domingo, 9 de abril de 2017

FISCO INVESTIGA PORTUGUESES ENVOLVIDOS NOS “PANAMA PAPERS”


Autoridade Tributária admite ter várias ações em curso resultantes das revelações dos “Panama Papers”

Passou-se um ano. Em abril de 2016 uma das maiores fugas de informação de sempre revelava algumas das dezenas de milhares de empresas criadas no Panamá pela firma Mossack Fonseca, tendo como beneficiários clientes em todo o mundo, incluindo Portugal. O então primeiro-ministro islandês, Sigmundur Gunnlaugsson, caiu após saber-se que tinha ocultado no seu registo de interesses um offshore comprado à Mossack em 2007. E em Portugal? Dezenas de cidadãos nacionais tinham interesses naquele paraíso fiscal. E?

O Expresso questionou o Ministério das Finanças sobre se a Autoridade Tributária realizou, a partir das revelações dos “Panama Papers”, diligências sobre cidadãos com residência fiscal no nosso país. A resposta é afirmativa. “Dos estudos efetuados foram estabelecidos graus de prioridade para atuação, encontrando-se atualmente em curso várias ações junto de sujeitos passivos nacionais”, afirma o Ministério das Finanças.

As Finanças não fornecem pormenores sobre quem está a ser investigado nem sobre o número de casos. Mas confirmam que persistem dúvidas sobre a situação fiscal de alguns dos implicados. “Desde as primeiras notícias vindas a público, há cerca de um ano, sobre a existência de um esquema de facilitação de situações de evasão fiscal e eventual fraude, através do recurso à constituição de sociedades offshore, e envolvendo sujeitos passivos de várias nacionalidades, que a Autoridade Tributária e Aduaneira (AT) tem desenvolvido um trabalho de pesquisa e análise, incidente sobre um conjunto de indivíduos ligados a Portugal”, explica o Ministério das Finanças.

Um dos casos que o Expresso investigou nos “Panama Papers” foi o chamado “saco azul” do Grupo Espírito Santo, um esquema de distribuição de benefícios através de sociedades offshore, como a Espírito Santo Enterprises, que veio a estar no centro da ‘Operação Marquês’ e das suspeitas de corrupção que pendem sobre o antigo primeiro-ministro José Sócrates.

Noutros países, as administrações tributárias têm estado igualmente a inspecionar contribuintes referidos nos “Panama Papers”. Em França, revelou esta semana o jornal “Le Monde”, as autoridades identificaram 415 clientes da Mossack Fonseca em situação de possível fraude fiscal. No Panamá, em fevereiro foram detidos Jürgen Mossack e Rámon Fonseca, acusados de branqueamento de capitais.

Em Portugal a AT tem trabalhado com base na informação disponibilizada pelo ICIJ (o consórcio internacional de jornalistas de investigação que trabalhou os dados obtidos pelo jornal alemão “Süddeutsche Zeitung”). A AT cruzou essa informação com as suas bases de dados e tem recorrido a troca de informação obtida de outras jurisdições envolvidas no grupo de trabalho da plataforma Joint International Task Force on Shared Intelligence and Collaboration, da OCDE, a que Portugal aderiu em maio de 2016.

O CETICISMO

Recuemos então a 2016. Dois dias após as primeiras revelações dos “Panama Papers”, o Parlamento português debate o tema, a pedido do Bloco de Esquerda. Na intervenção inicial, a deputada Mariana Mortágua joga ao ataque. “Milionários, jogadores de futebol, políticos, estrelas de cinema, prestigiados bancos, traficantes, terroristas ou simples e respeitados homens de negócios, todos eles se encontram no Panamá, nas Baamas ou nas ilhas Caimão, mas também na Suíça, no Luxemburgo ou na ilha da Madeira. Todos com o mesmo objetivo: fugir aos impostos e à lei”, afirma a parlamentar do Bloco. E prossegue: “Neste sistema paralelo de segredo bancário, de empresas fictícias e de contas-fantasmas não há distinção entre o bem e o mal, não há distinção entre o que é moral e o que é imoral”.

Um ano volvido, como olham os deputados portugueses para os “Panama Papers”? Mariana Mortágua admite que os trabalhos nos media sobre offshores têm transformado a consciência coletiva, mas nota que “o problema não está a ser resolvido”. “Tenho alguma esperança de que a pressão social obrigue a que alguma coisa vá sendo feita”, diz ainda Mariana Mortágua, lamentando, todavia, que a publicação dos “Panama Papers” não tenha ido mais longe na informação revelada aos portugueses.

O deputado comunista Miguel Tiago acentua a crítica. Afirma que o dossiê dos “Panama Papers” “não passou de um flop”. “Foi mais um evento mediático que teve uma tremenda cobertura global e que acabou por não ter nenhuma consequência”, comenta o deputado do PCP.

Já o deputado Eurico Brilhante Dias sublinha que “a generalidade dos cidadãos e políticos está muito mais sensibilizada e alerta em relação às questões dos offshores”. O parlamentar do PS acredita que investigações como os “Panama Papers” e “LuxLeaks” são “um ganho” por deixarem a sociedade mais alerta para a problemática da ocultação de fluxos financeiros.

