segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Biden nomeia equipa de comunicações composta totalmente por mulheres


O presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, anunciou este domingo que a equipa de comunicações da Casa Branca será integrada exclusivamente por mulheres - algo inédito na história do país, anunciou a Presidência.

Entre as nomeadas está Jen Psaki, que atuará como secretária de imprensa da Casa Branca, um cargo de alta exposição. Psaki, de 41 anos, ocupou vários cargos de alto nível, como o de diretora de comunicações da Casa Branca durante o governo do presidente Barack Obama, de quem o Biden foi vice-presidente.

Biden e a vice-presidente eleita, Kamala Harris, tentou fomentar diversidade nas nomeações que foram anunciadas até agora para integrar o Executivo, que assumirá suas funções em 20 de janeiro.

Tenho o orgulho de anunciar hoje a primeira equipa de comunicações de alto nível da Casa Branca, composto na sua totalidade por mulheres", disse o presidente eleito em comunicado.

"Estas comunicadoras qualificadas e experientes aportam diversas perspetivas ao seu trabalho e um compromisso compartilhado de reconstruir este país", acrescentou.

Além de Psaki, foram anunciadas mais seis nomeações.

Kate Bedingfield, que foi vice-diretora de campanha de Biden, assumirá o cargo de diretora de comunicações da Casa Branca. Bedingfield foi diretora de comunicações de Biden, quando ele foi vice.

Ashley Etienne dirigirá as comunicações de Harris, de quem Symone Sanders será a porta-voz principal.

Pili Tobar foi nomeada como vice-diretora de comunicações da Casa Branca e Karine Jean Pierre será a vice-diretora principal de imprensa.

Elizabeth Alexander ocupará, por sua vez, a direção de comunicações da futura primeira-dama, Jill Biden.

Estas nomeações não precisam de confirmação no Senado, ao contrário da maioria dos cargos no nível de gabinete.

Lusa

Clima: Tribunal dá “luz verde” a processo inédito movido por jovens contra 33 países… Portugal incluído


A organização internacional que apoia uma ação de crianças e jovens portugueses contra 33 países, incluindo Portugal, por motivos climáticos, anunciou hoje que o Tribunal dos Direitos Humanos deu “luz verde” a um caso inédito.

A “comunicação” do processo aos países arguidos passa a exigir que cada um deles responda à reclamação apresentada por seis jovens requerentes portugueses, indicou hoje, em comunicado, a GLAN - Global Legal Action Network, organização internacional sem fins lucrativos, congratulando-se com a aceitação do processo.

“Como a grande maioria dos casos movidos pelo tribunal de Estrasburgo não chega a esse estágio, esta decisão representa um grande passo em direção a um possível julgamento histórico sobre as mudanças climáticas”, lê-se no documento divulgado pela GLAN.

Segundo a organização, o tribunal concedeu prioridade à denúncia com base na “importância e urgência das questões levantadas”.

Em setembro, quatro crianças e dois jovens portugueses, “expostos aos extremos de calor”, exigiram que o Tribunal Europeu dos Direitos do Humanos julgasse um processo contra 33 países em matéria de clima.

De acordo com a mesma fonte, os jovens pedem ao tribunal que responsabilize 33 países, entre os quais Portugal, por impulsionarem a crise climática.

A apresentação do processo ocorreu depois de Portugal ter registado o mês de julho mais quente em 90 anos.

Um relatório de peritos elaborado pela Climate Analytics para o processo descreveu Portugal como um 'hotspot' de alterações climáticas, destinado a suportar condições extremas de calor cada vez mais fatais.

Quatro dos jovens vivem em Leiria, uma das regiões mais afetadas pelos incêndios florestais que “mataram mais de 120 pessoas em 2017”, conforme referiram na acusação.

Os outros dois requerentes vivem em Lisboa onde, durante a onde de calor de agosto de 2018, foi estabelecida uma nova temperatura recorde de 44 graus.

