terça-feira, 11 de abril de 2017

VOLTA NIXON, ESTÁS PERDOADO


O acto de coscuvilhar a vida alheia banalizou-se tanto como tirar selfies. Por que raio o cidadão Trump – embora sendo mais cidadão do que os outros – haveria de ser excepção se excepção não foram, por exemplo, a Senhora Merkel, a legítima presidenta Dilma e outros amigos, aliados, inimigos e assim-assim?

José Goulão | AbrilAbril, opinião

pesar de todos os desmentidos e das mil e uma juras de inocência, parece estar hoje confirmado que as agências de espionagem norte-americanas, então sob as ordens da Administração Obama, escutaram as conversas e esmiuçaram a vida do candidato presidencial Donald Trump e sua gente, procurando tirar proveitos eleitorais em favor da candidata Clinton.

É verdade que, tendo em conta a realidade dos tempos modernos e o folclore circense em que se transformaram a política de Washington e o seu proclamado respeito pelos direitos dos cidadãos, haver espantação e especulação em torno de tal assunto é facto merecedor de registo.

Ao longo das décadas mais recentes acumularam-se as evidências de que os presidentes norte-americanos e as NSA's, CIA’s e FBI’s, mais os Google’s e Yahoo’s ao serviço do tentacular aparelho administrativo imperial de devassa, espiolharam a vida de toda a gente em todo o mundo recorrendo à infernal parafernália tecnológica e intrusiva de que foram dotados.

O acto de coscuvilhar a vida alheia banalizou-se tanto como tirar selfies. Por que raio o cidadão Trump – embora sendo mais cidadão do que os outros – haveria de ser excepção se excepção não foram, por exemplo, a Senhora Merkel, a legítima presidenta Dilma e outros amigos, aliados, inimigos e assim-assim?

WikiLeaks e Edward Snowden demonstram-nos que, hoje em dia, governar é espiar; e a solidez do poder é directamente proporcional à capacidade para conhecer e tirar proveito das incidências da vida dos cidadãos contribuintes, eleitores, dirigentes ou mesmo pares em funções. Por isso, seguindo a ordem corriqueira das coisas, o sistema global de olhos e ouvidos que serviu Obama e outros estará hoje sob comando de Trump, porque não é uma extensão do poder discricionário deste ou daquele presidente mas sim uma comunidade que faz funcionar um monstruoso big brother indissociável do sistema de dominação global.

Porta-vozes de Obama e Hillary Clinton desfazem-se em justificações para alegar que nada queriam saber da vida do seu rival eleitoral, nem poderiam querer saber porque isso iria contra os seus «princípios». Ora todos estamos cientes: é a verdade da mentira.

Porém, Devin Nunes, um republicano que preside à Comissão de Informações da Câmara dos Representantes, veio dar conta de que lhe chegou às mãos um relatório onde se admite que a NSA (Agência de Segurança Nacional), a CIA e o FBI espiaram Trump por conta de Obama e a favor de Clinton, mas tudo não passou de um lamentável processo «acidental».

O documento explica que Trump e os membros da sua equipa de campanha foram escutados secretamente, em telefonemas privados, porque os seus interlocutores de ocasião eram pessoas que estavam sob vigilância – as informações são omissas sobre o facto de se tratar, ou não, de escutas com ou sem mandato judicial. Isto é, Trump e os seus apenas foram escutados por tabela, um argumento tão óbvio que já está desacreditado nas nossas prosaicas guerras domésticas de que são intérpretes os espiões do forte da Ameixoeira.

Um tal «acidente» não aconteceu apenas no território dos Estados Unidos; vale por dizer que os atarefados olhos e ouvidos não enxergam e escutam apenas a partir dos centros imperiais, o que só pode surpreender quem desconhece a existência dos «cinco olhos»; não a régua com que os mestre-escolas sovavam os alunos de antanho, mas sim as cinco pontas da espionagem universal anglo-saxónica: Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia.

Daí que tenha sido apurado, pelo menos, o envolvimento do GCHQ do Reino Unido na devassa da campanha de Trump, o que foi prontamente desmentido pela nobre espionagem de Sua Majestade. No entanto, foi esta a ocasião que o espião-mor do reino e do GCHQ, Robert Hannigan, escolheu para se demitir, invocando razões pessoais, sendo substituído por Jeremy Fleming. Branco é, galinha o pôs.

