terça-feira, 2 de agosto de 2016

BALEIAS COM MAIS DE 14 METROS AVISTADAS NO ALGARVE


 
Dream Wave / Facebook
Três baleias com mais de 14 metros de comprimento foram avistadas na costa do Algarve, neste domingo. Um fenómeno registado por uma empresa turística e testemunhado por cerca de 80 turistas.
Estes cetáceos surgiram cerca de três milhas (quase cinco quilómetros) a Sul de Armação de Pêra, no Algarve, conforme divulgam os responsáveis da empresa turístia algarvia Dream Wave.
As três baleias-comuns – Balaenoptera physalus – foram avistadas no domingo, por volta das 14 horas, e “tinham entre 14 e 16 metros de comprimento“, de acordo com a empresa, que tinha uma embarcação no local com cerca de 80 turistas a bordo.
A baleia-comum, também conhecida como baleia-fin e rorqual-comum, é o segundo maior animal vivo, depois da baleia-azul.
Não é a primeira vez que se avistam baleias na costa algarvia, por um lado porque “o Algarve reúne excelentes condições de mar” e por outro porque “constitui uma rota importante de passagem e de possível residência, sobretudo para os cetáceos que frequentam o Mediterrâneo e a confluência com o Atlântico”, explica à Visão André Cid, fundador da AIMM – Associação para a Investigação do Meio Marinho.
ZAP

”OS ATLETAS NEGROS DEVERIAM BOICOTAR A OLIMPIADA NO BRASIL”

A advogada Deborah Peterson Small, referência em políticas contra drogas e direitos dos negros nos EUA, diz que o país é mais racista do que quer admitir
A advogada e ativista americana Deborah Peterson Small chegou ao Brasil há uma semana com a expectativa de ser acolhida pelo povo que exporta amor às tradições africanas nas publicidades para turistas. “Descobri um Brasil que não gosta de negros”, diz. Um relato sucinto dos dias de Deborah em terras tupiniquins: em Salvador, num passeio à beira-mar, um homem desconhecido perguntou a Deborah quanto ela custava. “Ele imaginou que, por ser negra e estar numa praia, eu só poderia ser uma prostituta”. Na comunidade do Alemão, no Rio de Janeiro, ela foi recepcionada por policiais armados e com a mão no gatilho. Num hotel em São Paulo, durante o café da manhã, respondeu a cinco funcionários a mesma pergunta: se estava, mesmo, hospedada ali. Ela conta as experiências sem mágoa ou rancor. Aprendeu a viver presa à cor de sua pele, como ela mesmo diz.

Deborah, formada em direito e políticas públicas por Harvard, foi diretora para assuntos legais da New York Civil Liberties Union e de Drug Policy Alliance. Acumula o trabalho na instituição com um pós-doutorado em saúde pública que cursa na Universidade Johns Hopkins. A convite do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, Deborah veio discutir sobre tensão racial e políticas contra drogas. Juntas, são a base da Break the Chains, organização fundada por Deborah. Em entrevista à ÉPOCA, Deborah fala sobre a Olimpíada, o impacto das políticas de drogas na população negra no Brasil, o racismo visível  e o risco que o mundo corre se Donald Trump for eleito.

ÉPOCA – A senhora esteve recentemente no Rio de Janeiro, a cidade-sede dos Jogos Olímpicos, e disse ter se surpreendido, mas não da maneira que imaginava. Por quê?

Deborah Peterson Small – Na minha bagagem pessoal, eu trouxe tudo o que já tinha lido a respeito das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs). Entendi que representavam um avanço para as comunidades carentes, uma ferramenta para reaproximar as pessoas. Mas a UPP não é nada disso. Estava na comunidade do Alemão quando passou uma viatura policial. O passageiro segurava uma arma, voltada para fora do carro. Ele estava com a mão no fuzil, como se cada morador fosse um suspeito. Se essa é a polícia exemplar, o que esperar da ruim? Ainda naquela comunidade, me assustei com as marcas de balas nas casas das pessoas – do Bondinho você via os buracos feitos pelos tiros. Atrás daquelas paredes moram pessoas, famílias com crianças pequenas. Nos Estados Unidos isso não existe, e no Brasil é tão comum que ninguém se espanta. Mas deveria. Isso é violação de direitos humanos. O Rio de Janeiro é uma zona de guerra.

ÉPOCA – Há décadas a senhora estuda a relação entre a política contra drogas e a população negra. O que encontrou no Rio corrobora sua tese?