COOPERAÇÃO INTERNACIONAL

Eurico Brilhante Dias está ciente de que tem de haver cooperação política internacional. “A solução tem de ter uma base multilateral”, reconhece. Mas, admite, “este é um tema muito difícil, porque há Estados-membros que vivem disso [regimes fiscais especiais]”.

O eurodeputado Nuno Melo, do CDS, por seu turno, afirma que os “Panama Papers” criaram uma expectativa que depois não teve grandes consequências. Nuno Melo concede que aquele dossiê teve o mérito de “relançar a necessidade de um trabalho legislativo” sobre o tema dos offshores, mas assume estar “muito cético” quanto à capacidade do Parlamento Europeu de convencer os envolvidos nos “Panama Papers” a falarem dos seus casos.

Para já, a comissão de inquérito do PE sobre evasão fiscal prevê ouvir em setembro o empresário português Jorge Mendes e o presidente da FIFA, Gianni Infantino, a propósito das revelações da investigação “Football Leaks”. 

Nuno Melo quer ouvir na referida comissão o secretário de Estado português dos Assuntos Fiscais, Fernando Rocha Andrade, sobre a recente polémica em torno das estatísticas das transferências de dinheiro de Portugal para o Panamá. E a eurodeputada Ana Gomes já revelou que a missão que a comissão de inquérito realizará a Portugal (ainda sem data marcada) deverá ouvir antigos ministros das Finanças.

Miguel Prado - Expresso

SOFRIMENTOS DESNECESSÁRIOS


Manuel Carvalho da Silva | Jornal de Notícias, opinião

Os espaços do trabalho são em geral povoados por perigos e sofrimentos múltiplos que podiam e deviam ser evitados. A Organização Internacional do Trabalho (OIT), insistentemente alerta para o facto de os números de mortes e de acidentes no trabalho serem, em cada ano, à escala global, superiores aos números de mortos e feridos em guerras no mesmo espaço temporal. Acresce a esta dimensão de sofrimento o enorme impacto das doenças profissionais.

Num tempo em que todos os dias ouvimos e lemos discursos de deslumbramento com as tecnologias e o conhecimento e com os seus extraordinários contributos para criar riqueza, é caso para perguntar: porquê se utiliza tão pouco o conhecimento científico e empírico para salvar a vida e a saúde das pessoas no trabalho e dar a este valor e dignidade? Porquê as teorias sobre a competitividade, o crescimento económico e o lucro ignoram estes prementes desafios?

Esta semana assistimos à tragédia na fábrica de pirotecnia em Penajóia, Lamego. Oito vidas perdidas, famílias destroçadas e imensas pessoas profundamente afetadas. Em situações destas, toda a solidariedade é prioritária e uma obrigação, mas também é oportuno o alerta sobre o contexto do mundo do trabalho em que estas e outras tragédias grandes e pequenas, visíveis e silenciosas, acontecem.

O setor da pirotecnia vem de um passado cheio de improvisações e riscos, mas hoje há meios técnicos e outros que podem ser postos ao serviço da sua reestruturação, aumentando muito a segurança. Neste como noutros setores a questão central é a mobilização de meios, privados e públicos, e a adoção de políticas de acompanhamento rigorosas. Por exemplo, controlo sobre a origem e as condições em que chegam às empresas de pirotecnia as matérias-primas e a sua manipulação. E uma forte aposta na formação de quem ali trabalha.

Segundo dados da Autoridade para as Condições do Trabalho, no primeiro trimestre deste ano registaram-se 50 acidentes de trabalho graves e em 2016 tivemos 140 mortes. Isto num país em que houve, nos últimos anos, natural tendência para a diminuição de acidentes graves, em consequência da diminuição de atividades em setores potencialmente perigosos, como é o caso da construção civil.

O país precisa que se invista muito mais na segurança das infraestruturas e estruturas das empresas e serviços, e em políticas e ação preventiva que visem a segurança, a proteção e a saúde dos trabalhadores.

Toda a informação disponível sobre os acidentes de trabalho mostra-nos que estes, no global, não estão a diminuir. Além disso, a chamada vaga tecnológica, as alterações nas formas de prestação e de organização do trabalho, as precariedades que secundarizam a formação, estão na origem de muitos acidentes de trabalho e no surgimento de novas doenças profissionais. O desemprego é também causa de doenças, incluindo nos jovens. Não é por acaso o realce que a Organização Mundial de Saúde deu este ano aos problemas do stresse e da depressão.

Demasiadas vezes o discurso público sobre tecnologia, e até sobre outras dimensões do conhecimento, entende os seus desenvolvimentos como se estes se processassem por formatos e rumos independentes da forma como a sociedade se organiza. O discurso dominante tende a convencer-nos que, pelo contrário, seria a sociedade, sobretudo no que ao trabalho diz respeito, a moldar-se ao ritmo da inovação tecnológica e das opções de uns poucos proprietários da combinação tecnologia/ conhecimentos especiais. Sabemos que a relação entre tecnologia e trabalho é historicamente bem mais complexa.

