Há datas que pertencem ao calendário. E há datas que pertencem à alma de um povo. Os 900 anos da fundação de Portugal inserem-se claramente na segunda categoria. Não estamos perante mais uma efeméride. Estamos perante um momento raro, daqueles que acontecem apenas uma vez em muitas gerações e que obrigam o país a olhar para a sua própria identidade.
É precisamente por isso que merece ser saudada a forma como a Câmara Municipal de Guimarães tem encarado esta celebração. Sendo o Berço da Nação, seria fácil limitar-se ao simbolismo do lugar. Em vez disso, optou por dar profundidade às comemorações, procurando transformá-las num espaço de reflexão sobre Portugal, a sua História e o seu futuro.
Enquanto historiador, não posso deixar de reconhecer esse mérito.
Durante demasiado tempo habituámo-nos a celebrar a História apenas através de cerimónias protocolares ou de recriações históricas, importantes sem dúvida, mas insuficientes quando estão em causa datas fundadoras. Os novecentos anos de Portugal exigem mais. Exigem pensamento, exigem debate, exigem conhecimento e exigem a participação de pessoas capazes de interpretar o percurso da nossa nação à luz dos desafios do presente.
É nesse contexto que se compreende a escolha de Paulo Portas para integrar este programa comemorativo. Mais do que olhar para o político, importa reconhecer o homem de Estado que acumulou décadas de experiência governativa, designadamente à frente do Ministério dos Negócios Estrangeiros, conhecendo profundamente a posição de Portugal no mundo, a sua história diplomática e a forma como o país se foi afirmando ao longo dos séculos. É uma escolha que privilegia a experiência, a cultura e a capacidade de comunicar uma visão de Portugal para além das fronteiras do debate partidário.
Mas o essencial nem sequer é esse. O essencial é perceber que Guimarães escolheu dar voz a pessoas capazes de acrescentar valor intelectual às comemorações. Essa talvez seja a melhor homenagem que se pode prestar aos homens e mulheres que, há nove séculos, iniciaram a construção deste país.
Portugal não nasceu por acaso. Foi o resultado de uma vontade política, militar e cultural que, ao longo dos séculos, soube resistir a invasões, crises dinásticas, guerras, terramotos e profundas transformações sociais. Poucas nações europeias podem orgulhar-se de uma continuidade histórica tão longa e tão rica.
Celebrar os 900 anos não deve servir apenas para recordar D. Afonso Henriques ou a Batalha de São Mamede. Deve servir para recordar que Portugal continua a ser uma das mais antigas nações da Europa com fronteiras praticamente inalteradas, uma realidade histórica que continua a despertar admiração muito para além das nossas fronteiras.
Guimarães parece ter compreendido isso. Percebeu que uma comemoração desta dimensão não pode ser pensada apenas para os vimaranenses, nem sequer apenas para os portugueses. Tem de ser uma afirmação da nossa História perante o mundo.
Espero sinceramente que o exemplo de Guimarães inspire outras instituições. Os 900 anos da fundação de Portugal não pertencem a um município, a um governo ou a uma geração. Pertencem a todos nós.
Como historiador, gostaria que, daqui a muitos anos, quando alguém estudar estas comemorações, possa concluir que Portugal esteve à altura da sua própria História. E, olhando para o caminho que Guimarães começou a trilhar, acredito que esse objetivo está hoje um pouco mais próximo.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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