Deborah – A política contra drogas no Rio é racista. Como em tantos lugares, investidas da polícia no Rio não alcançam consumidores de drogas de bairros nobres e classe média – nem as casas dessas pessoas. E isso vai acontecer na Olimpíada. Criou-se uma percepção, equivocada, de que o consumo e a venda de drogas têm uma cor. Essa falsa consciência mora fora e dentro das comunidades. Quem mora lá acredita que merece aquele tratamento em nome do perigo iminente. Fiquei muito chocada com os números de mortos por polícia no Brasil – e igualmente pasma com as pessoas que aplaudem a polícia que mata. A polícia é a segunda causa de mortes no Brasil. Isso é esquizofrênico. A Olimpíada poderia servir como bandeira para os direitos da população negra.

ÉPOCA – A senhora quer dizer que deveria haver ativismo entre os atletas?

Deborah – Nos Estados Unidos, associações esportistas passaram a boicotar estados com legislações contra gays, por exemplo. Assim como eu, que acreditava que o Brasil era um exportador de cultura afro e amava os seus negros como um igual, outros tantos atletas negros estão chegando para a Olimpíada acreditando nisso. Mas não é verdade. Os atletas negros deveriam boicotar a Olimpíada no Brasil, porque o que está acontecendo aqui é um genocídio lento. Estão matando os seus iguais. E a sociedade lava as mãos, como se não tivesse nada a ver com isso. Historicamente, os negros serviam enquanto traziam dinheiro, ou seja, quando eram escravos. Quando libertados, sem nenhuma ajuda ou acolhimento, o sistema que os escravizou tornou os negros um problema para a sociedade, como se fôssemos um fardo. No universo das drogas, são vistos como os traficantes, os bandidos, os violentos. A quem interessa que sejam vistos assim? A quem interessa que não falemos que essas pessoas não têm acesso à casa, à escola, à família? Não se trata de não batalhar ou não, mas de não chegar ao mundo com as mesmas oportunidades. Não pensamos nisso.

ÉPOCA – Como no Brasil, a polícia americana ganhou manchetes por suspeita de homicídios contra negros. O movimento negro ganhou força pela dor?

Deborah – Sim, mas, acima de tudo, o movimento ganhou força com as mulheres negras – e todos os tipos de mulheres. São os homens delas que estão morrendo, são elas as principais vítimas de violência, inclusive a doméstica. O movimento Black Lives Matter (Vidas negras importam, em tradução livre), que alcançou o mundo todo, foi criado por três mulheres queers (termo usado para representar a população LGBT e também transgêneros e transexuais). E o Brasil segue o mesmo caminho.

ÉPOCA – A senhora sofreu preconceito no Brasil?

Deborah – Antes de responder, queria explicar que, diferentemente dos EUA, onde a luta é entre brancos e negros, no Brasil a batalha é entre negros e não-negros. Aqui, quanto menos negro você for, melhor. As pessoas deixam de usar o cabelo com cachos e roupas afro para parecer menos preto. Eu sou negra, minhas roupas são coloridas e amo bijuterias. As pessoas me olham diferente, porque não estão acostumadas a conviver com uma pessoa como eu. O preconceito aparece no dia a dia. No hotel, durante o café-da-manhã, perguntaram cinco vezes se eu estava hospedada aqui, porque era a única negra sendo servida. Em Salvador, estava à beira-mar com um amigo quando um desconhecido perguntou quanto eu custava. Na cabeça dele, eu só podia ser uma prostituta. Não me entenda mal, eu adoro o Brasil, mas vocês precisam enxergar que são preconceituosos, mais do que gostariam de admitir. Isso não é demérito do brasileiro, apenas. Moro na Califórnia, onde, em tese, as pessoas são descoladas. Toda vez que vou à praia com meu neto de quatro anos e meio, vejo famílias guardando os objetos pessoais, como se meu neto, um bebê de sunga, fosse roubá-los. Tenho outro neto, de oito anos. Ele ainda não entende que a vida dele será diferente, que terá de dar explicações que as outras crianças não precisam aprender. Mas vou precisar ter essa conversa com ele, explicar que quando a vendedora de uma loja vai atrás dele, não é porque quer ajudar, mas porque tem medo que ele vá roubar alguma coisa. Não gostaria que ele perdesse a pessoa que é hoje. Quando essa conversa acontecer, ele vai deixar de ser totalmente livre. Mas não posso protegê-lo a vida toda, então tenho que fazer isso e rezar para que ele sobreviva nesse mundo cruel.