Voltemos às explicações de Devin Nunes, para tentar perceber um pouco melhor o caso da «espionagem acidental». O deputado validou esta versão tornada pública, mas não deixou de estranhar um facto: ao contrário do que é costume com a documentação do género que recebe na sua função de presidente da Comissão de Informações da Câmara dos Representantes, o relatório em causa omite o nome das pessoas sob escuta que falaram ao telefone com Donald Trump e os seus servidores de campanha.

O facto censório deu que pensar a Devin Nunes – e faz-nos pensar a todos – sobretudo se tivermos em conta que o documento reconhecendo as escutas «acidentais» foi assinado por quatro pesos pesados da anterior administração: Susan Rice, embaixadora de Obama nas Nações Unidas; Ben Rhodes, conselheiro adjunto de comunicação e, por sinal, subscritor do relatório que fixou a versão oficial dos atentados de 11 de Setembro de 2001, portanto um guru da propaganda; John Brenan, director da CIA; e o super espião James Clapper, chefe dos chefes da confraria das agências de espionagem norte-americanas.

O «acidente» das escutas de um candidato presidencial em plena campanha não é assunto virgem nos Estados Unidos. Em 1972, há 45 anos, espiões ao serviço do presidente e candidato republicano, Richard Nixon, instalaram a parafernália intrusiva possível nessa época para registarem imagens e conversas no edifício Watergate, sede do Partido Democrático e da campanha do candidato presidencial Richard McGovern.

A trama foi desvendada por dois jornalistas do Washington Post, Bob Woodword e Carl Bernstein, graças às denúncias de um informador, conhecido por «garganta funda» e que, 30 anos depois, veio a ser identificado como William Mark Felt, ao tempo subdirector do FBI. Provou-se que Nixon sabia de tudo e, além disso, já como presidente, fez diligências para perturbar as investigações oficiais. Acabou por renunciar a meio do mandato, em 1974. Foi assim o «Caso Watergate».

Quarenta e cinco anos valem uma gota na História. Mas bastam para que se perceba a velocidade a que se degradaram a ética política e o comportamento da comunicação social dominante. O que foi um episódio dramático, com sérios custos para dirigentes do mais poderoso país do mundo, então envolvido também em guerras como a do Vietname, transformou-se hoje num mero «acidente», um fait divers que, no fundo, ninguém leva a sério e chega a ser ridicularizado. Não pode pretender-se, por isso, que dele resultem consequências e sejam retiradas lições capazes de proteger a seriedade da política e a defesa da privacidade dos cidadãos.

Volta Nixon! Demorou um tempinho, mas estás perdoado.

ISRAEL APROVA LEI CONTRA "CONSTRUÇÃO ILEGAL" DOS PALESTINIANOS


O Parlamento israelita aprovou, na semana passada, legislação contra as «construções ilegais» – uma lei que foi alvo de fortes críticas e denunciada como «discriminatória», uma vez que visa atingir as comunidades palestinianas e árabes em Israel.

A «Lei Kaminitz» – assim conhecida porque o vice-procurador-geral Erez Kaminitz é autor do relatório que está na sua base – foi aprovada no Knesset, na semana passada, com 43 votos a favor e 33 contra.

A nova legislação, que aumenta de dois para três anos a pena máxima de prisão para os condenados por construírem sem autorização, eleva o valor das multas e reduz os poderes dos tribunais para adiar a data das ordens de demolição, irá aplicar-se também aos 300 mil palestinianos que residem em Jerusalém Oriental ocupada, segundo informa a PressTV.

O deputado druso israelita Abdullah Abu Ma'aruf acusou Netanyahu de tentar «agradar à direita a qualquer custo e à custa dos árabes», tendo acrescentado que a lei ameaça «50 mil casas árabes em que vivem centenas de milhares de pessoas».

Diversos organismos de defesa dos direitos humanos alertaram que a aprovação da lei irá conduzir a um «aumento drástico» de demolições de casas em terras árabes. Em declarações recolhidas pela PressTV, Moran Aviv, da Sikkuy (Associação para a Promoção da Igualdade Cívica em Israel), sublinhou que «reduzir a participação dos tribunais e tomar medidas administrativas conduzirá a uma situação em que os residentes não têm meios de apelar para a assistência jurídica».

Lei apoiada pelo governo de Netanyahu

O Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente (MPPM) indica que a lei é patrocinada pelo Ministério israelita da Justiça, dirigido por Ayelet Shaked (do partido de extrema-direita ultranacionalista Lar Judaico).

