terça-feira, 8 de setembro de 2026

Cantanhede | Homenagem reuniu familiares e amigos na Casa Carlos de Oliveira, em Febres. Fernando Santos ou a “rara harmonia entre o médico e o escritor”

 
A convite da Junta de Freguesia de Febres e no âmbito da “Mostra Gastronómica e Cultural – Pica no Chão”, a ACAF - Associação Cultural Cândido Ferreira e a Junta de Freguesia de Febres organizaram, com apoio da Câmara Municipal de Cantanhede, uma tertúlia e homenagem ao médico Fernando Santos (escritor, Ferro Santos) na Casa Carlos de Oliveira
A sessão de homenagem, que decorreu na tarde do passado sábado, 5 de setembro, iniciou com o descerramento de uma placa alusiva ao médico/escritor, que ficará patente na Sala dos Escritores daquela Casa/Museu, seguindo-se uma tertúlia sobre a vida e obra do homenageado, que reuniu no pátio exterior daquela Casa cerca de seis dezenas de familiares e amigos.
A escolha do local do evento não foi ao acaso, uma vez que o homenageado viveu e manteve ali o seu consultório durante muitos anos, tal como acontecera, antes dele, com Américo Oliveira, pai do escritor Carlos de Oliveira.
Ao intervir na sessão, a presidente da Câmara, Helena Teodósio, começou por agradecer à ACAF - Associação Cultural Cândido Ferreira o “serviço relevante à comunidade” de reconhecer aqueles que, “pelo seu percurso e pela influência que deixaram nas pessoas e no território, se tornaram referências maiores da vida coletiva”.
O Dr. Fernando Santos é, sem dúvida, uma dessas referências que alimenta a ideia de que a memória de homens assim não pertence apenas ao círculo dos seus familiares, amigos ou contemporâneos, que a memória de homens assim pertence ao património moral e cultural e humano do nosso concelho”, enfatizou.
Na relação que manteve com o médico e escritor, a autarca disse reconhecer nele “uma rara densidade humana, intelectual e cívica”, pelo que a evocação pública tem “o alcance de reunir a comunidade num exercício de reconhecimento e de partilha em torno de um legado humano, cívico e cultural que vale a pena preservar e transmitir
”. A par disso, continuou, “honra igualmente o legado do Dr. Cândido Ferreira, seu amigo e admirador confesso”, o que resultou numa “feliz convergência de memórias, de afetos e de valores”.
Sobre a obra do escritor Ferro Santos, Helena Teodósio referiu que tal como Carlos Oliveira, um dos mais importantes nomes da literatura portuguesa do século XX, revela uma “exigência ética e uma relação intensíssima com esta terra gandaresa”, que soube “interpretar em toda a sua dimensão humana, sociológica e territorial”.
Na escrita de Ferro Santos encontramos uma ligação funda à Gândara, às suas gentes, às suas histórias, às suas vozes, mas encontramos também uma notável consciência do que significa escrever e, sobretudo, do que significa expor publicamente a escrita”, destacou.
Já a presidente da ACAF, Liliana Ferreira, agradeceu o “apoio incondicional” que o Município de Cantanhede tem vindo a dar na concretização deste e outros projetos, elencando alguns ainda a realizar em 2026, nomeadamente oficinas de escrita, apoio à publicação de um livro e tertúlias, remetendo depois, para a leitura de um prefácio que Cândido Ferreira fez ao livro “Histórias da Arca do Velho”, de Ferro Santos, “como se ambos estivessem entre nós, a falar-nos”.
O médico Rui Crisóstomo, que moderou a sessão tertuliana, apresentou os intervenientes, concedendo depois a palavra a cada um, para testemunhos sobre Fernando Santos (ou o escritor, Ferro Santos), nomeadamente António Fresco, que foi o designer/paginador de todos os seus livros; Cidalino Madaleno, que lhe fez alguns dos prefácios e apresentações da sua obra; Ana Carvalho, que conviveu “familiarmente” com o homenageado desde os 3 anos de idade; António Canteiro, que mostrou sumariamente todos livros de poesia e conto, lendo por fim um poema da autoria de Ferro Santos; Teresa Paixão, que testemunhou e agradeceu a passagem do escritor homenageado, por diversas atividades organizadas pela Biblioteca Municipal, tendo pertencido ao seu Clube de Leitura; Fernando Simão, advogado, que relatou alguns episódios de convivialidade havidos entre ele e o homenageado; e Fernando Almeida, que testemunhou a relação de amizade entre ambos, salientando as atividades que ambos realizaram juntos, entre elas, teatro local.
Também presente na sessão, o presidente da Secção Regional da Ordem dos Médicos, Manuel Teixeira Veríssimo, relevou a importância do homenageado, numa fase dirigente anterior à sua, enquanto membro daquela Ordem, dissertando depois sobre outros médicos que se dedicaram à arte em geral, e da escrita, em particular, cumulativamente com o exercício desta profissão, o contacto diário com as pessoas em situação de sofrimento, salientando que “não é casual esta aproximação, da arte com o exercício médico, sendo talvez uma espécie de catarse necessária ao seu quotidiano”.
Também o presidente da Junta de Freguesia de Febres, Carlos Lote, proferiu algumas palavras de agradecimento às entidades e pessoas presentes, relevando a figura do homenageado, no seu trabalho médico e literário a favor da população de Febres.
Por último, Nuno Santos, filho do homenageado, agradeceu em seu nome, do irmão, e restantes familiares, o evento de homenagem, que se revelou em alguns momentos mais emotivo, mas simultaneamente gratificante, por rever a agora Casa Carlos Oliveira e as tantas memórias aqui passadas.
A abrir e a encerrar a tertúlia, Manuel Ribeiro, interpretou, em guitarra portuguesa, obras instrumentais de músicos do fado de Coimbra, cidade onde o homenageado cursou Medicina.
No final, a ACAF distribuiu algumas lembranças alusivas à obra literária do homenageado, e a Junta de Freguesia de Febres ofereceu duas medalhas da freguesia aos filhos do homenageado.

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