ÉPOCA – A senhora é contra a proibição das drogas. Por quê?

Deborah – A proibição não faz as pessoas terem boa relação com as coisas. Especialmente os viciados. Como o nome diz, são pessoas que têm uma relação desequilibrada com algum tipo de consumo, e que são incapazes de ficar sem aquilo. Recentemente, as prisões nos Estados Unidos proibiram presos de fumar. O que acontece com pessoas viciadas em algo – de fumo à açúcar – sumariamente impedidas de usar? Você começa a usar de um jeito mais perigoso. No caso dos presos, eles começaram a provocar pequenas mutilações na pele para encurtar o caminho da nicotina dos adesivos. Vou dar outro exemplo, a cocaína. O cérebro de uma pessoa que não usa drogas alcança a sensação de bem estar praticando esportes, fazendo sexo e etc. Quem usa a droga alcança essa sensação rapidamente, com intensidade dez vezes superior. Quanto maior o consumo, maior a queda dessa sensação, que chamamos de crush. Com o tempo, o cérebro perde a habilidade de conseguir naturalmente, e a pessoa depende da droga para se manter bem. A proibição não permite falar sobre isso nem encontrar meios de equilibrar essa situação.

ÉPOCA – Há algum tipo de política pública que a senhora considere positiva no tratamento de usuários?

Deborah – Em São Paulo, conheci o programa Braços Abertos, que conseguiu levar equilíbrio à vida de usuários de drogas carentes oferecendo acolhimento e casa. Os frequentadores praticam esportes, tocam instrumentos musicais, limpam. Eles eliminaram a vida caótica provocada pelas drogas e a pessoa segue em frente. A proibição também esconde outras facetas das drogas, como os bancos que lavam o dinheiro do narcotráfico. Por isso, falo que a política contra drogas não se trata de acabar com as drogas. Nos Estados Unidos também é assim.

ÉPOCA: Como a senhora vê uma possível vitória do candidato republicano, Donald Trump?

Deborah: Os republicanos têm o poder do congresso. Se ganharem, terão o controle das três casas. Então, por um lado, acho que os republicanos estão apostando porque querem ser os únicos no poder. E aí você tem um Trump, que é o oposto, em todos os sentidos, de Obama. Trump não é preparado, não sabe governar, não é um líder. Trump é um demagogo. Até meu neto de 4 anos sabe respeitar uma pessoa. O mundo levará décadas para se recuperar se Trump for eleito. Tomara que os americanos são façam como os ingleses, que descobriram o que era o Brexit horas depois do fim da votação, numa pesquisa no Google.

Thais Lazzeri, do Época, em Geledes

O FASCISMO E SUA IMBECILIDADE ILÓGICA

É sempre com a velha conversa de que irá 'consertar' tudo que o fascismo justifica e executa seu projeto de conquista e de chegada ao poder.
Mauro Santayana - Carta Maior

Célebre por seus estudos sobre a França de Vichy, Robert Paxton dizia que o fascismo se caracteriza por uma sucessão de cinco momentos históricos: a criação de seus movimentos; o aparelhamento do setor público; a conquista do poder legal; a conquista do Estado; e, finalmente, a radicalização dos fins e dos meios - incluída a violência política - por intermédio da guerra.

O fascismo de hoje se disfarça de “liberalismo” no plano político e de neoliberalismo no plano econômico.

Seu discurso e suas “guerras” podem ser dirigidos contra inimigos externos ou internos.

E sua verdadeira natureza não pode ser escondida por muito tempo quando multidões uniformizadas, quase sempre com cores e bandeiras nacionais, descobrem "líderes" dispostos a defender o racismo, a ditadura, o genocídio e a tortura.

Que, quase sempre, são falsa e artificialmente elevados à condição de deuses vingadores.

E passam a ter seus rostos exibidos em camisetas, faixas, cartazes, por uma turba tão cheirosa quanto ignara,  irascível e intolerante, que os exalta com os mesmos slogans, em todos os lugares.

Repetindo sempre os mesmos mantras anticomunistas, "reformistas" e "moralistas" contra a política e seus representantes - contra o “perigo vermelho”, a “corrupção” e os “maus costumes”.