Na queixa, alegam que os governos visados não estão, categoricamente, a decretar cortes profundos e urgentes nas emissões poluentes, “necessários para salvaguardar o futuro dos jovens requerentes”.

Os países alvo de processo são: Áustria, Bélgica, Bulgária, Chipre, República Checa, Alemanha, Grécia, Dinamarca, Estónia, Finlândia, França, Croácia, Hungria, Irlanda, Itália, Lituânia, Luxemburgo, Letónia, Malta, Países Baixos, Noruega, Polónia, Portugal, Roménia, Rússia, República Eslovaca, Eslovénia, Espanha, Suécia, Suíça, Reino Unido, Turquia e Ucrânia.

A GLAN define-se como uma organização que trabalha com o objetivo de interpor ações legais inovadoras além-fronteiras para enfrentar intervenientes poderosos envolvidos em violações dos direitos humanos e injustiças recorrentes, trabalhando com as comunidades afetadas. Tem escritórios no Reino Unido e na Irlanda.

Lusa

Imagem: SAPO24



Processo por corrupção do ex-PR francês Nicolas Sarkozy é retomado hoje


O processo por corrupção do antigo Presidente francês Nicolas Sarkozy é retomado hoje, após o tribunal correcional de Paris ter rejeitado quinta-feira o seu adiamento, por motivos de saúde de um dos coacusados. 

Um relatório médico concluiu que o antigo juiz Gilbert Azibert, 73 anos, estava apto a comparecer, mas o tribunal rejeitou o pedido de adiamento e ordenou que comparecesse "em pessoa" hoje, às 13:30 locais (12:00 em Lisboa), antes de suspender de novo a audiência.

O julgamento de Sarkozy, acusado de corrupção e tráfico de influências na sequência de um escândalo que envolveu escutas telefónicas, começou há precisamente uma semana no Tribunal Criminal de Paris, mas foi adiado pouco depois.

A decisão do tribunal foi tomada na sequência do pedido dos advogados de um dos réus, o juiz Gilbert Azibert, que alegaram o estado de saúde muito precário do arguido, tendo o presidente do tribunal ordenado um exame médico que, entretanto, foi entregue.

O ex-Presidente, de 65 anos, vai julgado em conjunto com o seu advogado Thierry Herzog, também de 65 anos, e Gilbert Azibert, podendo ser condenados a uma pena suspensa de prisão de até 10 anos e a uma multa de até um milhão de euros. Os três acusados negam qualquer irregularidade.

Sarkozy e Herzog são suspeitos de prometer a Azibert um emprego no Mónaco em troca de informações sobre uma investigação ao financiamento ilegal da campanha presidencial de 2007 pela mulher mais rica da França, a herdeira da L'Oreal Liliane Bettencourt.

De acordo com a acusação, Sarkozy e Herzog usaram, em 2014, telemóveis secretos, registados sob o pseudónimo "Paul Bismuth", para terem conversas privadas, já que receavam que as conversas estivessem a ser escutadas.

Sarkozy e Herzog explicaram que compraram os telefones para evitar serem alvo de escutas telefónicas ilegais, mas os investigadores suspeitam que o que realmente queriam era evitar ser gravados, até porque as conversas sugeriam que ambos sabiam que os seus telefones oficiais estavam a ser escutados.

Sarkozy argumentou, entretanto, que nunca interveio para ajudar Azibert, que nunca chegou a ir trabalhar para o Mónaco, tendo-se reformado em 2014.

No entanto, o tribunal considerou que assim que um negócio é oferecido, constitui infração penal, mesmo que as promessas não sejam cumpridas.

O nome de Sarkozy apareceu, durante anos, ligado a várias outras investigações judiciais, com alegações que incluíram financiamento ilegal da sua campanha de 2007 pelo então ditador líbio, Muammar Kadhafi, e que lançaram uma sombra sobre a tentativa de regresso de Sarkozy nas eleições presidenciais de 2017, não tendo sido escolhido como candidato pelo seu partido e acabando por se retirar da política ativa.