O desenvolvimento tecnológico é sempre dependente dos incentivos e das perguntas que se colocam a cientistas e engenheiros. Se, em vez de se perguntar insistentemente como reduzir custos de trabalho para aumentar a riqueza de meia dúzia, se passasse a perguntar como reduzir o risco de acidentes no trabalho, os resultados do desenvolvimento tecnológico seriam necessariamente diferentes. Coletiva e democraticamente devemos definir as políticas públicas adequadas, e não deixar o nosso rumo coletivo entregue ao imperativo do lucro e da apropriação do valor criado pelo trabalho.

Há demasiados sofrimentos desnecessários.

* Investigador e professor universitário

SUSPEITO: PAULO DOS SUBMARINOS E DO MILHÃO DE EUROS DO CDS… - AGORA MAIS UMA

Paulo Portas anda tão descansadinho nos seus negócios na vida empresarial por conta já nem se sabe de quem e onde (em que país) e agora aparece mais uma em que é apresentado como suspeito. O caldo é composto por Mota-Engil, outra empresa de construção em Ourém, a Tecnorém, e… a obra da Escola da Nato.

Em concurso público(?) a Tecnorém venceu para a construção na NATO, em Portugal. Mas houve “manigâncias” (crê a Tecnorém) e no final venceu a Mota-Engil. Foi o dito por não dito ou o rapa-tira-põe-deixa. Portas na “mistura”, que até pressionou o diretor-geral da Tecnorém… Negócios à Portas, talvez naquele jogo do “quem dá mais”. Não se sabe exatamente. Nunca se sabe. Tanto assim que Portas tem passado pelo intervalo das chuvas apesar dos vários episódios “estranhos” no cardápio.

Morais e Varela, jornalistas do JN, dão conta destas peripécias sobre o sujeito dos submarinos e do cerca de um milhão de euros depositado no mesmo dia em várias agências bancárias com importâncias “às pinguinhas”, divididas, que se apurou somar mais de 900 mil euros… Quase um milhão de alegadas contribuições ao CDS que estava nos seus cofres, alegadamente por “desleixo ou esquecimento. Vingava nesses tempos a miraculosa novela dos submarinos… Mas todos nós sabemos mais coisa menos coisa da história das águas turvas. Sabemos o que nos foi permitido saber por entre imensa nebulosidade. A verdade, verdadinha, foi que… Pois.

E agora isto, até que parece cousa pequena. Mas lá vem Paulo Portas à baila. O JN dá umas “luzes” online sobre o caso. O resto foi para a versão impressa e em e-paper. Talvez ainda também venha aqui parar ao PG. Enquanto isso fiquem com a “glosa” retirada do JN. Boa leitura. Depois que se diga: ora, ora, afinal não é nada porque o CDS já respondeu ao JN que o assunto foi tratado com toda a "lisura". Pois claro que foi!. (MM / PG)

Obra da Mota-Engil para a NATO envolve Portas em polémica

Nelson Morais com Carlos Varela | Jornal de Notícias

Empresa concorrente denunciou ao Ministério Público pressões de Paulo Portas sobre diretor-geral e contesta decisão no Tribunal Administrativo.

O Ministério Público (MP) recebeu uma denúncia da construtora Tecnorém em que esta afirma que, no concurso para a construção da Escola da NATO, em Oeiras, "houve um claro favorecimento da sociedade Mota-Engil". Esta ficou em segundo lugar, mas, depois de apresentar uma reclamação, passou para o primeiro. Ao contrário, a proposta da Tecnorém, considerada a melhor entre oito concorrentes, foi desclassificada. Na sua denúncia ao MP, esta empresa de Ourém aponta como suspeitos Paulo Portas, anterior vice-primeiro-ministro e agora consultor da Mota-Engil, e o diretor-geral de Recursos da Defesa Nacional, Alberto Coelho, que lançou o concurso e preside ao Conselho de Fiscalização do CDS-PP. O JN enviou várias perguntas à Mota-Engil e a Paulo Portas, tendo recebido um esclarecimento da assessoria de Imprensa em que se garante que o processo foi conduzido com "lisura" .

Leia mais na versão e-paper ou na edição impressa.

A TABLOIDIZAÇÃO DA JUSTIÇA E OS COBARDES


Pedro Marques Lopes | Diário de Notícias, opinião

Já conhecíamos o método de lançar suspeitas, pôr partes de processos, escutas, interrogatórios em alguns jornais e televisões e assim fazer julgamentos na praça pública. Já suspeitávamos que existiam situações em que agentes do poder judicial, não sendo capazes de obter provas para as suas convicções, punham a correr no pasquim do costume a sua verdade para que, no fundo, a pessoa fosse condenada, ferida no seu bom nome, na sua honra, e sem que nada pudesse fazer contra isso.

Com o despacho de arquivamento do inquérito aberto a Dias Loureiro e Oliveira Costa atingimos um novo patamar no caminho que estamos a percorrer rumo à justiça popular. Sendo a perversidade suprema serem agentes de justiça a promovê-la.