Uma diatribe que lembra as mesmas velhas promessas e “doutrina” de apoio a outros "salvadores da pátria” do passado - que curiosamente costumam aparecer em momentos de "crise" aumentados intencionalmente pela mídia, ou até mesmo, a priori, fabricados - como Hitler, Mussolini, Salazar e Pinochet, entre muitos outros.

Não importa que as “bandeiras”, como a do combate à corrupção - curiosamente sempre presente no discurso de todos eles - sejam artificialmente exageradas.

Não importa que, hipocritamente, em outras nações, o que em alguns países se condena seja institucionalizado, como nos EUA, por meio da regulamentação do lobby e do financiamento indireto, e bilionário, de políticos e partidos por grandes empresas.

Nem importa, afinal, que a Democracia, contraditoriamente, embora imperfeita, aparentemente - por espelhar os defeitos próprios a cada sociedade - ainda seja, para os liberais clássicos, o melhor regime para conduzir o destino das nações e o da Humanidade.

Como ensina Paxton, na maioria das vezes os grupos fascistas iniciais sobrevivem para uma segunda fase, quando, como movimentos ou ainda como mera tendência, discurso ou doutrina - muitas vezes ainda não oficialmente elaborada - passam a se infiltrar e impregnar setores do Estado.

Esse é o caso, por exemplo, de “nichos” nas forças de segurança, no Judiciário e no Ministério Público, que passam então,  também, a prestar dedicada "colaboração" ao mesmo objetivo de "limpeza" e "purificação" da Pátria.

Com o decisivo apoio de uma imprensa - normalmente dominada por três ou quatro famílias conservadoras, milionárias, retrógradas, entreguistas - que atua como instrumento de "costura" e "unificação" do "todo", por meio da pregação constante dos objetivos a serem alcançados e da permanente glorificação, direta ou indireta, do "líder" maior do processo.

Não por acaso, Mussolini e Hitler foram capa da Revista Time, o primeiro em 1923, o segundo em 1938, e de muitas outras publicações, em seus respectivos países, quando ainda estavam em ascensão.

Não por acaso, nas capas de jornais e revistas, principalmente as locais, eles foram precedidos por manchetes sensacionalistas e apocalípticos alertas  sobre o caos, a destruição moral e o fracasso econômico.

Mesmo que em alguns países, por exemplo, a dívida pública (líquida e bruta) tenham diminuído desde 2002; a economia tenha avançado da décima-quarta para a oitava posição do mundo; a safra agrícola tenha duplicado; o PIB tenha saído de 504 bilhões para mais de 2 trilhões de dólares; e, apesar disso, tenha sido reunida, entre dinheiro pago em dívidas e aplicações em títulos externos, a quantia de 414 bilhões de dólares em reservas internacionais em pouco mais de 12 anos.
 
Da fabricação do consentimento que leva ao fascismo, e às terríveis consequências de sua imbecilidade ilógica e destrutiva, não faz parte apenas a exageração da perspectiva de crise.

É preciso atacar e sabotar grandes obras e meios de produção, aumentando o desemprego e a quebra de grandes e pequenas empresas, para criar, por meio do assassinato das expectativas,  um clima de terror econômico que permita tatuar a marca da incompetência na testa daqueles que se quer derrubar e substituir no poder, no futuro.

Criando, no mesmo processo, “novas” e “inéditas” lideranças, mesmo que, do ponto de vista ideológico, o seu odor lembre o de carniça e o de naftalina.

Como se elas estivessem surgindo espontaneamente, do “coração do povo”,  ou dos “homens de bem”, para livrar a nação da “crise” - muitas vezes por eles mesmos fabricada e “vitaminada” - e salvar o país.

Afinal, é sempre com a velha conversa de que irá “consertar” tudo, corrigindo a desagregação dos costumes e os erros da democracia, que sempre apresenta como irremediavelmente, amplamente, podre e corrompida até a raíz - como Hitler fez com a República de Weimar - que o fascismo justifica e executa seu projeto de conquista e de chegada ao poder.

É com a desculpa de purificar a pátria que o fascismo promulga e muda leis - muitas vezes ainda antes de se instalar plenamente no topo - distorcendo a legislação, deslocando o poder político do parlamento para outros setores do Estado e para “lideres” a princípio sem voto.

É por meio de iniciativas aparentemente “populares”, que ele desafia a Constituição e aumenta o poder jurídico-policial do Estado no sentido de eliminar, impedir, sufocar, o surgimento de qualquer tipo de oposição à sua vontade.