Lusa

Morreu o ex-futebolista senegalês Papa Bouba Diop após doença prolongada



O antigo médio Papa Bouba Diop, autor do primeiro golo do Senegal em Mundiais, morreu hoje, aos 42 anos, na sequência de doença prolongada, anunciou a Federação Senegalesa de Futebol.

Diop marcou o golo que permitiu aos senegaleses bater a França, então, como agora, campeã mundial em título, por 1-0, no jogo de abertura do Mundial de 2002, disputado na Coreia do Sul e no Japão.

Embalado, o Senegal chegou aos quartos de final do campeonato do Mundo de 2002, fase em que caiu no prolongamento (1-0) frente à Turquia, que terminaria a prova no terceiro lugar.

Nascido em Dakar, em 28 de janeiro de 1978, o futebolista senegalês jogou na Suíça (Veveym Neuchâtel e Grasshoppers), França (Lens), Inglaterra (Fulham, Portsmouth, West Ham e Birmingham) e Grécia (AEK Atenas).

"A morte de Papa Bouba Diop é uma grande perda para o Senegal. Presto a minha homenagem a um bom futebolista, respeitado por todos pela sua cortesia e o seu talento. Nunca esqueceremos a odisseia de 2002. As minhas condolências à sua família e ao mundo do futebol", 'tweetou' o presidente do Senegal, Macky Sall.

Lusa

Imagem: SAPO

Trabalhadores dos CTT cumprem hoje o primeiro de três dias de greve


Os trabalhadores dos CTT cumprem hoje uma greve, que vai decorrer também na quarta e quinta-feira, reivindicando aumentos salariais e reforço de colaboradores para o serviço postal, distribuição e chefes de estação.

Em declarações à Lusa, no dia 17 de novembro, o secretário geral do Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e Telecomunicações (SNTCT), Vitor Narciso, disse que a greve deverá ter "um grande impacto no atendimento e no tratamento e distribuição de correspondência, mas é essa a intenção, para que a empresa perceba a indignação dos trabalhadores e a opinião pública perceba o que se passa nos CTT".

De acordo com o sindicalista, o objetivo é que "seja reposta a normalidade nos CTT em termos de contratação coletiva e de qualidade do serviço público que é prestado à população, que é cada vez pior, com os atrasos a aumentar na distribuição de correspondência".

Vitor Narciso lembrou ainda que o processo negocial se arrastou desde o início do ano e acabou sem qualquer acordo, já em fase de conciliação do Ministério do Trabalho, com a empresa a alegar falta de liquidez para os aumentos salariais.

A empresa disse que não tinha dinheiro, mas pouco depois distribuiu prémios, com critérios subjetivos, e antecipou o pagamento do subsídio de Natal, parece que o problema não seria a alegada falta de liquidez, mas sim a falta de vontade de aumentar os salários", afirmou, na altura.

Na passada sexta-feira, em comunicado, a Associação Nacional dos Chefes de Estação dos Correios (ANCEC) manifestou a sua total discordância e incompreensão em relação à greve geral convocada considerando-a "totalmente inoportuna" e que "em nada vem contribuir para a união dos profissionais dos CTT".

A Associação Nacional de Responsáveis de Distribuição (ANRED), por seu turno, considerou que a paralisação "mais uma vez, tem na sua base motivações estritamente ideológicas e políticas" e referiu que, nas atuais condições, é "oportunista e lesiva dos interesses dos trabalhadores".
Ambas as estruturas manifestaram surpresa e incompreensão em relação ao agendamento da greve geral, tendo em conta a atual conjuntura do país.

Os CTT já tinham condenado a greve devido à data escolhida, garantindo que não faltam colaboradores no quadro e que vão ser pagos prémios aos trabalhadores.