"(...) O que nos permite suspeitar que o verdadeiro objectivo da celebração dos negócios (...) foi tão-só o enriquecimento ilegítimo de terceiros à custa do prejuízo do Grupo BPN, nomeadamente e, pelo menos, de Dias Loureiro, de Oliveira e Costa e de Al Assir, enriquecimento esse sob a forma do pagamento de comissões." Ou seja, arquiva-se ao mesmo tempo que se condena.

Este é apenas um exemplo das várias considerações com o propósito de levantar suspeitas e comentários acusatórios que a procuradora do Ministério Público faz no despacho em que conclui que não há matéria para fazer uma acusação. Alguém que tem como imperativo legal apenas investigar, encontrar provas ou concluir que não há base para prosseguir o processo decide insinuar e usar a autoridade que lhe é dada pela lei para acusar sem provas.

Não será necessário discorrer sobre este ataque aos direitos fundamentais ou sobre a, desta vez, descarada condenação na opinião pública apenas baseada numa convicção de um agente de justiça. Até o mais desconhecedor do Direito saberá que para alguém ser acusado tem de haver, ao menos, indícios de provas e que para ser condenado as provas têm de ser sólidas.

A procuradora definiu uma nova forma de fazer justiça: condenar sem ser tribunal e construir teses sem apresentar provas. O Ministério Público cospe no Estado de direito e tabloidiza a Justiça.

Um dos aspetos mais preocupantes desta história é a normalidade com que se continua a aceitar este ataque ao regular funcionamento das instituições, que com este despacho atingiu uma nova dimensão.

Custa a entender, desde logo, a maneira como tantos órgãos de comunicação social trataram de forma ligeira este brutal exemplo de mau funcionamento da Justiça. A sensação é a de que há muita gente que se deixou aprisionar a uma corrente, em voga há muito tempo, de que quem chama à atenção para atropelos ao Estado de direito, às garantias básicas dos cidadãos em sede de direito penal, à defesa do direito de presunção da inocência, à presunção de inocência, à regra do contraditório, à não inversão do ónus da prova, à vergonha que é a condenação na opinião pública com base em pedaços de escutas, de interrogatórios ou tão-somente de opiniões, não passa de um defensor de corruptos e de criminosos. Alguém que fale das evidentes irregularidades na Operação Marquês é, claro está, um socratista. E, não duvido, quem se revoltar contra este despacho será apelidado de defensor de Dias Loureiro. Não faltam nem faltarão acusações de amiguismo ou pior.

Mas nem os órgãos de comunicação social sérios que olham para o lado nem os colunistas que promovem a justiça popular são os mais responsáveis pelo atual estado de coisas. A pergunta que deve ser feita é: estão os deputados, o governo, o Presidente da República, juízes, magistrados do Ministério Público, Ordem dos Advogados, políticos mais ou menos importantes, confortáveis com tudo o que se tem passado na justiça criminal? No mesmo sentido: há algum destes senhores ou organizações que desconheça, por exemplo, a gravidade para os mais basilares direitos deste despacho de arquivamento em forma de sentença de condenação?

Estou certo das respostas a estas perguntas. Não só sabem da gravidade deste despacho como sabem que os atropelos sérios se vão sucedendo. Só que em algumas situações as irregularidades trazem-lhes vantagens políticas ou, na maioria das situações, têm, pura e simplesmente, medo. Medo que no momento em que apontem o dedo ao estado das coisas surja uma "notícia" numa primeira página do tabloide do costume dando conta de uma investigação real ou inventada. Medo que se disserem alguma coisa sobre a infâmia que é aparecerem escutas ou transcrições de interrogatórios nesse tabloide, ou que se critique a forma como atuam, estes iniciem campanhas com insinuações ou apareçam "notícias" prejudiciais. No fundo, um bando de cobardes que assistem ao afundar do sistema que prometeram proteger e assobiam para o lado. E há os autênticos colaboracionistas que são os políticos-colunistas que conseguem escrever sobre o estado da democracia num tabloide que faz da divulgação de partes de escutas e de interrogatórios em segredo de justiça uma atividade corriqueira, da calúnia e da distorção de factos uma razão de ser, ou os políticos e os jornalistas que calmamente comentam no canal dessa espécie de jornal interrogatórios no Ministério Público do dia anterior.

O despacho em causa é um ataque feroz ao Estado de direito e consagra a tabloidização da Justiça, mas serve também para nos recordar pela enésima vez a cobardia e o autêntico colaboracionismo de muitíssima gente, sobretudo dos nossos políticos. É que não há nada mais político do que a Justiça, no sentido de que não há nada que interesse mais ao bem comum do que um regular e democrático funcionamento da Justiça.

FORÇA E FRAQUEZA DOS ECONOMISTAS LIBERAIS

Como hoje têm poder, tentam impor suas opções como as “únicas possíveis”. Mas nesta recusa ao debate está sua grande debilidade: que restará deles quando houver democracia real e a Economia deixar de ser dogma?