Para manter-se depois, de forma cada vez mais absoluta, no controle, por meio de amplo e implacável aparato repressivo  dirigido contra qualquer um que a ele venha a oferecer resistência.

Aprimorando um discurso hipócrita e mentiroso que irá justificar a construção, durante alguns anos, de um nefasto castelo de cartas, do qual, no final do processo, sobrarão quase sempre apenas miséria, desgraça, destruição e morte.

É aí que está a imbecilidade ilógica do fascismo.

Tudo que eventualmente constrói, ele mesmo destrói.

Não houve sociedade fascista que tenha sobrevivido à manipulação, ao ódio e ao fanatismo de seus povos, ou ao ego, ambição, cegueira, loucura e profunda vaidade e distorção da realidade de “líderes” cujos sonhos de poder costumam transformar-se – infelizmente, depois de muito sangue derramado - no pó tóxico e envenenado que sobra das bombas, das granadas e das balas.

Créditos da foto: Wikimedia Commons

TERROR ISLÂMICO: POR UMA RESPOSTA NÃO-VIOLENTA

Às vésperas dos Jogos Olímpicos, um convite a refletir sobre o contexto que produz os jihadistas e os caminhos para desconstruí-lo. Uma pista: a História
Praveen Swami, no The Indian Express - Outras Palavras - Tradução: Antonio Martins

Para compreender os jihadistas do Estado Islâmico, volte no tempo, até a Europa da Idade Média

“No Templo de Salomão e no pórtico”, escreveu o cronista Raymond d’Aguilers, que testemunhou a captura da cidade em 1099, “os cruzados cavalgaram com sangue até os joelhos e arreios de seus cavalos”. Ele lembrou-se de “trabalhos maravilhosos”: “Alguns dos pagãos foram decapitados em misericórdia”, outros perfurados por setas atiradas das torres e ainda outros, torturados durante longo período, foram queimados vivos em chamas lancinantes”. “Jerusalém estava agora entupida de corpos e tingida de sangue – D’Aguilers prossegue com aprovação – o sangue dos pagãos que blasfemaram Deus por tanto tempo.

A mente de Mohamed Lahouaiej Bouhlel, que dirigiu seu caminhão contra uma multidão que celebrava o Dia da Bastilha em Nice, matando 84 pessoas, está fechada para nós para sempre. Os fragmentos a que temos acesso são muito esparsos, às vezes paradoxais. Um homem fascinado pelos vídeos de decapitação do Estado Islâmico, mas também por excessos sexuais impulsionados por drogas; um homem que destroçava os ursinhos de suas crianças e inclinado a pequenos crimes; um homem com diagnóstico de doença mental, mas capaz de planejar meticulosamente seu ataque.

Dos relatos de d’Aguilers, no entanto, aprendemos algo essencial. A violência islâmica, a despeito da estética que algumas vezes adota, é um produto de nossos tempos modernos, não da era medieval. No entanto, é muito simplório enxergar esta ultra-violência como um fenômeno de nosso tempo. Há importantes lições a aprender do passado sobre as circunstâncias em que cultos milenaristas com o do Estado Islâmico florescem e crescem.

A Europa medieval oferece um ângulo importante para examinar o jihadismo e compreender seu funcionamento. Os contornos daquele período são estranhamente familiares, caracterizados por enorme deslocamento social. O crescimento de grandes cidades, construídas para produção de bens e o comércio organizado, tinha dado origem a novas classes sociais, que buscavam desmantelar a ordem feudal. Havia uma onda crescente de imigrantes inundando as cidades a partir do campo empobrecido, mas encontrando, com frequência, apenas miséria.

A atividade intelectual intensa também caracterizou aqueles tempos. Em 1417, Poggio Bracciolini, um secretário papal desempregado, descobriu, num monastério alemão, uma cópia de De rerum natura,obra do poeta romano Titus Lucretius Carus por muito tempo perdida. Com isso, reintroduziu no mundo a ideia filosófica radical de que o mundo foi criado não pela vontade de Deus, mas pela colisão aleatória de partículas.

Sobre as revoluções das esferas celestes, de Nicolau Copérnico, publicada pouco antes de sua morte, em 1543, estabeleceria as fundações científicas para uma revolução em nosso conceito sobre o universo.

Em meio a este novo mundo, porém, fermentava um grande número de cultos milenaristas da morte, um contraponto à construção do mundo das Luzes. Estes movimentos, notou o acadêmico Norman Cohn em sua obra principal, In Pursuit of the Millenium [“Em busca do Milênio”], assemelhavam-se muito ao jihadismo moderno, ao se apresentarem como distintos de “todas as outras lutas conhecidas na História, um cataclismo, do qual o mundo emergirá totalmente transformado e reorientado”.

