-prima de lógica, com base na aplicação do princípio da não-contradição à vida espiritual e moral do exercitando.
A afirmação de Guilherme de Ockham segundo a qual tudo quanto Deus manda é justo, mas poderia mandar também o injusto (iustum quia iussum), deitou as bases para o voluntarismo de Lutero, que representa a antítese do conceito inaciano. A obediência cega a que Inácio se refere seria irracional se prescindisse da razão, a qual constitui pelo contrário, como ele explica, o seu pressuposto, porque tal obediência é o resultado de uma atenta e cuidadosa reflexão (Monumenta Ignatiana (MI), G. Lopez del Horno, Madrid 1903I, 4, pp. 677-679). A obediência inaciana nada tem a ver com o voluntarismo, precisamente porque é baseada na lógica e no respeito de uma lei divina e natural objetivas, às quais o superior deve subordinar-se.
Santo Inácio trata da obediência nas Constituições da Companhia, na Carta sobre a Obediência dirigida aos jesuítas de Portugal em 26 de março de 1553, bem como em muitas outras cartas, como as que escreveu aos escolásticos de Coimbra, à Comunidade de Gandia, aos jesuítas em Roma, a Andrés Oviedo, ao Pe. Urbano Fernández. Nesses documentos ele deixa claro como a obediência tem limites precisos: o pecado e a prova em contrário. Nas Constituições, por exemplo, Santo Inácio diz que os jesuítas devem obedecer ao Superior “em todas as coisas onde se não vir pecado” (n° 284.); “em tudo que é mandado pelo Superior, e não pode, como se disse, ser argüido de pecado de espécie alguma” (n° 547.); “isto é, em todos os casos em que não há evidência de pecado” (n° 549). Logo, quando a ordem do superior induz ao pecado, deve ser rejeitada. Trata-se naturalmente tanto de pecado mortal quanto de pecado venial, e até mesmo de ocasião de pecado, com tal de que o subordinado que recebe uma ordem injusta esteja subjetivamente certo de sua iliceidade.
Além dessa limitação proveniente da vontade, que é o pecado, há aquela que depende do julgamento, como resulta da carta aos jesuítas de Coimbra de 14 de janeiro 1548, na qual o fundador da Companhia especifica que a obediência é válida enquanto “não se entre em coisa que seja pecado ou que seja de tal maneira conhecida como falsa, que chegue a impor-se necessariamente ao juízo” (MI, I, I, p. 690). Este limite também se expressa na Carta sobre a Obediência, onde o jesuíta é convidado a obedecer “em muitas coisas nas quais a evidência da verdade conhecida não o força” a recusar (MI, I, 4, p. 674). O Pe. Carlos Palmes de Genover S.J., que estudou o assunto, disse: “É claro que a evidência contrária é um limite natural da obediência, pela impossibilidade psicológica de dar o seu consentimento àquilo que se apresenta como evidentemente falso” (La obediencia religiosa ignaciana, Eugenio Subirana, Barcelona, ​​1963, p. 239). Se no pecado o limite é de ordem moral, no caso da evidência é de natureza psicológica. A obediência é portanto “cega” sob determinadas condições, mas nunca irracional.
Quando a evidência mostra que um documento pontifício como a Amoris laetitia promove o pecado, um verdadeiro filho de Santo Inácio só pode rejeitá-lo. E o fato de ele ter sido promulgado precisamente por um filho de Santo Inácio não significa que o Papa Bergoglio seja um fruto autêntico da espiritualidade inaciana, mas mostra quão verdadeiro é o ditado corruptio optimi pessima.
A corrupção moral e intelectual da Companhia de Jesus dos últimos cinquenta anos não deve fazer-nos esquecer suas realizações extraordinárias no passado. Entre a Revolução Protestante e a Revolução Francesa, os jesuítas representaram a barreira impenetrável que a Providência levantou contra os inimigos da Igreja. E o dique se rompeu em 1773, justamente quando um Papa, Clemente XIV, suprimiu a Companhia de Jesus, privando a Igreja de seus melhores defensores.
O Pe. Jacques Terrien empreendeu uma cuidadosa pesquisa histórica sobre uma tradição que remonta aos primeiros dias da Companhia, segundo a qual a perseverança na vocação no interior do Instituto fundado por Santo Inácio seria um penhor seguro de salvação (Recherches historiques sur cette tradition que la mort dans la Compagnie de Jésus est un gage certain de prédestination, Oudin, Paris 1883). Entre os muitos testemunhos que o religioso elenca, dos Bollandistas a Santa Teresa de Ávila, reveste-se de particular interesse uma revelação que teve em 1569 São Francisco de Borja, Prepósito geral da Ordem. “Deus me revelou — afirmou o santo espanhol — que, no espaço de trezentos anos, nenhum daqueles que viveram, vivem ou viverão na Companhia, morrendo na mesma, será condenado. É a mesma graça que já foi concedida à Ordem de São Bento” (Terrien, op.cit, pp. 21-22). Tendo os jesuítas sido fundados em 1540, o privilégio de salvação para aqueles que morreram dentro da Ordem se estenderia até 1840, deixando de fora as gerações sucessivas. E é de fato no final do século XIX que se inicia a decadência da Ordem fundada por Santo Inácio, embora com muitas exceções.
Essa decadência teve uma significativa expressão nos anos do Concílio Vaticano II, durante os quais o jesuíta Karl Rahner desempenhou um papel decisivo, e especialmente naqueles que se lhe seguiram, quando, sob o governo do padre Arrupe, os jesuítas promoveram sob diversas formas a “Teologia da Libertação” na América Latina. Hoje um Papa jesuíta, formado na versão populista argentina dessa teologia, alimenta a crise na Igreja.
Para resistir a uma autoridade exercida abusivamente, peçamos a ajuda daqueles santos jesuítas que nos seus escritos ou nos seus testemunhos de vida mostraram quais são os limites da obediência: de São Roberto Belarmino, que recordava como a regula fidei não está no superior, mas na Igreja, ao Beato Miguel Pro, do qual se comemora este ano o nonagésimo aniversário do martírio, ocorrido em 23 de novembro de 1927, por sua resistência ao governo maçônico do México.
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(*) Fonte: “Corrispondenza romana”, 29-3-2017. Matéria traduzida do original italiano por Hélio Dias Viana.

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