Embora não se afirme de forma explícita que a população palestiniana de Israel é a visada, na prática a lei «irá afectar de forma desproporcionada as comunidades palestinianas» em Israel. Nestas comunidades, o planeamento e o licenciamento da construção podem levar décadas, sublinha o MPPM, não deixando aos moradores outra opção que não seja construir ilegalmente.

Dados da organização palestiniana Adalah referem que a população palestiniana residente em Israel necessita de 13 mil novos fogos por ano, e que apenas são construídos 7000. O fenómeno da construção «ilegal» nas comunidades árabes é «generalizado», porque o governo israelita não autoriza um número suficiente de licenças de construção, e isso, salienta a Adalah, resulta «de uma política sistemática e deliberada desde 1948 que vê os cidadãos palestinianos como inimigos e estrangeiros».

Com a tomada de posse de Donald Trump, presidente dos EUA, em Janeiro deste ano, o governo de Telavive acelerou a espoliação de terras e a construção de colonatos nos territórios palestinianos ocupados.

Desde a ocupação dos territórios palestinianos, em 1967, as forças israelitas já demoliram mais de 48 mil casas e outros edifícios palestinianos, de acordo com os dados divulgados pelo Comité Israelita Contra a Demolição de Casas.

AbrilAbril

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LEIS E JUÍZES FASCISTAS NA JUSTIÇA, É POSSÍVEL. CAVACO FOI PIDE E DEPOIS PM E PR



Os fascistas ainda andam por aí. E hão-de andar. Pior é se ocupam cargos que podem influir nas decisões de setores importantes da sociedade, da justiça, do parlamentarismo, do legislativo, da democracia. E isso acontece. Há leis fascistas que ainda estão em vigor. Acontece em Espanha, em Portugal, por esse mundo fora. Em regimes que falsamente se arrogam de democráticos (ma non tropo).

Tanto assim acontece que Nuno Ramos de Almeida, no jornal i, trás à baila o exemplo de Espanha, de um juiz em Espanha que considera vítima um carniceiro franquista, um assassino de mãos dadas com o fascista e ditador Franco. Pelo visto o juiz sentiu na pele a democratização (assim-assim) do regime espanhol, e vai daí condena a prisão uma jovem espanhola por sentir gáudio por num atentado da ETA no período franquista o general - de estimação do ditador - Carrero Blanco ter sido posto a “voar” dentro da sua viatura através de uma explosão perpetrada pela ETA. Estava então Espanha em absoluto regime franco-fascista. Regime que perdurava devido a Franco estar rodeado de generais e outros que eram acirradamente fascistas, lamentavelmente torcionários, assassinos. Eis a justiça naquilo a que chamam democracia. Considerar vítima um general fascista que foi cúmplice no assassinato de milhares de espanhóis. Esses sim, vítimas de fascistas como Carrero Blanco.

Não julguemos que tal só pode acontecer fora das fronteiras de Portugal, como em Espanha. Tal pode muito bem acontecer neste país de uns poucos que controlam e exploram milhões de portugueses – a exemplo das elites pelo resto do mundo. Aliás, se assim não fosse nunca teria sido possível Portugal ter por presidente da República um colaboragor da polícia política fascista conhecida por PIDE, depois DGS. E foi, foi possível, Cavaço Silva. E então qual a impossibilidade de no setor da justiça, em Portugal, ainda existirem juízes arraçados de Salazar, que um dia condenem alguém que no Tweeter ou no Facebook façam gáudio ou humor negro pela queda da cadeira de Salazar, que felizmente o levou à morte – se é que o malvado não estaria já morto como ser humano e só a sua carcaça de ditador fascista permanece-se movível dando a perspetiva errada de que estava vivo. Salazar, ser humano? Apesar das torturas e dos assassinatos que tem no cardápio? Em "continuar a ler" saberá mais. (MM / PG)

Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco!

Nuno Ramos de Almeida – jornal i, opinião

A ETA entregou as armas no sábado e um tribunal espanhol condenou a um ano de prisão uma jovem estudante por gozar com a morte de um carrasco franquista. A história tem contas por fazer

Recentemente, um jornal português escreveu a seguinte notícia:

“Em Espanha, utilizar o Twitter para escrever humor negro sobre terrorismo nas redes sociais dá pena de prisão. Um tribunal espanhol condenou uma mulher a uma sentença de um ano por publicar piadas na rede social Twitter sobre o assassinato do político espanhol Luis Carrero Blanco em 1973, altura em que ocupava o cargo de primeiro-ministro, durante a fase final da ditadura.