O caso dos Adamitas, assim chamados a partir do camponês que os liderava – e que se proclamava tanto Adão quanto Moiséis – é instrutivo. Os relatos da época contam que, de sua ilha fortificada norio Nezarka, próxima a Neuhaus [no sul da Boêmia, hoje República Tcheca], os adamitas lutaram uma guerra sagrada contra as cidades próximas. Todos os homens, mulheres e crianças inimigos eram retalhados ou queimados vivos. Era preciso, acreditavam os adamitas, que o sangue subisse até a altura de uma cabeça de cavalo.

Em outubro de 1421, os adamitas foram exterminados – lutando até o fim, sua resistência fanática impulsionada pela profecia de seu líder, segundo a qual Deus cegaria os soldados do exército de formado para combatê-los.

Já Jan Bockelson fundou o regime anabatista de Münster nos anos 1520, preparando-se para a iminente chegada de Cristo com poligamia, entretenimentos bizarros e a execução de todos os dissidentes. Quando o exército imperial sitiou Münster, garantiu-se aos seguidores que Deus havia-os dotado com a força de cem inimigos; eles não sofreriam nem fome, nem sede, nem cansaço.

Embora a fome consumisse a população – muitos pediam aos mercenários de Bockelson para aplicar-lhes e em suas crianças o golpe de misericórdia – todos recusaram as ofertas do exército imperial de uma rendição honrosa.

Este milenarismo, notou Cohn, tirava forças de uma população obrigada a viver à margem da sociedade”. Após a desintegração das redes e sociedades de parentesco, nos novos tempos, estes grupos criaram seus próprios profestas carismáticos.

Farhad Khosrokhavar, um sociólogo francês que entrevistou muitos terroristas encarcerados, descreveu o jihadismo em termos similares – “individualismo por meio da morte”. Seu trabalho sugere que matadores como o tunisiano Bouhlel são apartados de seus laços culturais tradicionais, sem ter feito a transição para a modernidade cultural. Na violência niilista, encontram a libertação.

Num sentido mais amplo, Khosorokhavar argumenta que isso se repete em muitas sociedades do Oeste da Ásia. A região, ele lembra, assistiu “ao desmantelamento das comunidades tradicionais por meio de ações do Estado e à construção de uma nova economia de mercado sem os possíveis efeitos positivos desta última”. O islamismo oferece a ilusão de uma alternativa justa, baseada na vontade de Deus, ao invés do capricho dos homens.

No início do século XVI, o Livro de Cem Capitulos, um texto apocalíptio escrito por um publicista anônimo que vivia no alto Reno, demonstrou a durabilidade destas fantasias. Ele profetizou a chegada de um Irmão da Cruz Amarela, que iria “controlar o mundo todo, de Oeste a Leste, pela força das armas”. Cunhou um mote, para esta era de terror: “Breve, beberemos sangue por vinho”!

É fascinante contemplar como esta linguagem é próxima à dos textos jihadistas modernos. “A História só escreve suas linhas com sangue”, escreveu Abdullah Azzam, patriarca fundador dos jihadistas árabes no Afganistão, reverenciado tanto pela Al-Qaeda quanto pelo Estado Islâmico. “A glória só constrói seus edifícios elevados com caveiras; a honra e o respeito só podem ser estabelecidos num alicerce de aleijões e cadáveres”. Como Azzm, os cruzados fetichizavam o martírio. Uma crônica lembra a história de Jakelin de Mailly, um cavaleiro da ordem dos templários, morto ao combater muçulmanos, em 1º de maio de 1187. Seus geitais foram cortados e preservados para que pudessem, se a divina providência permitisse, gerar um herdeiro com valentia similar.

A história dos movimentos milenares ensina, porém, a ler o jihadismo como parte de uma paisagem marcada pela emergência de uma nova direita violenta – assim o demonstram as obscenidades de Joseph Kony em Uganda, os narco-evangelistas assassinos do México o Hindutva indiano e a Nova Direita europeia. Estas crises surgem de choques culturais, desdobramento das maiores transformações demográficas e econômicas da história. Abandonados pelos Estados, nestes tempos de crises, os povos voltaram-se aos deuses.