Felipe Calabrez – Outras Palavras

O capitalismo liberal do início do século XIX ruiu. A intervenção do Estado então entrou em cena para salvaguardar o sistema, (re)politizando a acumulação, como demonstrou Polany, e recolocando o problema da legitimação sob o capitalismo tardio, como apontou Habermas. Esse diagnóstico, feito com base nos países centrais, pode ser estendido, em seu ponto fundamental, para os países “periféricos”, visto que esses são fruto da própria dinâmica de competição entre os países centrais que, por meio da conquista, do saque e da pilhagem, colonizaram territórios inserindo-os na lógica mercantil da exploração e do lucro. Assim, os países latino-americanos desenvolveram estruturas de dominação e de exploração impostas inicialmente de fora e desenvolveram o capitalismo acompanhados de estruturas políticas fortemente autoritárias.

O século XX é marcado por um capitalismo estatalmente regulado, o que fica evidente após as medidas do New Deal para reverter a grande depressão e após o advento da macroeconomia keynesiana. Keynes revoluciona o pensamento econômico ao demonstrar que o sistema não tende naturalmente ao pleno emprego, por sofrer uma constante insuficiência de demanda, algo que pode ser revertido por meio de medidas de estímulo ao investimento. Tais medidas, que incluem os investimentos públicos, mas não apenas, abrem caminho para que, no campo da teoria econômica, o Estado adquira papel relevante, influenciando decisivamente nos agregados econômicos de um país. O advento da macroeconomia abre caminho para a centralidade da política econômica estatal e produz um fenômeno sociologicamente relevante: Os economistas passam a ser detentores de um tipo de saber considerado fundamental para as políticas de Estado, e, consequentemente, passam a ocupar – em alguns países mais, em outros menos – os postos de decisão chave no aparelho de Estado.

Os países latino-americanos ilustram claramente as consequências apontadas acima. Como ex-colônias, passam a buscar se constituir como nações e acelerar seu processo de “modernização” capitalista, o que coloca em seus Estados a missão histórica de dirigir o processo. Não é à toa que a ideologia desenvolvimentista é na América Latina que tem origem e produz-se na região o que há de melhor na história do pensamento econômico crítico. A partir da crítica à teoria ricardiana das vantagens comparativas, tem-se a construção de uma robusta teoria que não se limitou à análise do comércio internacional, mas procurou compreender a subordinada posição dos países latino-americanos no sistema capitalista mundial como causadora de seu atraso, e, a partir daí, elaborar um programa de superação dessa situação — programa que era de natureza eminentemente política. Não por outro motivo, seus principais teóricos, Raul Prebisch e Celso Furtado, ocuparam postos decisórios nos aparelhos de Estado.

Em meados dos anos 1970, por uma conjunção de fatores (econômicos, políticos, geopolíticos), os principais países do capitalismo mundial passam a enfrentar um atípico processo de estagflação que solapa as bases do consenso macroeconômico keynesiano e fortalece um tipo de pensamento econômico radicalmente liberal (no sentido em que rechaça a validade da intervenção estatal no sistema econômico e opera com uma anacrônica separação entre política e economia, onde a primeira não deveria “intervir” no funcionamento da segunda). Essa mudança de paradigma de política econômica encerra uma dupla contradição, à qual chamarei de analítica e normativa.

A contradição analítica se deve ao fato de que todo o corpo de saber científico (ciência econômica) de que dispomos para entender o funcionamento do sistema econômico, ou dos sistemas econômicos (economia) apoia-se na separação entre o mercado (esfera onde os agentes racionais tomam suas decisões de maneira a maximizar sua utilidade) e a política, tomando apenas a primeira esfera como objeto de estudo. Isso depois de o século XX ter demonstrado que o processo de acumulação e reprodução do capital se deu da maneira intensamente politizada e guiada pelos Estados, que assumiram um papel que foi muito além de corretor de falhas de mercado.

Vale observar que o problema a que chamei de contradição analítica não é a separação em si, posto que as duas esferas (Estado e mercado) operam com lógicas diferentes, embora conectadas. A abstração é inerente às construções teóricas e tal separação certamente permite ganhos analíticos, por um lado, e prezuízos, por outro. O problema é que essa separação analítica faz com que os economistas façam previsões e prescrições com base em um abstrato homo economicus, e qualquer desvio em suas previsões é visto como indesejado, algo que deve ser sanado, corrigido, o que faz com que sua “ciência analítica” se torne, sem que percebam, normativa, e, no limite, autoritária. Assim produz-se a contradição normativa.

A contradição normativa se nota quando olhamos o conjunto de ideias liberais que se tornaram hegemônicas ao final da década de 1970, e que, embora pretendam-se neutras do ponto de vista político, carregam consigo elemento político de duplo caráter. Político porque pretendem moldar o mundo à imagem de seu constructo teórico, disseminando a lógica mercantil a todas as esferas da vida social, e político porque, para isso, precisam que seu programa encontre guarida nos postos-chave de decisão estatal, exigindo dos Estados forte capacidade política de implementação e de contenção dos conflitos sociais daí resultantes.