Num comunicado divulgado no dia 19 de novembro, os Correios vincaram que os compromissos com os trabalhadores têm sido assegurados, sublinhando que, perante a covid-19, não recorreram ao regime de 'lay-off', comparticiparam a vacina contra a gripe e anteciparam o pagamento do subsídio de Natal e dos prémios extraordinários.

Para os CTT, questionar a atribuição de prémios e a antecipação do subsídio "é de uma enorme insensatez", ressalvando, no entanto, que este custo "em nada é comparável com o impacto que um aumento salarial teria nos resultados da empresa".

Os Correios lembraram também que, anualmente, já estão salvaguardadas a diuturnidades e progressões de carreira, tendo o incremento sido, em média, de 4% nos últimos três anos.

Adicionalmente, referiram que os resultados da empresa estão a ser "fortemente" impactados pela pandemia e que o crescimento do tráfego de encomendas não compensa a descida do negócio correio, acrescentando que, à semelhança do que aconteceu noutros setores, houve um "incremento considerável" de custos para proteger os trabalhadores face ao novo coronavírus.

Os CTT rejeitam também as acusações de que faltam trabalhadores no quadro e de que a prestação do serviço postal universal não cumpre os padrões de qualidade, notando que sempre cumpriram o indicador geral de qualidade até que, em 2018, "a dois anos do fim do contrato de concessão", a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) "decidiu alterar os critérios".

A greve dos CTT abrange a distribuição postal e a rede de atendimento.

Lusa

Cerca de 90% dos docentes preocupados ou com medo de serem infetados nas escolas


Nove em cada dez professores estão preocupados ou têm medo de estar nas escolas por considerarem que estão a ser ignoradas regras que garantem higienização e distanciamento correto em tempo de pandemia, revela um inquérito da Fenprof.

Mais de cinco mil professores responderam ao inquérito da Federação Nacional dos Professores, que tinha como objetivo perceber as condições de segurança sanitária nas escolas e qual a perceção dos docentes.

Apenas 9,5% disse sentir-se seguro nas escolas, segundo os dados divulgados hoje do inquérito 'online' que terminou há menos de uma semana.

Os restantes 90,5% dos docentes dividem-se entre os que estão preocupados (67,4%) e os que admitem mesmo ter medo de ser infetados (23,1%) por considerarem que faltam condições nas escolas, indica o inquérito ao qual responderam professores de todos os distritos do país.

Um dos problemas apontados pela maioria prende-se com a dimensão das turmas, que não sofreu alterações, impedindo um maior distanciamento dentro das salas de aulas, segundo as respostas que vieram de professores de todos os níveis de ensino.

Mais de oito em cada dez docentes (83,7%) confirmam que o número de alunos por turma se manteve inalterado, com apenas 6,1% a dizer que estão agora mais pequenas. No entanto, 10,2% de professores revelam que o número de alunos por turma aumentou este ano.

No que toca à limpeza dos espaços, o mais habitual é que os assistentes operacionais só a façam ao final do dia, à semelhança do que já acontecia antes da pandemia, segundo 59,9% das respostas dadas.

Nesta tarefa, as escolas passaram também a contar com a ajuda dos alunos e dos próprios professores que limpam as salas entre cada utilização, dizem 30,4% dos inquiridos. Apenas 40,1% das respostas indicaram que a limpeza é feita pelo pessoal auxiliar entre cada utilização de espaços da escola.

A falta de assistentes operacionais foi outra das falhas apontadas, com apenas 17,5% a dizerem que há agora mais funcionários nas escolas. A grande maioria (64,3%) afirmou que o número de assistentes se mantém inalterado e 18,5% apontou mesmo que este ano há menos gente nas escolas.

"Este é um problema gravíssimo vivido pelas escolas, pois já antes da pandemia o número de assistentes operacionais era escasso face às necessidades", alerta a Fenprof.