Lutar contra os movimentos jihadistas exige serviços de inteligência e polícias. Requer recursos militares e respostas geo-estratégicas. Porém, o imprescindível é uma nova política.

praveen.swami@expressindia.com

BODES EXPIATÓRIOS - de Schauble

Mariana Mortágua* - Jornal de Notícias, opinião
O episódio, bem ao jeito arrogante e despótico do ministro alemão, já se repetiu: quando confrontado com os problemas do seu sistema bancário, o governante dispara publicamente contra Portugal. Em fevereiro assegurava que o país não tinha resiliência financeira e, seis meses depois, criava propositadamente um incidente em torno de um falso segundo resgate a Portugal.

A estratégia de Schäuble é descarada, mas não é nova. Desde a crise que a elite burocrática europeia se aliou ao poder financeiro e aos grupos políticos de Direita para garantir o business as usual. Os eurocratas conservariam o seu poder sem que ninguém questionasse a falência das instituições europeias. Os gigantes da finança continuariam o seu negócio. E a Direita, com a ajuda dos eurocratas, e sem nunca questionar a finança, garantiria o apoio para governar sem sobressaltos e o respaldo para impor o plano ideológico que sempre desejaram.

A constante criação de bodes expiatórios foi crucial para a estratégia de conservação do poder desta tríade. Afinal, a culpa era da dívida pública e não do sistema financeiro. Afinal, o problema estava nos governos preguiçosos e gastadores, e não no péssimo desenho das instituições europeias, e por aí adiante.

Depois de uma década de austeridade os problemas mantêm-se e, porque nada foi feito, vivemos na iminência de uma nova crise financeira. À cabeça está o Deutsche Bank, o maior banco alemão, o tal que provoca em Schäuble uma irresistível vontade de atiçar os mercados contra Portugal.

Depois de se ter descoberto que escondeu 9000 milhões de euros de perdas e de ter sido condenado por manipulação de taxas de juro, o banco apresentou prejuízos recorde. A sua filial nos EUA chumbou nos testes de stress e o FMI considera-o um perigo sistémico. A cereja no topo do bolo foi o resultado dos testes europeus, que colocam o Deutsche Bank como o 10.º pior em resiliência de capital. Curiosamente, o pior de todos, o italiano Monte Paschi, tinha também andado a esconder prejuízos com a ajuda de um esquema montado com o próprio Deutsche Bank.

Não nos deixemos enganar. O bode expiatório de Schäuble somos nós, mas o problema está, desde o início, na banca. É difícil saber ao certo o que vai acontecer, mas uma coisa é garantida: para salvar o seu banco a Alemanha há de contornar as regras europeias que entender.

* Deputada do BE

Portugal. AFINAL O JUIZ ESTÁ LIMPO E O JORNALISMO TRESANDA A TRAMPA

Ao que agora é afirmado sobre o juiz que resolveu a favor do ensino privado - contra a pretensão do Ministério da Educação - ele não tem nenhuma filha a frequentar um dos colégios cuja resolução judicial lhes foi favorável. Certo é que desde esta manhã, muito cedo, a versão na comunicação social era de que o juiz tinha uma filha a frequentar um desses colégios. Em que ficamos, em quem acreditar? Que informação manipulada é esta?

É desinformação pura e dura. Ficamos à nora, às cegas. Que raio de jornalismo é este que se confunde com a desonestidade dos políticos e outros que tais. Tenham vergonha, senhores profissionais da treta e do baralhar as cabeças dos portugueses. Foi o que aprenderam nos "cursos superiores". Superiores?

Ah, e tal. A informação veio do Ministério da Informação... Pois. E que tal confirmar sobre a veracidade das afirmações do ME no provável contraditório?

Sabemos que não podemos confiar em imensos setores por via de mau profissionalismo. Se confirmação for precisa acrescentemos certo e incerto jornalismo pago para nos confundir. Pelo menos não o exercem nem cumprem de acordo com os preceitos deontológicos que devem.

Pode ler-se em baixo: “Na nota envida ao Expresso, o juiz Antero Pires Salvador esclarece ainda que "nenhum dos filhos (do juiz) frequenta qualquer dos colégios requerentes nas três providências".”

Afinal o juiz está limpo e o jornalismo tresanda a fossa.

