Reservatório
offshore a 22 quilómetros da Figueira da Foz, com capacidade de
armazenamento superior a 93Mt, poderá acolher um projeto-piloto de
armazenamento geológico. Roteiro prevê primeira injeção
experimental em 2031–2032, dependendo de financiamento,
autorizações e dos resultados das fases de caracterização.
Évora,
03 de outubro de 2026
Portugal
identificou um local concreto no offshore nacional onde poderá ser
testado o armazenamento geológico de dióxido de carbono (CO₂). O
reservatório situa-se na Bacia Lusitaniana, a cerca de 22
quilómetros ao largo da Figueira da Foz, em formações rochosas
centenas de metros abaixo do fundo marinho.
Os
estudos desenvolvidos pela Universidade de Évora no âmbito do
projeto PilotSTRATEGY, desenvolvido em colaboração com a GALP e o
Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, apontam
para uma capacidade de referência de pelo menos 93 milhões de
toneladas de CO₂ no local selecionado.
“Temos
identificado e estudado um local concreto onde poderá ser realizado
um projeto-piloto de armazenamento geológico de CO₂ em Portugal”,
explica Júlio Carneiro, professor do Departamento de Geociências da
Universidade de Évora, investigador do CREATE e responsável pelo
projeto.
O
CO₂ seria injetado a cerca de 1.200 metros abaixo do nível do mar,
num reservatório de arenito, “uma rocha porosa com bastante
permeabilidade”, ficando retido nos poros entre os grãos,
atualmente preenchidos por água de elevada salinidade. O
reservatório geológico é sobreposto por rochas de muito baixa
permeabilidade, que impedem a migração do CO₂ para a superfície.
O
objetivo imediato não é armazenar dezenas de milhões de toneladas,
mas efetuar um projeto-piloto para testar o comportamento do
reservatório no terreno. O
roteiro estudado prevê uma campanha de prospeção sísmica 3D em
2027–2028, a perfuração de um poço de injeção em 2030 e uma
injeção experimental durante cerca de 12 meses, em 2031–2032,
seguida de monitorização pelo menos até 2034.
Este
calendário está, contudo, dependente da disponibilidade de
financiamento, das autorizações necessárias e dos resultados
obtidos em cada etapa.
“A
prioridade é efetuar uma campanha de prospeção sísmica 3D que
permita conhecer melhor a continuidade das formações geológicas em
profundidade e identificar eventuais falhas que possam constituir um
risco de fuga do CO₂”,
explica Júlio Carneiro.
O
piloto deverá injetar menos de 100 mil toneladas de CO₂ e terá
finalidade científica, não comercial.
Deverá permitir confirmar experimentalmente a capacidade efetiva de
injeção, acompanhar o comportamento do CO₂ no reservatório,
avaliar a evolução da pressão e testar a capacidade de retenção
das formações selantes.
CO₂
capturado na cimenteira de Souselas poderá ser transportado por
comboio e navio
Uma
das soluções estudadas permite testar toda a cadeia de transporte
com uma infraestrutura permanente reduzida. O
conceito prevê o recurso a CO₂ capturado na cimenteira de Souselas
e o seu transporte por comboio em contentores criogénicos até ao
porto da Figueira da Foz e, daí, por navio até ao local de
armazenamento. O navio faria a ligação direta ao poço e permitiria
a injeção do CO₂.
“Esta
solução permite testar a cadeia com um mínimo de infraestrutura
permanente, sem necessitar de uma plataforma offshore ou gasodutos”,
explica
Júlio Carneiro.
O
custo estimado para o projeto-piloto é de cerca de 98 milhões de
euros, num intervalo entre 90 e 120 milhões, não incluindo a
unidade de captura de CO₂ na fábrica de Souselas.
Uma
possível infraestrutura nacional de CO₂
Em
paralelo, o projeto CTS (Carbon Transport and Storage) estudou
diferentes possibilidades para criar
uma futura infraestrutura nacional de transporte e armazenamento de
CO₂, incluindo redes de gasodutos e soluções combinando gasodutos
com transporte marítimo.
Os
setores do cimento e da cal surgem entre os principais potenciais
utilizadores. A tecnologia poderá também ter interesse para a
indústria da pasta e papel,
nomeadamente no caso do CO₂ de origem biogénica, cuja captura e
armazenamento permanente poderá, em determinadas condições, ser
considerado como remoção de CO2 da atmosfera.
Para
Júlio Carneiro, o armazenamento geológico poderá ser uma opção
para setores industriais onde outras alternativas de descarbonização
não podem ser utilizadas para reduzir as emissões de CO2.
“Continuar
a investigação sobre captura e armazenamento de CO₂ é essencial
para sabermos em que condições esta tecnologia pode contribuir para
esse objetivo e para manter em Portugal a atividade dos setores de
difícil descarbonização”, afirma.
O
investigador acrescenta que “existe
legislação sobre armazenamento geológico de CO₂”,
mas considera que a participação das entidades competentes num
eventual piloto poderá ajudar a clarificar procedimentos e
competências fundamentais para uma futura fase comercial.
Antes
de qualquer eventual infraestrutura industrial de grande escala, será
necessário confirmar no terreno os resultados obtidos através dos
modelos geológicos e das simulações. O projeto-piloto será
precisamente essa etapa: passar dos estudos e modelos para a
demonstração experimental do armazenamento de CO₂ no subsolo
marinho português.
“Portugal
assumiu o objetivo de neutralidade climática em 2045 e há setores
industriais para os quais as soluções disponíveis são limitadas.
Continuar a investigação sobre captura e armazenamento de CO₂ é
essencial para sabermos em que condições esta tecnologia pode
contribuir para esse objetivo e para manter em Portugal a atividade
dos setores de difícil descarbonização”,
conclui Júlio Carneiro.
Contactos:
Divisão de Comunicação da Universidade de Évora
*Andreia
Rosa [Coordenação]
**Marco
Cardoso [Ciência e Investigação]
***Pedro
Conceição [Institucional]