Essa dupla contradição produziu uma disjunção entre o que se tornou a ciência econômica mainstream (que não é mais economia política, mas economics) e a natureza do funcionamento do sistema econômico, que, ao contrário do que se diz frequentemente de maneira crítica, não se tornou liberal como fora no século XIX, mas, ao contrário, se repolitizou ainda mais. Aqui vale um exemplo historicamente situado que ilustra o que estou dizendo.

Os países latino-americanos, guardadas suas especificidades, passaram por décadas de crescimento econômico politicamente orientado, não raro convivendo com regimes ditatoriais. Esse processo de acumulação politizada contou com o protagonismo estatal e produziu, como resultado de decisões políticas, enormes dívidas externas. O desencadeamento da dívida externa produziu, por sua vez, disfunções no sistema econômico que impuseram processos de ajustamento. Os ajustes foram postergados até a década de 1980, e a decisão sobre em quem recairiam seus custos era uma decisão política. Diante disso o Brasil optou por aquilo que José Luís Fiori chamou de fuga para a frente. Ao final da década construiu-se um consenso geral sobre o que fazer e impôs-se de fora um pacote homogêneo de medidas privatizantes e liberalizantes para todos os endividados países latino-americanos, hegemonizando a ideia de que o problema era o Estado e a solução, o mercado.

Não entrarei aqui no mérito de cada uma das medidas defendidas; é certo que algumas carregavam algum grau de razoabilidade. O que pretendo ressaltar é que as reformas pró-mercado possuíam natureza política, já que logo ficou clara a necessidade de que o Estado (fonte dos males) reforçasse suas estruturas administrativas e sua capacidade de direção política para implementar projetos que, ao fim, reduzem o papel do próprio Estado, na regulação econômica e no fomento ao desenvolvimento. Essa aparente contradição contida num receituário econômico ortodoxo que defendia a redução do papel do Estado por meio de reformas que teriam como agente implementador o próprio Estado foi chamada por Miles Kahler de “paradoxo ortodoxo”.

O paradoxo ortodoxo, que não é nenhuma novidade – vide o caso da implementação das reformas liberais no Chile sob uma violenta ditadura – tem sua origem no campo das teorias econômicas. Como dito, essas teorias preconizam o domínio da lógica mercantil sobre todas as esferas da vida social e política, isto é, atribuindo ao “mercado” a determinação dos preços macroeconômicos fundamentais – como taxa de juros, os salários e o câmbio – bem como o provimento de bens básicos à qualidade da vida humana, como saúde e educação, considerando como bens públicos puros apenas aqueles de natureza não-rival (isto é, apenas o ar e mais uma ou duas coisas), como ensinam os manuais de economia do setor público. Para construir – e manter – esse espaço mercantil, é preciso, entretanto, que a ação política seja constante, motivo pelo qual as ditas reformas nunca mais saíram da agenda política.

Dito tudo isto, pode o leitor indagar: Então toda economia é política, toda ciência e teoria econômica possuem caráter político, não sendo isso uma especificidade do liberalismo. Qual seria então o problema?

A meu ver o problema consiste no mascaramento que a ideologia liberal produz. Senão vejamos: Quando Keynes escreveu a Teoria Geral, ele se defrontava com um problema muito prático; os alarmantes níveis de desemprego causados pela Grande Depressão. Embora, como saibamos, lord Keynes estivesse muito longe de defender uma revolução social, o desemprego lhe pareceu um grave problema naquele momento. Seu movimento intelectual se deu no sentido de captar um problema na realidade, que lhe produz incômodo, e transformá-lo em um problema teórico, passível de ser cientificamente explicado. Para isso Keynes empreendeu o formidável esforço de confrontar a lei de Say e toda a ciência econômica estabelecida para demonstrar que o sistema não mantém automaticamente o nível do pleno emprego e que a (estapafúrdia) hipótese de desemprego voluntário não se sustenta. E, mesmo aceitando os termos dos adversários como forma de se legitimar, Keynes se vê obrigado a apelar para elementos “não econômicos” ao afirmar que não é desejável que os salários caiam abaixo de determinado nível. Temos aqui explícitos os valores que orientam o teórico, o que não faz sua teoria ser menos científica, como nos alertou Max Weber.

Como já dito, a teoria keynesiana pressupunha uma forte ação estatal e desejava o pleno emprego. Isso tudo não é velado. Portanto, as teorias econômicas podem manter seu rigor analítico e explicitar seus valores, sobretudo quando se pretendem propositivas. Assim foi com o precursor do liberalismo, Adam Smith, que lutava contra a velha ordem mercantilista e o sistema de dominação que a sustentava. Assim foi com Keynes e o problema do desemprego, e assim foi com os cepalinos, que buscavam desenvolver o sistema econômico nacional como forma de superar a heterogeneidade estrutural – e, consequentemente, desigualdade – que o subdesenvolvimento gerava. Vale mencionar que, depois da avalanche liberal dá década de 1990, os valores de nação, competição e desenvolvimento econômico têm sido resgatados com notáveis esforços por Bresser-Pereira e a teoria novo-desenvolvimentista. Assim como Keynes, Bresser logrou identificar um problema real (a estagnação) e transformá-lo em um problema teórico, buscando identificar suas principais causas e organizando-as em um modelo teórico explicativo e propositivo. Esse modelo propositivo (a macroeconomia desenvolvimentista) contém uma economia política, isto é, explicita quais são as medidas desejáveis para superar o problema identificado. Sua aplicação passa, portanto, pela política. As cartas estão na mesa.