Mário Motta / PG

Juiz que Ministério da Educação considera parcial mantém-se nos processos dos colégios

O Tribunal Central Administrativo do Norte não deu razão ao Ministério nos três incidentes de suspeição que invocou

O Tribunal Central Administrativo do Norte não deu razão ao Ministério da Educação (ME) que pretendia afastar o juiz Tiago Afonso Lopes de Miranda dos casos que opõem colégios com contrato de associação e o Estado. Por três vezes o ME invocou "incidente de suspeição", alegando que o juiz em causa não era imparcial. E por três vezes viu a sua pretensão recusada, confirma o juiz desembargador presidente Antero Pires Salvador.

Em causa está o facto de o juiz Tiago Afonso ter interposto uma ação contra o Ministério da Educação, há quatro anos, num caso também relacionado com a frequência de colégios com contrato de associação. Na altura, o juiz contestava o facto de a sua filha não ter direito a financiamento público num estabelecimento de ensino que tinha contrato de associação com o Estado e, por isso, ter outros alunos apoiados com verbas públicas.

Quatro anos depois, Tiago Afonso, enquanto juiz do Tribunal Administrativo de Coimbra, ficou responsável por três providências cautelares interpostas por outros tantos colégios. Desta vez são as limitações impostas pelo Ministério da Educação nas regras das matrículas que motivam a discórdia.

Duas estão decididas, com o juiz a declarar a aceitação da providência e a suspensão provisória do despacho das matrículas. Ou seja, decisões favoráveis, para já, aos colégios. Terá ainda de pronunciar-se sobre a terceira, sendo que o tribunal entende que Tiago Afonso o poderá fazer.

Na nota envida ao Expresso, o juiz Antero Pires Salvador esclarece ainda que "nenhum dos filhos (do juiz) frequenta qualquer dos colégios requerentes nas três providências".

O esclarecimento surge na sequência de notícias vindas esta terça-feira a público, e entretanto desmentidas, de que uma das filhas de Tiago Afonso frequentaria um destes três colégios. 

Isabel Leiria - Marta Gonçalves - Expresso

Portugal ATÉ O SOL PAGA IMPOSTO

Paula Ferreira – Jornal de Notícias, opinião
1. Parecem sem fim as possibilidades que o Estado encontra para ir ao bolso dos portugueses. A imaginação não podia ser mais fértil. Quando julgamos impossível obrigarem-nos a contribuir mais ainda para o bolo comum, eis uma ideia curiosa, surpreendente. Se vive numa casa bem exposta ao sol, virada para uma bela paisagem, prepare-se: haverá um agravamento do valor a pagar pelo imposto municipal sobre imóveis (IMI).

Como quase tudo proveniente da Autoridade Tributária, a medida é algo indecifrável para o comum cidadão. Neste caso, trata-se de um coeficiente de localização e operacionalidade relativa, que, por sua vez, integra ainda um coeficiente de qualidade e conforto. Pois bem, se vive numa casa confortável, terá de pagar, é essa, em suma, a sustentação do imposto. Perante isto, teremos também de ser imaginativos. Antes de os diligentes funcionários da Autoridade Tributária reavaliarem a casa, não percamos tempo. Convoque-se, com urgência, uma reunião de condomínio ou promova-se um encontro de vizinhos: e avance-se com a plantação, o mais rápido possível, de uma barreira de árvores. Atenção aos pormenores. Só valem árvores de folha perene, para que a sombra se mantenha ao longo de todo o ano. E, já agora, talvez seja boa ideia optar por árvores de crescimento célere, de modo a tapar rapidamente a paisagem.

2. A Autoridade Tributária faz escola na administração pública nacional. Hoje em dia, entrar numa igreja deixou de ser um ato de fé. Confesso o desconforto quando, a meio de uma jornada de lazer, tento entrar num templo com o simples propósito de estar [só] , e sou barrada por um cobrador de bilhetes. Os edifícios, eu sei, têm de ser preservados. Aceito, sem qualquer reserva, que num edifício como a Sé de Évora, por exemplo, se cobre ingresso para visitar os claustros, ou uma área musealizada. Não aceito pagar para ir à igreja. Antes de ser monumento nacional, o edifício é um local de culto, onde qualquer um deveria entrar e ficar em comunhão consigo próprio ou com uma entidade transcendente, num momento de recolhimento e paz.

Admito as dificuldades financeiras inerentes à manutenção das igrejas. Mas sei também que os nossos impostos devem ser para aí encaminhados. O que pagamos pelo sol, pela paisagem magnífica que sirva, enfim, para preservar a talha dourada e os frescos dos nossos monumentos.

* Editora executiva adjunta