Sobre o programa do Governo de distribuição gratuita de máscaras pelas escolas, os docentes confirmam que foram entregues, mas quase metade (46,3%) queixou-se da quantidade ou da qualidade, apontando como defeitos, por exemplo, o facto de os elásticos se partirem com muita facilidade.

Finalmente, os docentes queixam-se de que a sua atividade se tornou muito mais exigente: agora são obrigados a usar máscara dentro da sala de aula e a um afastamento que não é habitual nas escolas.

"No contexto de pandemia que vivemos, as aulas decorrem de forma atípica, com os professores a não poderem aproximar-se dos alunos, a trabalharem de máscara, a não encontrarem os seus colegas com a frequência habitual, o que leva 83,4% a considerar que a atividade docente, nestas condições, é muito mais exigente. Só 16,1% afirma ser semelhante e 0,5% (residual) diz haver menor exigência", revela o inquérito que contou também com a participação de docentes não sindicalizados na Fenprof.

As razões que levam os professores a sentirem-se preocupados ou mesmo com medo estão relacionadas com as "insuficientes condições existentes nas escolas", cujos problemas não são culpa de quem trabalha nos estabelecimentos de ensino mas sim da tutela, lembra a federação.

Por isso, a Fenprof volta a exigir ao Ministério da Educação um reforço das condições de segurança sanitária, a aprovação de medidas de prevenção, como a realização de testes, e a "transparência sobre a situação epidemiológica" nas escolas.

Num momento em que o número de escolas com registo de casos de covid-19 está a atingir o milhar, é difícil acreditar que só existam surtos em 68 ou 94 casos (últimos dados oficiais divulgados)", acusa.

A falta de condições nas escolas durante a pandemia é um dos motivos que levou a Fenprof a anunciar na passada sexta-feira uma greve nacional para 11 de dezembro.

Lusa

Imagem: TVI24

António Canteiro: O Homem dos dois mil livros…

O autor gandarês tem novo livro publicado. “Vamos então falar de árvores” foi o pretexto para a primeira edição da rubrica “Casa de Artista”, onde cada um dos entrevistados abrirá o coração e as portas das suas casas, numa reportagem intimista, que levará o leitor ao mundo de cada um dos entrevistados...


O AMOR À LITERATURA

Na enorme sala da casa, existem duas estantes. Já no escritório, são três. Ao cimo das escadas, mais uma. Junto às lareiras, uma imensidão de livros, que podem ser encontrados bem perto dos sofás ou nas mesas de cabeceira (onde estão “as leituras futuras”, como ele diz). E, claro está, nas casas de banho da casa onde João Carlos Costa da Cruz (mais conhecido como António Canteiro reside, também é possível encontrar exemplares daquilo que o autor “que ama a leitura” chama de “vício bom”: os seus livros!

É impossível não dar de caras com Saramagos, Torgas e outros monstros sagrados da literatura como Cervantes, por exemplo, ou com José Luís Peixoto ou Valter Hugo-Mãe que também têm espaço reservado nas suas prateleiras, porque escrevem “de forma deliciosa” e emprestam ao ambiente uma multiculturalidade que António Canteiro faz questão  de preservar, já que, como o próprio autor afirma, lê “sem ideias pré-concebidas, sem distinção de estilos.”


O longo percurso de vida que levou António Canteiro um dia, a escrever, teve início ainda na adolescência quando, com um amigo, começou a adquirir livros que ambos julgavam “fantásticos”. Só que, naquela altura a leitura ocupava-lhe a mente de tal forma que só começou a “pensar em escrever” bastante mais tarde, tendo iniciado a sua carreira, efetivamente, após os 40 anos de idade “ainda muito pouco seguro”, confessa.

Homem de arte, toca flauta transversal como “forma de escape para o quotidiano” bem como escreve “para guardar as minhas memórias. Assim, não terei necessidade de escrevê-las um dia, visto que já o fiz neste período!”, afirma.