A diferença em relação à postura liberal é notável. Esta, baseada na legitimidade que seu corpo teórico adquiriu, mantém velados seus pressupostos e seu caráter político; e isso, paradoxalmente, quando procura a todo custo impor suas ideias por meio de programas políticos, apresentando-as, no entanto, como a única saída possível, racional e inescapável. Os liberais poderiam explicitar que seu projeto é alastrar a lógica mercantil para todas as esferas, submetendo a macroeconomia e a própria atividade econômica real (produtiva) aos imperativos do mercado, cada vez mais financeirizado e instável. Não o fazem, porque, ao fazê-lo, abririam espaço para o debate político, onde seria possível questionar o que (e em que medida) é desejável delegar às decisões privadas de ordem mercantil e de valorização do capital. E a política, em sua visão, é algo negativo, indesejável e que só atende a interesses parciais, exceto, naturalmente, quando está sendo conduzida por eles.

Na foto: O general Augusto Pinochet recebe o economista ultraliberal Milton Friedman (de terno preto), que colaborou intensamente com a ditadura chilena. Ao contrário de Friedman, economistas clássicos como Keynes e mesmo Adam Smith jamais tentaram ocultar o caráter político de todas as decisões económicas.

ATAQUE DE UM IMPÉRIO EM DECADÊNCIA

Agora, Trump satisfaz o establishment. Para Wight, ataque à Síria foi “mais uma evidência de que os neoconservadores haviam reassegurado sua dominação sobre a Casa Branca, depois de um curto período de intensa luta pelo poder.”

Bombardeio da Síria nada tem a ver com justiça e não será capaz de restaurar poder dos EUA no Oriente Médio. Mas pode incendiar de novo um dos barris de pólvora do planeta

John Wight | Outras Palavras | Tradução: Maurício Ayer e Inês Castilho

Descrever o ataque dos Estados Unidos à Síria como uma medida séria é ser incapaz de avaliação.

Sem nenhum respaldo do direito internacional ou na ONU, o governo Trump cometeu um ato de agressão contra mais um Estado soberano do Oriente Médio, o que confirma que os neoconservadores retomaram seu domínio sobre a política externa de Washington. Este ato de agressão acaba com qualquer perspectiva de desanuviamento entre EUA e Rússia no futuro próximo. Ao contrário: aumenta consideravelmente as tensões entre os dois países, não apenas no Oriente Médio como também no Leste Europeu, onde há algum tempo tropas da OTAN vem realizando exercícios militares a uma distância de ataque do território russo.

Na esteira da divulgação das terríveis imagens de Idlib, após o suposto ataque de gás sarin, observou-se no mundo ocidental um crescente clamor por mudança de regime em Damasco, com declarações de políticos e da mídia que apressam o julgamento e responsabilizam o governo sírio pelos ataques. Ninguém sabe com certeza o que aconteceu em Idlib, razão pela qual o que se deveria buscar é um acordo para realizar uma investigação independente em busca da verdade e, com ela, da justiça.

Em todo caso, apenas os mais ingênuos acreditariam que esse ataque dos Estados Unidos contra a Síria tenha sido cometido visando à justiça. Por que seria assim, quando sabemos que recentemente bombas estadunidenses mataram civis, inclusive crianças, em Mosul? E por que seria assim, se considerarmos o indizível sofrimento das crianças do Iêmen em consequência da brutal campanha militar da Arábia Saudita?

Não, este ataque dos Estados Unidos – que segundo relatos oficiais envolveu 59 mísseis Tomahawk, lançados de navios posicionados no leste do Mediterrâneo – foi perpetrado com vistas a uma mudança de regime, e estabelece um precedente que pode ter graves desdobramentos para toda a região.

Sobre o ataque em Idlib, o que pode ser dito com certeza é que, num momento em que as forças pró-governo na Síria estavam em ascensão e em que o governo obtinha progressos significativos na frente diplomática, seria um ato de sabotagem brutal  realizar qualquer tipo ataque de armas químicas, ainda mais dessa magnitude.

Isso correponderia a um governo empenhado em provocar seu próprio desmantelo. Deve-se levar em consideração o fato de que a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), uma organização apoiada pelos Estados Unidos, confirmou em junho de 2014 que o processo de destruição completa do arsenal de armas químicas da Síria tinha sido concluído. Além disso, as terríveis imagens e testemunhos oculares de Idlib que apareceram logo após o ataque são todos provenientes de fontes oposicionistas. Nenhum jornalista ou equipe de reportagem ocidental ousaria pôr os pés em Idlib, ou mesmo em qualquer outra parte do território sírio tomado pelas forças de oposição, pois sabem que, se assim procedessem, poderiam ser capturados e trucidados.

