domingo, 30 de outubro de 2016

Bem-vindos à escravocracia

As guerras em curso não são, afinal, mais do que uma nova etapa da deslocalização e da desregulação dos mercados, medidas imprescindíveis para a ditadura global imposta pelo sistema neoliberal. Alguma dúvida?

José Goulão – AbrilAbril, opinião
Há quem se surpreenda e se declare até chocado quando alguém denuncia, escorado em indesmentíveis evidências captadas no mundo actual, que alguns dos mais influentes dirigentes mundiais têm comportamentos escravocratas, no seu afã de corresponder às exigências prementes e irrecusáveis dos grandes tutelares da economia transnacional e do casino financeiro mundial.

A reportagem transmitida esta semana pelo insuspeito programa «Panorama BBC», intitulada «Os Refugiados que fazem as nossas Roupas», poderia vir agitar as consciências de tais dirigentes e respectivos acólitos – se eles as tivessem – porque demonstra como é balofo e inconsequente o discurso sobre a primazia dos direitos humanos e a justiça das «guerras libertadoras» conduzidas pela NATO e suas divisões especiais, chamem-se «Estado Islâmico» ou «Al-Qaida».

Nessa reportagem, o jornalista britânico Darragh MacIntyre mostra crianças fugidas à guerra na Síria, e refugiadas na Turquia, fabricando roupas de algumas multinacionais da moda – Zara, Marks & Spencer, Mango, ASOS – e trabalhando 12 horas por dia, a 1,12 euros por hora. O jornalista teve que fazer a investigação e as filmagens de maneira clandestina, correndo riscos devido ao cariz ditatorial da «democracia» de Erdogan. Só desse modo conseguiu trazer à luz do dia este caso de ineludível escravatura. Ou não?

É um caso apenas, dirão alguns. O que tem isso a ver com os dirigentes mundiais? Perguntarão os mesmos ou outros.

Não sejamos ingénuos. O exemplo de trabalho clandestino, cujos muros o jornalista britânico derrubou, é um átomo de um submundo que todos sabemos existir e que vem ocasionalmente à superfície, como agora.

Assim como as marcas exploradoras não serão as únicas, bem longe disso.

Além disso, esta degeneração tem tudo a ver com os dirigentes internacionais, porque são estes que formatam o mundo de que são donos os grandes nomes da finança e da economia, sejam eles da moda ou de qualquer outro sector que pratica a selvática caça ao lucro. Além disso, não nos desviemos do significado principal deste caso minúsculo e, ao mesmo tempo, de grande envergadura.

A Turquia é um pilar do «mundo livre», um país na verdade associado à União Europeia e permanentemente na soleira da sua porta; é, sobretudo, um dos membros mais estratégicos da NATO e aliado operacional de todos quantos, a partir de Washington, Paris, Londres, Berlim, Telavive e Riade, destroem países do Médio Oriente em cadeia. Criando assim, entre muitas desumanas aberrações, um exército de trabalho escravo que exponencia, à custa de sangue e terror, os lucros da nata empresarial, como agora está definitivamente demonstrado.

Nos dias em que assistimos à vergonha franco-britânica da «selva de Calais», na qual as vítimas de conflitos provocados pelos governos francês e britânico são pudicamente tratadas por «migrantes», e não por aquilo que verdadeiramente são – refugiados de guerra –, ficou também à vista de quem quer ver um exemplo do uso que é dado aos milhares de desesperados em fuga do suplício que «os amigos» levaram aos seus países.

Quando surgirem notícias, aparentemente absurdas, como a do desaparecimento misterioso de 10 mil crianças refugiadas de guerra, já depois de terem sido registadas à entrada da Suécia e de Itália, poderemos adivinhar, sem qualquer risco de erro, um dos destinos possíveis dessas vítimas. Não consta que a nuvem sempre crescente de autoridades policiais e aparentadas, que protege a Europa do terrorismo e da criminalidade inerente aos refugiados – segundo os discursos oficiais –, tenha já detectado o paradeiro desses misteriosos desaparecidos. Provavelmente, e pelo contrário, bons e empreendedores patrões das nossas praças financeiras estarão a par dos seus novos endereços e actividades.