Para Canteiro, “na escrita de memórias, os mais velhos devem saber socorrer-se do poço inesgotável da juventude e da infância, pois ela é o alicerce, é a base que funda a casa, é o fundamento que estrutura o ser e, como diz Reiner Maria Rilke: “temos de conceder-lhe (à infância) o lugar mais alto de tudo o que vemos à nossa volta, pois só as crianças nos darão lições de simplicidade... a começar pela escrita, e quão complexo é escrever o simples”. A seguir, e um pouco mais aprofundadamente, este homem que adora citações remata-nos uma lição de Buda, para que possamos entender um pouco os meandros da sua busca pelo simples, para transmitir aos seus leitores, a sua mensagem: “Só o sábio, a criança e o idiota são simples e sem grande esforço!”

Mas, desenganem-se os que pensam que o ato de escrever requer somente a criatividade em uníssono com as memórias que o autor guarda. Segundo este homem de fala calma e pausada, que parece estar a ditar um parágrafo enquanto concede ao jornalista a oportunidade de vivenciar um pouco dos seus gostos, das suas lembranças e da pacatez do lugar onde reside e se inspira para novas estórias, “escrever é mais que o ato de reescrever... é corrigir, ler, reler, alterando o que atrapalha a língua, o que não soa a música. A escrita literária é música”. Em “O Aprendiz de Feiticeiro”, de Carlos Oliveira, citando Afonso Duarte, aconselhava: “a palavra que digas, a carta que escrevas, que sejam obras de arte”, e, sublinha António Canteiro, “tem de ter música, se não, ela é somente escrita, seja informativa ou jornalística”.

O NOVO LIVRO

“Vamos então falar de árvores” é o mais recente romance deste autor que se autodefine como “um metódico que exige muito de si próprio na vida e na escrita”. Diversas vezes premiado, ele sabe mais que ninguém, o preço a pagar pela expectativa dos seus leitores a cada obra que nasce das suas pesquisas, vivências e, obviamente, da sua criatividade.

“Vamos então falar de árvores” é a verdadeira prova de que uma literatura rica de qualidade não necessita de muitas páginas. Em apenas pouco mais de cem, António Canteiro transporta o leitor para ambientes duros onde a dureza da sobrevivência quase nos obriga a uma leitura de uma só assentada, para que possamos saber o desfecho!

Pelas suas páginas, o leitor chega a comover-se com o que as personagens vão transmitindo a cada capítulo como se também fizesse parte da história ou fosse, também ele, uma outra personagem do livro.

“... era poucochinho o rendimento das colheitas, apesar da nova maquinaria de lavrar as terras, o chão era peco a vingar a semente, na feira, a venda não dava pró frete e, feitas as contas, não se amealhava nada...”. Aqui não há espaço para a vivência fácil ou o amanhecer dos deuses. Aqui, os homens lutam a cada dia para que outro dia possa chegar e, mesmo sem facilidades, também possa ser suplantado.

António Canteiro é mestre nisto: com um vastíssimo vocabulário escolhe as palavras com pinças e mostra-nos, com as que escolhe sobriamente, quer o mundo da Gândara quer o lindo e duro Trás-os-Montes, sem pieguices, emoldurando as suas tramas, capítulos e páginas como se, para além de escritor e músico, também fosse o pintor capaz de, numa só imagem, contar tudo o que se passará logo a seguir!

“Vamos então falar de árvores” está disponível na livraria/papelaria Kiosque, loja 17 – Freixial Shopping, em Cantanhede.

Também pode ser adquirido em https://www.bertrand.pt/livro/vamos-entao-falar-de-arvores-antonio-canteiro/24504233

ou em https://www.wook.pt/livro/vamos-entao-falar-de-arvores-antonio-canteiro/24504233?fbclid=IwAR1Du5zpZMec4RmTF_YmrUxhC1E9fuTG2yzP3SmDe3wb5h3VQdKT0JpKm4k


Fonte: Francisco Ferra / Jornal Mira Online