Com esta intervenção militar unilateral, Trump provou que pode facilmente ser tragado para dentro do conflito. Poucos dias após seu governo confirmar que uma mudança de regime na Síria estava fora de questão e que o seu foco era derrotar o terrorismo, Trump deflagra um ataque aéreo que apenas incitará as mesmas forças terroristas cuja derrota ele havia enfatizado ser o centro de sua política externa.

E agora? Claramente, essa ação militar coloca a Rússia em posição muito difícil. Desde que se envolveu no conflito na Síria, no final de setembro de 2015, por determinação de seu governo, Moscou trabalhou incansavelmente para construir uma saída negociada, uma saída que envolvesse as forças de oposição e as partes consideradas moderadas se comparadas aos fanáticos jihadistas salafistas do ISIS e Al Nusra, entre outros. Trata-se de um processo diplomático que acaba de sofrer um golpe devastador, pois a oposição agora está indubitavelmente convencida de que a mudança de regime virá via Washington e, portanto, se vê estimulada a trabalhar por este fim.

Enquanto isso, os aliados regionais de Washington – Israel, Arábia Saudita, Catar e Turquia (com Erdogan garantindo que se ligará a quem for mais forte…) – provavelmente agora começarão a pedir mais ações militares contra Damasco, vendo o ataque dos EUA como o catalisador de uma temporada de vale-tudo em relação à soberania do país.

Para Trump — que está sob intensa pressão do establishment mediático, político e das agências de espionagem de Washington desde que assumiu o governo –, esta ação garantirá um pouco da tão necessária aprovação e, com isso, uma trégua. Seu governo emitiu sinais ameaçadores durante algum tempo, a começar pela renúncia forçada de Mike Flynn como Conselheiro de Segurança Nacional em fevereiro, seguida pela recente saída de Steve Bannon do Conselho de Segurança Nacional da Presidência. Foi mais uma evidência de que os neoconservadores haviam reassegurado sua dominação sobre a Casa Branca, depois de um curto período de intensa luta pelo poder.

Numa visão mais ampla, a falta de memória de curto prazo em Washington é impressionante. Quatorze anos depois da desastrosa invasão do Iraque, que abriu os portões do inferno para deixar emergir o ISIS e outros grupos jihadistas, e seis anos depois de fazer da Líbia um Estado falido, disparando no processo uma crise de refugiados de proporções bíblicas, temos aqui novamente um ato de agressão contra um Estado soberano no Oriente Médio pelos EUA.

Destruir países para “salvá-los” é, desde sempre, a história de todos os impérios. Mas, como a história revela, todo império carrega dentro de si as sementes de sua própria destruição. Donald Trump caminha agora para ficar na história como um governante que, ao invés de salvar os EUA de si mesmos, pode ter ajudado apenas a acelerar sua queda até a morte final.

Tito Lívio, o grande historiador romano, escreveu certa vez: “Roma cresceu tanto desde seu humilde início que agora está devastada por sua própria grandeza.”

JORNALISMO, PROFISSÃO DE ISCO


JORNALISMO, PROFISSÃO DE ISCO

JORNALISMO DEGRADADO E DEGRADANTE

Houve um tempo em que a distinção enfre factos e opiniões era uma prática bem estabelecida no jornalismo, assim como a distinção entre a mentira e a verdade. Hoje isso não é mais assim e os próprios jornalistas que trabalham nos media corporativos são, em grande medida, responsáveis por esta degradação. Consciente ou inconscientemente, a maior parte destes profissionais perdeu qualquer capacidade de análise ou de juízo crítico. Aceitam como verdadeiras as mentiras mais inverosímeis.
Basta ver, por exemplo, o semanário Expresso de 08/Abril/2017. Nunca, em momento alguns, os vários jornalistas que ali escreveram sobre a agressão à Síria puseram em causa a versão dos EUA de que o governo Assad teria utilizado armas químicas contra o seu próprio povo. Os leitores desse semanário nem sequer tiveram o direito do contraditório, princípio básico do jornalismo. A mentira passa assim por verdade pura e cristalina.
Nenhum destes escrevinhadores que se intitulam jornalistas aprendeu com a História. O cinismo ou a ignorância imperam entre eles. As mentiras sucessivas do governo dos EUA para lançar guerras são pura e simplesmente ignoradas. A mentira do incidente do Golfo de Tonquim, tramada pelos EUA para lançar a guerra do Vietname, não existe para esta gente do Expresso, dos comentaristas da TV ou das folhas de papel corporativas. A mentira de Collin Powell na ONU e das suas "provas" de armas de destruição em massa no Iraque tão pouco. Assim como a mentira da explosão do navio que serviu para os EUA intervirem militarmente em Cuba, no princípio do século XX. Exemplos destes poderiam suceder-se numa longa série.
Verifica-se assim que Goebbels tem émulos à altura nos media portugueses. Como diz John Pilger, tais jornalistas têm uma pesadíssima responsabilidade pelas mortes de milhões de pessoas pois preparam o clima para as guerras de agressão do imperialismo. Eles têm as mãos manchadas de sangue. Crimes monstruosos praticados na Jugoslávia, Iraque, Líbia, Somália, Iémen, Síria e tantos outros lugares são também da responsalidade dos que escrevem nos media corporativos.

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