Sabemos que são muitas as vantagens económicas, financeiras e estratégicas das guerras em curso do Afeganistão à Líbia: vantagens para os que continuam a somar milhões graças aos bons ofícios dos governos que as patrocinam e da instituição militar que as executa – a Aliança Atlântica. A todos esses benefícios juntemos a possibilidade de usufruir de trabalho escravo puro e duro, algo de que já a punição austeritária dos povos europeus era (e é) uma aproximação.

As guerras em curso não são, afinal, mais do que uma nova etapa da deslocalização e da desregulação dos mercados, medidas imprescindíveis para a ditadura global imposta pelo sistema neoliberal. Alguma dúvida?

Parlamento Europeu quer definir a democracia e multar quem não a cumprir

Numa altura em que finaliza negociações comerciais com o Canadá em segredo

O Parlamento Europeu aprovou um relatório que pretende condicionar o conceito de democracia e propõe a aplicação de multas financeiras a quem não o cumprir. O PCP foi o único partido português a votar contra.

O relatório propõe alargar o alcance do actual artigo 7.º do Tratado da União Europeia, que prevê a suspensão dos direitos de voto no Conselho para casos de violação de «valores do respeito pela dignidade humana, da liberdade, da democracia, da igualdade, do Estado de direito e do respeito pelos direitos do Homem, incluindo os direitos das pessoas pertencentes a minorias». A intenção é introduzir multas financeiras aos estados-membros que o Conselho e o Parlamento Europeu decidam estar nessa situação.

É também expressa a intenção de harmonizar os direitos fundamentais, nivelando-os por baixo em relação a países como Portugal, cuja Constituição da República é mais avançada, nomeadamente no plano dos direitos sociais e de trabalho.

O ponto relativo ao artigo 7.º foi aprovado com os votos a favor de todos os partidos portugueses à excepção do PCP. Na votação final, CDS-PP e BE abstiveram-se.


PERNA CURTA

Pedro Ivo Carvalho* – Jornal de Notícias, opinião
Mentir é feio. E isso até as crianças sabem. Mentir no exercício de cargos públicos, além de ser feio, é grave. E isso, suspeito, até as crianças sabem. Mentir no século XXI sobre as habilitações académicas quando se vai para um Governo e se está tão exposto ao escrutínio, é apenas estúpido. Porque o mais certo é sermos apanhados mais depressa do que um coxo quando corre, desenfreado, em terreno escorregadio. No espaço de uma semana, um chefe de gabinete do secretário de Estado da Educação e um adjunto do primeiro-ministro foram forçados a abandonar os cargos por serem detentores de licenciaturas imaginárias. Três, para ser mais exato. O primeiro "enganou-se" em duas, o segundo "enganou-se" numa. Apesar de Sócrates e de Relvas, ainda há quem não tenha aprendido nada sobre escrita criativa nos currículos. Nuno Félix foi o distraído mais recente. E que distração. Não uma, mas duas licenciaturas-fantasma. O primeiro despacho de nomeação era claro: licenciatura em Ciências da Comunicação e licenciatura em Direito. Mas como a careca podia ser descoberta, editaram o documento: a "formação" dos cursos passou para "frequência" dos cursos. Aparentemente, Tiago Brandão Rodrigues sabia de tudo. O ministro da Educação. Da Educação.

*Pedro Ivo Carvalho é jornalista

A FRAUDE DE MAIS UM RAPAZOLA “DÓTOR” QUE AFINAL NEM SE LICENCIOU


Mário Motta, Lisboa
Mais um rapazote dótor que afinal nem se licenciou, agora neste governo de António Costa, como outro, o Relvas, no governo de Passos, Cavaco e Portas. E há mais? Pelo visto e repetido há muitos destes dótores. Não é por acaso que somos levados cada vez mais a não confiar naqueles pseudo detentores de canudos e na leva vão também os que suaram as estopinhas para se licenciarem de facto ou para mais além se doutorarem. 

