terça-feira, 28 de julho de 2026

opinião | "Sidónio Pais, não durmas... senão cais"

A História portuguesa guarda expressões que atravessam gerações porque encerram em poucas palavras o espírito de uma época. "Sidónio Pais, não durmas... senão cais" foi uma delas. Muito mais do que um simples estribilho popular, traduzia a consciência de que Portugal vivia dias perigosos e de que o homem que então presidia à República caminhava sobre um terreno onde a violência política continuava a ser uma realidade.
Mais de um século depois, a figura de Sidónio Pais continua a suscitar paixões e divisões. Talvez porque tenha governado num dos períodos mais conturbados da nossa História contemporânea.
A I República nascera, em 1910, envolta em enormes expectativas. Prometia modernizar o país, combater o atraso, regenerar a vida política e construir um Portugal mais livre e mais justo. Contudo, rapidamente se viu mergulhada numa sucessão de governos efémeros, crises parlamentares, revoltas militares, dificuldades económicas e uma crescente radicalização política. A instabilidade tornou-se quase uma imagem de marca do regime e muitos portugueses começaram a olhar para os partidos mais como parte do problema do que da solução.
Foi neste ambiente que surgiu Sidónio Pais.
Oficial do Exército, professor de Matemática da Universidade de Coimbra, antigo ministro e representante diplomático de Portugal em Berlim, reunia qualidades pouco vulgares na classe dirigente da época. Os contemporâneos descreviam-no como um homem reservado, inteligente e metódico. Ainda jovem, na Escola do Exército, era conhecido pelo talento invulgar e pela postura discreta, aguardando frequentemente o início das aulas sentado, isolado e mergulhado nos seus pensamentos.
Quando liderou o movimento de dezembro de 1917, muitos portugueses viram nele uma oportunidade para devolver estabilidade a um país cansado das intermináveis lutas partidárias. Procurou reconciliar a República com setores da sociedade que se tinham sentido afastados durante os primeiros anos do regime, aproximou-se da Igreja Católica, reforçou o princípio da autoridade do Estado e tentou construir uma governação menos dependente das disputas entre facções políticas.
O entusiasmo popular que despertava era evidente. Durante uma visita ao Minho, quando atravessava as Taipas em direção a Guimarães, uma mulher do povo, impressionada com a sua presença, exclamou espontaneamente: "Viva Sidónio! Viva a Santa Religião! Viva a Monarquia!". Sidónio levantou-se no automóvel, sorriu e respondeu com serenidade: "Viva a Santa Religião, sim; mas viva a monarquia, isso não, mulherzinha."
A resposta diz muito sobre o homem. Era republicano convicto, mas compreendia que governar significava falar para todos os portugueses, mesmo para aqueles que não partilhavam as suas convicções.
Em Guimarães, a receção foi calorosa. As ruas encheram-se de populares apesar da chuva persistente, e, no final da visita, Sidónio despediu-se confessando ter ficado satisfeitíssimo com a forma como fora recebido, elogiando a gentileza dos vimaranenses.
Mas o país permanecia profundamente dividido.
Apesar da popularidade que granjeava junto de largos setores da população, os seus adversários políticos nunca deixaram de o combater. A tensão acumulava-se e o ambiente tornava-se cada vez mais explosivo. Nas ruas repetia-se um aviso que acabaria por ganhar lugar na memória coletiva: "Sidónio Pais, não durmas... senão cais."
A advertência revelava que muitos acreditavam que a sua vida corria perigo. Infelizmente, a História dar-lhes-ia razão.
Na noite de 14 de dezembro de 1918, Sidónio Pais foi assassinado na estação do Rossio, quando se preparava para seguir de comboio para o Porto. O país ficou profundamente abalado. O funeral transformou-se numa das maiores manifestações de pesar da História contemporânea portuguesa, testemunhando que a sua figura ultrapassava largamente as fronteiras dos partidos.
Naturalmente, Portugal de hoje nada tem de comparável com a realidade da I República. Vivemos numa democracia consolidada, com instituições estáveis, eleições livres e um quadro constitucional que não admite comparações simplistas.
Mas a História não serve apenas para recordar factos; serve para compreender mecanismos.
A I República não entrou em crise porque os portugueses deixaram de acreditar na ideia republicana. Entrou em crise porque muitos deixaram de acreditar na forma como ela estava a ser governada. É uma distinção essencial.
Também hoje se sente, em muitos setores da sociedade, um crescente afastamento entre governantes e governados. Multiplicam-se os sinais de desconfiança relativamente aos partidos, aumenta a perceção de que o debate político se perde demasiadas vezes em cálculos eleitorais e diminui a convicção de que os grandes problemas nacionais encontram respostas à altura.
A História ensina que, quando isso acontece, surgem inevitavelmente líderes que prometem restaurar a autoridade, aproximar o Estado dos cidadãos e devolver eficácia à governação. Uns triunfam, outros fracassam. Mas todos encontram espaço quando as instituições deixam de inspirar confiança.
A maior lição de Sidónio Pais talvez seja precisamente essa.
Nenhum regime político vive apenas das leis que o fundaram ou da legitimidade conquistada nas urnas. Vive, acima de tudo, da confiança quotidiana dos cidadãos. Essa confiança demora anos a construir, mas pode perder-se em muito pouco tempo.
É por isso que o velho estribilho continua a merecer reflexão. Não como uma ameaça dirigida a um homem, mas como um aviso permanente dirigido a qualquer democracia.
Porque nenhum regime pode adormecer sobre as suas próprias certezas.

*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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