segunda-feira, 3 de abril de 2023

Segundo livro de António Castelo Branco sobre a Gândara. Casa cheia na Biblioteca Municipal de Cantanhede na apresentação editorial “Os Gravetos da Gândara”

 

Os lugares do auditório da Biblioteca Municipal de Cantanhede foram insuficientes para acomodar a assistência da sessão de apresentação editorial de “Gravetos da Gândara”, quarto livro de António Castelo Branco baseado no ambiente sociológico dessa zona litoral do concelho de Cantanhede que se estende também pelos de Mira e Vagos.

Na mesa de honra da sessão realizada no âmbito do II Encontro Cantanhede – História, Arte e Património, o autor esteve acompanhado da presidente da Câmara Municipal, Helena Teodósio, além de Fernando Oudinot Larcher, docente na Universidade de Lisboa, Helena Maria Faria Carvalheiro, presidente do Sindicato de Bancários do Centro, e José Ribeiro Ferreira, professor catedrático jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, a quem coube a apresentação do livro.

Entre a assistência encontravam-se João Moura, presidente da Assembleia Municipal, Pedro Cardoso, vice-presidente da autarquia e responsável pelo pelouro da Cultura, os vereadores Adérito Machado, Célia Simões, Fernando Pais Alves, Carlos Sérgio Negrão e José Santos, José das Candeias Sales, vice-reitor da Universidade Aberta, e Nuno Caldeira, presidente da União das Freguesias de Cantanhede e da Pocariça, entre outros autarcas, além de conterrâneos, amigos e admiradores de António Castelo Branco.

Na sua intervenção, José Ribeiro Ferreira começou por assinalar o facto de a obra ser constituída por “apontamentos percucientes eivados de memória e de sentido (…), um trabalho de recolha direta, não com subtilezas e reservas, mas com pretendido realismo e abertura, porque também a Gândara é o mundo do autor, como ele próprio refere”.

Segundo o académico, os textos “versam sobre pessoas, hábitos e dizeres que raiam, por vezes, quase as crendices, são saberes e fazeres que se foram transmitindo em casas e locais ao longo de tempos e gerações. Às vezes bastam os títulos para nos aguçarem o apetite para a leitura da obra”, afirmou.

Partindo do reconhecimento de que “várias crónicas se poderiam realçar para mostrar o sabor e o saber de antanho que a elas se acopla”, José Ribeiro Ferreira considera que são textos “que tanto mais merecem ou devem ser lidos quanto nos reportam crenças, tradições, usos e dizeres de tempos idos que hoje estão esquecidos, ou meio delidos muitos deles, mas que então acompanhavam as pessoas, lhes davam vida e as fortaleciam dia a dia. Tenho a certeza de que, quem fizer a leitura de Gravetos da Gândara ficará com um espírito culturalmente mais temperado, mais sólido e mais quente”, concluiu.

Sobre Gravetos da Gândara, a presidente da Câmara Municipal, Helena Teodósio, assinalou o regresso – depois de Lazarilhos da Gândara – de António Castelo Branco “ao singular contexto social das primeiras décadas da segunda metade do século XX no território gandarês, reconstituindo-o com uma autenticidade comovente”. A autarca reconheceu na obra “as diferentes dimensões do quotidiano desse tempo, do trabalho às relações laborais, dos deveres conjugais à sexualidade, dos usos e costumes às devoções de uma religiosidade intensa, não apenas nos rituais que lhe eram próprios como também em muitas outras facetas da vida”.

No texto de abertura do livro, Helena Teodósio destaca a “eloquência cativante” do autor, “sobretudo pela expressão vívida que dá às insuficiências e motivações da natureza humana perante condições que no geral eram de grande adversidade”. E acrescenta: “As personagens variam entre gente amarrada a rígidos códigos de conduta e figuras que os subvertiam, em alguns casos por pura ingenuidade, noutros por uma certa astúcia engenhosa que ajudava a ultrapassar obstáculos na tentativa de fuga a esse mundo fechado, claustrofóbico até, pelo menos para os que conseguiam vislumbrar outras realidades fora dele”.

Na sua intervenção, António Castelo Branco agradeceu “o reconhecimento” e manifestou “enorme satisfação por verificar que foi entendida a mensagem do legado cultural”, que procurou registar no livro, “no fundo do património espiritual e imaterial da Gândara. É dele que falo nos Gravetos, os gravetos que trago comigo e que desde a primeira hora devotei às gentes das nossas terras, que me tatuaram logo ao nascer”, afirmou o autor.

A apresentação do livro iniciou-se com a interpretação do Canto às Almas Santas, momento musical de um grupo de cantadores tradicionais da freguesia de Covões, a que se seguiu a leitura de diversos trechos da obra efetuada por Noémia Machado Lopes e José Machado Lopes, amigos do autor. A cerimónia terminou com nova atuação do grupo de cantadores de Covões da música Ladainhas Cantadas, ambas melodias tradicionais da Gândara alusivas a este período da Quaresma.

António Castelo Branco

Natural de Covões, concelho de Cantanhede, António Castelo Branco estudou em Coimbra, onde se licenciou em História.

Afeto profissionalmente às relações-públicas da Banca nesta cidade, aqui acumulou as funções de Coordenador Cultural no Instituto Nacional para Aproveitamento dos Tempos Livres dos Trabalhadores.

A sua formação humanista possibilitou-lhe múltiplos contactos com personalidades ligadas à cultura, particularmente na área da antropologia, onde teve como mestres, Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano, Benjamim Enes Pereira, Tomaz Ribas e outros, com quem posteriormente viria a desenvolver projectos da responsabilidade do Gabinete de Etnografia do Inatel, no decurso das funções que vinha exercendo na delegação de Coimbra.

Para além de dirigente associativo, ligado particularmente a grupos vocacionados para a cultura e ambiente, desempenhou durante sete anos as funções de director do jornal Independente de Cantanhede e do Centro de Estudos Carlos de Oliveira.

Os múltiplos trabalhos têm vindo a publicar, quer em jornais, quer em revistas, bem como as suas comunicações são o resultado de uma aturada investigação e recolha na área da cultura popular.

Gandarês de alma e por nascimento, encontrou aqui um mundo inexplorado no campo das mentalidades, campo esse que, segundo diz, carece de um estudo sociológico profundo.


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