Os gajos dos colarinhos brancos estão com a fama pelas ruas da amargura à conta de tantos vigaristas que nos caem nos braços e nos regaços das donzelas paragonais dos jornais depois de desmascarados. Aliás, essa de os simplesmente licenciados se intitularem doutores e desse modo assim convencionarem e assim os intitularem – mesmo que o sejam com honestidade – e dos parvalhotes dos plebeus os chamarem e considerarem doutores, só vem provar que estamos sob o domínio de uma estratégia delineada por uma elite que até pode não saber quase nada mas que é vigarista e manipuladora mais que suficiente para convencer erradamente que sabe muito, que é competente por via das aptidões adquiridas universitáriamente e que teve uma vida académica esforçada quando afinal tal não corresponde à verdade. É assim que temos por aí esses tais Chicos Espertos ou bando de sacanas para os mais avisados e que já não confiam nesta cambada que se impôs e se acoita em alguns partidos políticos e suas ramificações. Doutor é quem completa o doutoramento, não os simplesmente licenciados. Deixem-se de caganças, que nem correspondem à realidade mas que falsamente convencionaram.

Licenciado era o meu cão enorme, dócil, honesto e amigo do peito. De uma fidelidade a toda a prova. Tinha licença, era licenciado. Isso foi antes, na era salazarista. Mas de alguns destes novos licenciados e/ou pseudo licenciados não se pode dizer que possuam tais qualidades. Uns quantos até caem nos governos e seguem descaradamente rumo político com o recheio da arrogância, da desonestidade, da infidelidade aos que os elegeram. Decerto que existem os que escapam ao escrutínio da comunicação social e usufruem de vidas de sucesso, com mordomias pagas por todos nós e o mais que vier de benefícios. Tudo isso, do melhor, apesar de serem dos pés à cabeça grandes fraudes e gente guardada pela impunidade.

A seguir, mais um caso além Relvas e outros que tal. Trazemos o que consta na TSF, mais completo pode encontrar no Observador, que aliás foi autor da descoberta daquele fraudulento dótor. Mais um, entre tantos, como se estima que assim aconteça.

Para quem acabou de ingerir alimentos aconselha-se a que não se embrenhem demasiado nesta triste “história”… Pode causar vómitos. 

(MM / PG)

Um gabinete por um canudo

O antigo secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Wengorovius Meneses, confessa à TSF que só nos últimos dias no governo soube da mentira de Nuno Félix, um chefe de gabinete "imposto".

"A questão das licenciaturas nunca foi uma questão decisiva para a minha saída", assume o antigo secretário de Estado da Juventude e Desporto.

João Wengorovius Meneses confessa que "só soube (da mentira) dois ou três dias antes de sair que Nuno Félix não tinha uma licenciatura", isto numa altura em que já não falava com o ministro e no momento em que Tiago Brandão Rodrigues já tinha respondido "por mail que não aceitava a exoneração do meu chefe de gabinete".

Uma exoneração que João Wengorovius Meneses tinha solicitado depois de ter perdido a confiança num chefe de gabinete escolhido pelo ministro.

"Recebi o chefe de gabinete em boa fé", mas com o passar dos dias a relação degradou-se e "quando comunico ao ministro a intenção de substituir o chefe de gabinete o ministro impede-me de o fazer".

Em declarações à TSF, o anterior secretário de Estado da Juventude e Desporto, João Wengorovius Meneses explicou que "a razão principal para querer substituir Nuno Félix na função de chefe de gabinete era a sua impreparação para a função."

"Eu não tinha total confiança politica nele e não sentia total lealdade da parte dele, a toda a prova", sublinha.

João Wengorovius Meneses adianta que "na reta final. Nos últimos dias que antecederam a minha saída tomei conhecimento de aspetos que agravaram os motivos" de desconfiança inicial. "Houve uma terceira dimensão que foi o facto de eu tomar conhecimento que ele não tinha uma licenciatura", como afirmava.

"Tive conhecimento disso (da mentira) por via da minha jurista. Mas, nunca comuniquei formalmente ao ministro o facto de Nuno Félix não ter uma ou duas licenciaturas".

João Wengorovius Meneses diz mesmo que pensou que o assunto estaria encerrado com o fim das suas funções no governo, porque quando sai um governante sai todo o gabinete, mas neste caso, o chefe de gabinete, Nuno Félix, foi reconduzido pelo novo secretário de Estado, João Paulo Rebelo

TSF - entrevista de Rui Silva

EUA: UM DESTRUIDOR DE DEMOCRACIAS E PILHADOR DE NAÇÕES

A midiotização pelo mundo afora, leva o povo a acreditar que governos não simpáticos aos EUA, são governos ditatoriais, mesmo que tenham sido eleitos pelo voto dos seus concidadãos, como o caso de Assad na Síria e Maduro na Venezuela.

