quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Opinião - Quando Júlio Verne jantou no Cais do Sodré e visitou o Dafundo

 A 5 de Junho de 1878, Lisboa recebeu um visitante que parecia ter saído directamente de uma das suas próprias viagens extraordinárias... Júlio Verne chegou ao Tejo a bordo do seu iate Saint-Michel III, vindo de Vigo, acompanhado pelo irmão Paul Verne, por Jules Hetzel filho, ligado ao seu editor, e pelo antigo deputado francês Raoul Duval.
Não veio propriamente como um turista apressado. Tinha dois dias para conhecer Lisboa e decidiu aproveitá-los à sua maneira.
Logo nessa manhã, acompanhado pelo banqueiro Jorge O'Neill, representante em Lisboa da companhia francesa Messageries Maritimes, passou pelo Consulado de França e visitou a Igreja de São Roque. Depois do almoço encontrou-se com David Corazzi, o editor português das suas obras, no escritório da Empreza Horas Românticas, na Rua da Atalaia, e visitou a casa de Jorge O'Neill, onde foi apresentado à sua família.
Ao fim do dia chegou o momento que dá título a esta história... Júlio Verne foi jantar ao Grand Hotel Central, na Praça Duque da Terceira, junto ao Cais do Sodré, um dos mais conhecidos estabelecimentos da Lisboa oitocentista, com uma ampla vista sobre o Tejo.
Depois do jantar ainda houve tempo para teatro. A convite de Corazzi, Verne assistiu à zarzuela La Gallina Ciega, nos Recreios Whittoyne. Já perto da meia-noite regressou ao Saint-Michel III, onde passou a noite.
Na manhã seguinte, os seus companheiros seguiram para Sintra. Júlio Verne ficou em Lisboa. O calor era intenso e, como escreveria posteriormente, a sua atenção estava concentrada na própria cidade. Pinheiro Chagas resumiria essa escolha numa frase particularmente feliz... para Verne, “a novidade era Lisboa”.
Durante esse dia, Verne recebeu a bordo do seu iate o capitão João de Carvalho Ribeiro Viana, antigo director do Arsenal da Marinha. A conversa centrou-se nos livros, nos navios e, naturalmente, no novo cruzador português Vasco da Gama, que interessava particularmente ao escritor. Ribeiro Viana enviou-lhe documentação sobre o navio e recebeu nesse mesmo dia um agradecimento escrito de Júlio Verne.
À tarde, Verne percorreu a zona monumental de Belém, visitando a Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos, numa procura pela Lisboa histórica que sobrevivera ao terramoto de 1755.
E seria novamente no Grand Hotel Central que terminaria a sua passagem pela capital.
Foi ali que encontrou Manuel Pinheiro Chagas, escritor, jornalista e político, que era então redactor principal do Diário da Manhã. Ao seu lado estavam Ramalho Ortigão e Rafael Bordalo Pinheiro, três nomes fundamentais da vida cultural portuguesa daquele tempo.
Pinheiro Chagas deixou-nos um retrato particularmente curioso do visitante francês. Descreveu-o como um homem afável, de olhar vivo e inteligente, já com as antigas barbas loiras começando a grisalhar, e registou a conversa que manteve com ele. Verne falou modestamente de si próprio e revelou que trabalhava então em Um Capitão de Quinze Anos.
Mas houve uma questão que interessou particularmente os portugueses. Perante a velha tendência francesa para confundir Portugal com Espanha, Verne afirmou que essa ideia estava a desaparecer em França e que Portugal era já reconhecido como uma nação com forte individualidade e profundamente ligada à sua independência. Também a presença portuguesa na Exposição Universal de Paris de 1878 lhe merecia atenção.
Depois do jantar, Verne visitou ainda Fernando Palha, no Dafundo, onde conheceu a sua colecção de livros, obras de arte e antiguidades. E, mais uma vez, regressou ao seu iate para dormir.
Às seis da manhã de 7 de Junho, o Saint-Michel III deixou o Tejo rumo a Cádis.
Foram apenas cerca de 48 horas... mas Júlio Verne conseguiu conhecer uma Lisboa muito particular, entre o Tejo, os escritores, os jornalistas, os navios, os monumentos e as salas de um hotel que, poucos anos depois, seria imortalizado por Eça de Queirós.
Porque o Grand Hotel Central que recebeu Júlio Verne era o mesmo hotel que aparece em Os Maias. É no seu peristilo que Carlos da Maia vê Maria Eduarda pela primeira vez... e é curioso pensar que, quando Verne ali jantou em 1878, aquele espaço já fazia parte da Lisboa literária que Eça transformaria em cenário de romance. O edifício do antigo hotel permanece ainda hoje na Praça Duque da Terceira, embora o Grand Hotel Central tenha encerrado em 1919.
Júlio Verne partiu pelo Tejo como tinha chegado... pelo mar.
E Lisboa ficou, durante dois dias, no seu livro de viagens da vida real.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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