Valter Xéu*
Na época do George Bush, a mídia e os serviços de inteligências do ocidente propagaram para o mundo de que países como o Irã, Iraque e Coreia do Norte formavam o Eixo do Mal que colocava o mundo em perigo e a propaganda dizia: 'Ou você está conosco, outra contra nós'. 

Todos os países que não são simpáticos ou que contrarie os interesses dos Estados Unidos, a forte propaganda de manipulação trata de disseminar pelo mundo de que aquele governante é um ditador.

E assim é feito com a Síria, onde apesar de Assad ter vencido duas ou três eleições presidenciais, recebeu o carimbo de ditador pelo simples fato de contrariar os interesses dos Estados Unidos e ter sido eleito, a propaganda dissemina pelo mundo de que foi uma eleição fraudulenta e isso o ocidental não aceita como aceitou o resultado da eleição em que Bush venceu Al Gore. 

Os Estados Unidos destruíram o Iraque com a propaganda de que o país possuía armas de destruição em massa o que não era verdadeiro e isso foi atestado pelas próprias forças de ocupação.

Como a mentira já não colava nos quatro cantos do mundo e inventaram de que estavam levando a democracia a um pais governado pelo ditador Saddam Hussein e que até​ então, tinha sido aliado dos americanos. Hoje os iraquianos vivem em situação muito pior, com conflitos de toda natureza onde os grupos diversos recebem armas do ocidente para guerrearem entre si enquanto as Hal​l​iburton da vida segue tranquila roubando o seu petróleo. ​ Halliburton foi administrada pelo ex-vice-presidente americano Dick Cheney: Tutti cosa nostra...

A mesma coisa aconteceu com a Líbia que depois de Israel era o segundo IDH do Oriente Médio segundo a ONU. Mesmo assim, precisaram formar uma coalizão internacional de 46 países para derrubar e assassinar Khadaffi. 

E usando o pretexto de que estavam derrubando um ditador, destruíram o pai​s, onde grupos rivais armados pelo ocidente se matam e as Halliburton...

Depois do Afeganistão, Iraque e Líbia chegou à vez da Síria onde os norte americanos acreditavam que seria muito mais fácil e ai houve o engano, pois Assad resistiu e de imediato trataram de disseminar pelo mundo de que ali era mais um ditador e como midiotizado é uma praga que existe em todo o planeta, Assad passou a ser demonizado pelo simples fato de ter enfrentado as forças criadas pelos Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Arábia Saudita, Qatar, Turquia (que parece esta mudando de lado depois do tal golpe em que acusam os norte americanos) e a cumplicidade de Israel que oferece ajuda mé​dica e vez por outra derruba aviões da força aérea da Síria que ousa bombardear as forças do Estado Islâmico nas imediações das Colinas de Golan.

Com a chegada dos russos as coisas mudaram de um Assad quase derrotado para um presidente mais forte no poder.

Os russos lá estão com a anuência do presidente sírio enquanto as forças ocidentais que não tiveram autorização são meras invasoras. E isso fere a carta da ONU e a soberania Síria, mas a ONU não vale nada para as potências​ do ocidente, onde na sua maioria participam da força agressora que é a OTAN = Organização Terrorista do Atlântico Norte e que no final dos anos 80 bombardeou Belgrado capital da Iugoslávia em pleno coração da Europa, mas como diz um amigo Croata, "naquela época não existia o Putin".

Na questão de Aleppo, vários grupos terroristas estão no domínio da cidade perpetrando toda desgraça sobre a população, usando armas químicas, mas o culpado é Assad que ousou enfrentá-los.

Na Venezuela, apesar de Chávez e Maduro terem sido eleitos pelo voto da maioria da população, a mídia e o atual governo golpista do Brasil, Argentina e Paraguai trata os governantes venezuelanos como ditadores o que parece até​ piada.

O de lá eleito pelo voto direto é ditador.

O golpista do Brasil, o ​que é?

Na Venezuela depois do fracassado golpe com armas em que Chávez foi preso e voltou nos braços do povo, à direita e seus apoiadores internacionais mudaram de tática e usaram a mesma que destronou o governo ucraniano, defenestrado com denuncias de corrupção e hoje uma quadrilha de corruptos estão no poder com a ajuda do "campeão da democracia".

Usaram desse expediente aqui e estão usando o mesmo na Venezuela onde de repente desapareceram dos supermercados os gêneros alimentícios  ​​sabotados pela burguesia empresarial. ​

O governo criou uma espécie de Cesta do Povo o que se mostrou ineficaz contra o desabastecimento e assim os grandes grupos econômicos com ajuda externa que despejam bilhões de dólares para acumpliciar mídia e uma parte dos parlamentares. Com o judiciário a coisa é bem diferente do que é o daqui.

Maduro que não tem um perfil Dilma Rousseff e nem na sua equipe republicanos covardes, reage às provocações e recebe o carimbo de ditador pela sua ousadia em resistir.

O pior de tudo isso, é que a midiotização geral leva a "boiada" a acreditar que realmente ele é um ditador, enquanto o nosso aqui é um democrata e que aquele pais destruidor de países, é nada mais, nada menos que o verdadeiro campeão da democracia no mundo e a "boiada" acredita.

Ô, raça!

Em tempo

Lula precisa fazer o mesmo que Maduro faz na Venezuela, Rafael Correa no Equador, Evo Morales na Bolívia e o que diz o escritor Mo​niz Bandeira, que é o envolvimento dos Estados Unidos em toda essa tram​a em que participa a mídia, o congresso e o judiciário e denunciar isso para o mundo, pois existe um interessado maior no enfraquecimento do país e esse interessado, o mundo sabe quem é.

Isso é o que tem de ser feito.

*Valter Xéu é diretor e editor dos portais Pátria Latina e Irã News. analista politico do Palestina Liberation, Pravda e diversas publicações no Brasil e exterior

Pravda.ru

OS ESTADOS UNIDOS VÃO REFORMAR-SE OU DILACERAR-SE?

Thierry Meyssan*

Ao observar a campanha eleitoral presidencial norte-americana, Thierry Meyssan analisa a ressurgência de um velho e grande conflito civilizacional. Hillary Clinton acaba de declarar que esta eleição não versava sobre programas, mas sobre a questão de saber «Quem são os Americanos?». Não é baseados em questões políticas que os tenores republicanos acabam de retirar o seu apoio ao seu candidato, Donald Trump, mas antes a propósito do seu comportamento pessoal. Segundo o nosso autor, até à data presente, os Norte-americanos eram emigrantes vindos de horizontes diferentes e aceitando submeter-se à ideologia de uma comunidade especial. É este modelo que está em vias de se desfazer, com o risco de estilhaçar o próprio país.

No decurso do ano de campanha eleitoral norte-americana que estamos a acabar de atravessar, a retórica mudou profundamente e uma clivagem inesperada surgiu entre os dois campos. Se, à partida, os candidatos falavam de assuntos basicamente políticos (tais como a repartição de riqueza ou a segurança nacional), agora eles tratam principalmente de sexo e dinheiro.

Foi este discurso, e não as questões políticas, o que fez explodir o Partido Republicano –-cujos principais líderes retiraram o apoio ao seu candidato–- e que reformula o tabuleiro político, fazendo ressurgir uma clivagem civilizacional muito velha. De um lado, a senhora Clinton pretende ser politicamente correcta, enquanto do outro «O Donald» fez voar em estilhaços a hipocrisia da antiga «primeira Dama».

De um lado, Hillary Clinton promove a igualdade homens/mulheres, muito embora ela jamais tenha hesitado em atacar e emporcalhar as mulheres que revelavam ter-se deitado com o seu marido; que se apresenta não pelas suas qualidades pessoais, mas enquanto esposa de um anterior presidente, e que ela acusa Donald Trump de misoginia porque ele não esconde o seu gosto pela espécie feminina. Do outro lado, Donald Trump denuncia a privatização do Estado, e a extorsão de personalidades estrangeiras pela Fundação Clinton, sempre que queriam obter acesso ao Departamento de Estado; a criação do ObamaCare, não no interesse dos cidadãos mas para benefício dos Seguros médicos; e vai até ao ponto de pôr em causa a idoneidade do sistema eleitoral.

Estou perfeitamente ciente que a maneira como Donald Trump se exprime encoraja de facto o racismo, mas não acho de todo que isto esteja no centro do debate eleitoral apesar do martelar que os média(mídia) pró-Clinton fazem a propósito.

Não é indiferente que, aquando do escândalo Lewinsky, o presidente Bill Clinton tenha apresentado as suas desculpas à Nação e tenha reunido Pastores para rezar pela sua salvação. Enquanto ao ser posto em causa por factos parecidos, numa gravação áudio, Donald Trump se tenha contentado a apresentar as suas desculpas às pessoas atingidas, sem fazer apelo a membros do clero.

A clivagem actual retoma a revolta de valores dos Católicos, de Ortodoxos, e de Luteranos, contra os dos Calvinistas, representados nos Estados Unidos principalmente pelos Presbiterianos, Baptistas e os Metodistas.

Mesmo se os dois candidatos foram educados na tradição puritana (Clinton como Metodista e Trump como Presbiteriano), H.Clinton retornou à religião pela morte do seu pai e participa hoje em dia no grupo de oração dos chefes do estado-maior das forças armadas, The Family («A Família»- ndT), enquanto Trump segue uma espiritualidade mais interiorizada e não frequenta habitualmente os templos.

É claro, ninguém fica fechado nos padrões em que foi criado. Mas, quando se age sem reflexão, podemos reproduzi-los de forma inconsciente. A questão do ambiente religioso de cada um pode portanto ser importante.

Para entender o que está em jogo, é preciso voltar à Inglaterra do século XVII. Oliver Cromwell derruba, com um golpe de Estado militar, o rei Carlos Iº. Ele pretendeu instaurar uma República, purificar a alma do país, e assim fez decapitar o antigo soberano. Criou um regime sectário inspirado nas ideias de Calvino, massacrou os Irlandeses papistas em massa, e impôs um modo de vida puritano. Concebeu também o sionismo: ele chamou à atenção para os judeus em Inglaterra e foi o primeiro chefe de Estado, no mundo, a reivindicar a criação de um Estado judeu na Palestina. Este episódio sangrento é conhecido com o nome de «Primeira Guerra civil britânica».

Após a restauração da monarquia, os Puritanos de Cromwell fugiram da Inglaterra. Eles instalaram-se nos Países Baixos, de onde alguns de entre eles partiram a bordo do Mayflower para as Américas (os chamados “Pais Peregrinos"), enquanto outros fundaram a comunidade Afrikaner na África Austral. Aquando da guerra de independência dos Estados Unidos, no século XVIII, reviu-se o confronto dos Calvinistas contra a Monarquia britânica, de tal modo que nos manuais actuais de História Britânica, designam-na como a «Segunda Guerra civil».

No século XIX, a Guerra de Secessão opôs os Estados do Sul (sobretudo habitados por colonos católicos) aos do Norte (principalmente habitados por colonos protestantes). A História dos vencedores apresenta este confronto como uma luta pela Liberdade face à Escravatura, o que é pura propaganda (os Estados do Sul aboliram a escravatura durante a guerra, quando fecharam uma aliança com a monarquia britânica). Com efeito, regressa-se ao enfrentamento dos Puritanos contra o Trono inglês, razão pela qual certos historiadores falam aqui de uma «Terceira Guerra civil britânica».

Durante o século XX, este enfrentamento interno da civilização britânica parecia ultrapassado, fora o ressurgimento dos Puritanos ao Reino Unido com «os cristãos não-conformistas» do primeiro-ministro David Lloyd George. Estes últimos dividiram a Irlanda e dedicaram-se a criar o «Lar nacional judaico» na Palestina.

Seja como fôr, um dos conselheiros de Richard Nixon, Kevin Phillips, consagrou uma volumosa tese a estas guerras civis, constatando que nenhum dos problemas estava resolvido e anunciou uma quarta volta [1].

Eu não duvido que H. Clinton será a próxima Presidente dos Estados Unidos, ou que se Trump fosse eleito, ele seria rapidamente eliminado. Mas, em alguns meses, assiste-se a uma ampla redistribuição eleitoral sobre o fundo de uma evolução demográfica irreversível. As Igrejas vindas dos Puritanos não somam mais que um quarto da população e basculam para o campo Democrata. O seu modelo aparece como um acidente histórico. Ele já desapareceu na África do Sul e não poderá sobreviver ainda por muito mais tempo, nem nos Estados Unidos, nem em Israel.

Para além da eleição presidencial, a sociedade dos EUA deve evoluir rapidamente ou irá dilacerar-se novamente. Num país onde o juventude rejeita maciçamente a influência dos pregadores puritanos, não é mais possível mover a questão da igualdade. Os puritanos idealizam uma sociedade onde os homens são todos iguais, mas não equivalentes. Lorde Cromwell queria uma República para o Ingleses, mas só depois de ter massacrado os papistas Irlandeses. É assim que actualmente nos Estados Unidos, todos os cidadãos são iguais perante a lei mas, em nome dos mesmos textos, os tribunais condenam sistematicamente negros enquanto encontram circunstâncias atenuantes no caso de brancos tendo cometido crimes ou delitos equivalentes. E, na maioria dos Estados, uma condenação penal, mesmo por um excesso de velocidade, basta para retirar o direito de voto. Por conseguinte, brancos e negros são iguais, mas em alguns Estados, a maioria dos negros tem legalmente sido privada do seu direito de voto. O paradigma deste pensamento, em política externa, é a «solução de dois Estados» na Palestina: iguais, mas acima de tudo não equivalentes.

Foi o pensamento puritano que orientou as administrações do Pastor Carter, de Reagan, de Bush (o Sr. e o Jr. são dois descendentes directos dos “Pais Peregrinos”), de Clinton e de Obama a apoiar o wahabismo, em contradição com os ideais propagados pelo seu país, e hoje em dia a apoiar o Daesh(E.I.).

No passado, os “Pais Peregrinos” fundaram comunidades em Plymouth e Boston, que foram mitificadas na memória colectiva americana. Contudo os historiadores são rigorosos. Eles afirmavam construir o «Novo Israel» e escolheram a «Lei de Moisés». Eles não colocaram a Cruz nos seus templos, mas, sim as Tábuas da Lei. Muito embora cristãos, atribuíam mais importância às Escrituras Judaicas que aos Evangelhos. Eles obrigaram as suas mulheres a tapar a cabeça com véu e restabeleceram os castigos corporais.

Thierry Meyssan* - Voltaire.net - Tradução Alva

[1] The Cousins’ Wars («As Guerras dos Primos» - ndT), Kevin Philipps, Basic Books, 1999.

*Intelectual francês, presidente-fundador da Rede Voltaire e da conferência Axis for Peace. As suas análises sobre política externa publicam-se na imprensa árabe, latino-americana e russa. Última obra em francês: L’Effroyable imposture: Tome 2, Manipulations et désinformations (ed. JP Bertrand, 2007). Última obra publicada em Castelhano (espanhol): La gran impostura II. Manipulación y desinformación en los medios de comunicación(Monte Ávila Editores, 2008).


Hipermercados: uma verdadeira «ditadura» comercial sobre fornecedores e consumidores

As práticas comerciais (abusivas) dos grandes hipermercados constituem uma autêntica «ditadura», com que esmagam, em baixa, o escoamento e os preços à produção nacional. Os produtores de leite, por exemplo, perdem muito dinheiro para continuar a produzir.

João Dinis – AbrilAbril, opinião

Há anos que vimos dizendo que os grandes Hipermercados praticam uma autêntica «ditadura» comercial, com que esmagam, em baixa, o escoamento e os Preços à Produção Nacional, enquanto promovem as Importações desnecessárias.

Assim, também muito contribuem para agravar os défices alimentar e da balança de pagamentos agro-alimentar do nosso País.

Os grandes Hipermercados, globalmente considerados, detêm uma posição hegemónica no comércio agro-alimentar, e dois grandes grupos de «matriz nacional» (embora paguem impostos fora do País…) detêm posição dominante e tendem já para posições monopolistas. Pelo meio, usam e abusam de práticas comerciais que consideramos serem mais do que abusivas, como acontece, constantemente, com as «Promoções» e as «Marcas Brancas» (as suas marcas próprias). Estes são expedientes «violentos» com que especulam e, na prática, espoliam os seus Fornecedores de direitos de propriedade material e intelectual sobre os respectivos Produtos.

Mas também impõem as suas (dos Hipermercados) próprias escolhas aos Consumidores, pois são as gerências de cada Hipermercado que, em primeiro lugar, decidem que produtos é que entram em «promoção» ou em «marca branca» e em que condições comerciais é que isso acontece a cada momento. Ou seja, os Hipermercados escolhem primeiro aquilo que (e como) os Consumidores vão depois «escolher» nas prateleiras, onde há, sempre, os produtos-chamariz… E assim manipulam os Consumidores.

Os grandes Hipermercados também se aproveitam da falta de informação e do baixo poder de compra de vastas camadas da nossa População para manipular preços e marcas e, também assim, acirrar a concorrência entre as várias cadeias de distribuição-comercialização, sempre à custa dos Fornecedores e dos próprios Consumidores. Por assim dizer, as dificuldades económicas de centenas de milhar de Famílias acabam por ser um «filão» que os grandes Hipermercados exploram em proveito próprio…

E é perante tais práticas comerciais (abusivas), é neste difícil contexto nacional que, por exemplo, os Produtores de Leite estão a perder muito dinheiro para continuarem a produzir. E, no contexto, outros Produtores Nacionais também «são obrigados» a perder dinheiro…

Em Espanha, os Hipermercados de matriz nacional espanhola dão prioridade ao escoamento da produção agro-alimentar espanhola!

Em Espanha, as grandes cadeias de Hipermercados de matriz espanhola têm estado a dar toda a prioridade ao escoamento, nas suas prateleiras, da Produção Nacional Espanhola de Leite e Carne (e não só) a Preços razoáveis.

É uma situação que sobretudo interessa aos Produtores Espanhóis e a Espanha, mas que não deixa de ter legitimidade em termos da soberania alimentar de «nuestros hermanos».
Como repetidamente insinuam, os donos dos Hipermercados de matriz portuguesa gostam de se fazer passar por grandes «patriotas», com toda a preocupação deste mundo pelo escoamento da Produção Nacional…

Pois se tais senhores são assim tão «bonzinhos» para a Produção Nacional como apregoam ser, por que razão, afinal – como em Espanha fazem os espanhóis em relação à produção espanhola – por que razão, dizíamos, não mandam eles dar prioridade, em Portugal, ao escoamento da Produção Nacional a melhores Preços à produção – e de imediato à Produção Nacional de Leite e Carne (de entre outras) – através das suas prateleiras comerciais?!... Pois, pois, o problema é que, de entre outras «habilidades», eles são uns grandes demagogos…

Hipermercados constituíram-se como um Estado dentro do Estado!

Na montagem do seu «império», os Hipermercados têm contado com a maior «colaboração» dos sucessivos governos e de outros órgãos de soberania. Assim, emergem como outros daqueles senhores «que mandam nisto tudo», ou em quase tudo… São, já, um Estado dentro do Estado Português. E sabem-no bem, e disso tiram os maiores lucros!

As práticas que impõem e as posições que ocupam ao longo da cadeia de produção – transformação – comercialização – consumo – ofendem claramente várias disposições da Constituição da República Portuguesa. São inconstitucionais.

Salvo alguns «arrufos» de ocasião, de facto, da parte dos vários governos tem havido falta de coragem política para legislarem e para fiscalizarem, a sério, a actividade comercial dos Hipermercados. Preferem, governos e governantes, aproveitar iniciativas desviantes em relação ao essencial, como acontece com as «eternas» discussões sobre os ditos «Códigos de Boas Práticas Comerciais», que, reafirmamos, os Hipermercados respeitarão apenas, como e quando isso lhes der lucros…

E por que razão não interveio já sobre isto da «ditadura» dos Hipermercados o Presidente da República?

O Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, actual Presidente da República, gosta de falar sobre (quase) tudo. Curiosamente, e apesar de para isso mesmo já ter sido instado, ainda não disse nadinha sobre esta situação muito anómala e que afecta, directa e indirectamente, milhões de Portuguesas e de Portugueses. Será que, de facto «valores mais altos se alevantam» (…), senhor Presidente da República?...

Temos, pois, que continuar a luta!

É necessário regulamentar pela via legislativa e fiscalizar a actividade comercial dos grandes hipermercados!