Na decisão, lida esta quarta-feira, a estudante espanhola Cassandra Vera, 21 anos, foi acusada de ‘glorificação do terrorismo’ por 13 mensagens publicadas na rede social entre 2013 e 2016 a falar da morte de Carrero Blanco, num atentado bombista da ETA. ‘Filme: Três metros sobre o céu/ Produção: Filmes ETA/ Diretor: Argala [membro da organização terrorista ETA]/ Protagonista: Carrero Blanco/ Género: Viagem espacial’ é um dos exemplos, referidos pelo tribunal, numa lista tornada pública por Vera. (…) As autoridades espanholas consideram (…) que as frases, acompanhadas frequentemente por imagens, ‘reforçavam um caráter de descrédito, gozo e escárnio a uma vítima de terrorismo’. Para o tribunal não é lógico oferecer uma pena mais leve pelo facto de o atentado da ETA (…) ter ocorrido há mais de 40 anos. ‘A cicatriz do atentado persiste, mesmo que com menos intensidade, e as vítimas de terrorismo continuam a ser uma realidade inquestionável que merece respeito e consideração, independentemente da altura’, lê-se no comunicado do tribunal sobre a decisão.”

“Arriba Franco, más alto que Carrero Blanco” era a frase que os antifascistas espanhóis faziam soar e pintavam nas paredes depois da execução do almirante Carrero Blanco, primeiro-ministro e chefe dos serviços secretos, por um comando da ETA Militar. Esta sentença descrita numa notícia é uma profissão de fé na ditadura franquista. O homem que mandava torturar e executar antifascistas com um garrote passa a vítima do terrorismo merecedora de respeito. Quem ironiza com os ditadores e os seus carrascos de fila é condenado em tribunal pela mesma justiça que expulsou o juiz Baltazar Garzón por pretender julgar os crimes do franquismo. Não assistimos apenas ao impedir que se conheça e castigue os autores que levaram à morte, apoiados por tropas nazis alemãs e fascistas italianas, de centenas de milhares de pessoas na guerra civil, instaurando uma ditadura que torturava e executava os seus opositores; condenamos aqueles que, com perigo da sua própria vida, executavam os carrascos. O fantástico no relato desta notícia não é só o descrito, mas é sobretudo como se descreve. A jornalista portuguesa, que em nenhum momento tenta perceber quem era o angélico Carrero Blanco, vê-se compelida a explicar com parênteses retos [quando nós, jornalistas, fazemos entrar qualquer coisa num texto como se fosse um comentário ou acrescento de quem escreve] que Argala, membro do comando da ETA Militar, era um “terrorista da ETA”. A soma destes dois factos, o comportamento da justiça de Madrid e a forma como o senso comum jornalístico trata o acontecido a 20 de dezembro de 1973, quando o comando Txikia [nome de um dirigente da ETA assassinado a tiro pela polícia] fez voar o carro blindado do almirante Carrero Blanco, mostra que quem ganhou a guerra e continua a mandar são os herdeiros putativos, travestidos em democratas, do franquismo.

Mesmo a causa basca, com os seus momentos de heroísmo e tragédia e a sua viagem pelos infernos, está hoje submergida na propaganda dos vencedores da guerra civil. O massacre dos bascos pelas tropas franquistas e a destruição da sua liberdade antecedem o nascimento da ETA. E se é verdade que esta organização continua a matar depois da “transição para a democracia”, negociada com os franquistas, é-o ainda mais que nenhuma das questões anteriores à ETA, as suas balas e bombas, foi resolvida. Nem os franquistas foram condenados, nem as instituições que vieram do regime foram dissolvidas, nem mesmo se permite aos bascos decidir livremente o seu futuro. O ano passado assinalaram-se 40 anos do massacre de Vitória. Junto ao sítio onde caíram os corpos em sangue dos operários bascos em greve há um conjunto de cruzes. Apareceram pintadas com símbolos franquistas. Não consta que os tribunais espanhóis se tenham indignado, e a polícia apanhado os autores deste crime. Este sábado, a ETA entregou as armas. O texto antigo que se segue é sobre o que está por detrás das armas.

Era uma vez um fracasso. Falo de uma revista com o nome de “Pott”, que quer dizer, mais uma vez, fracasso, em euskera (basco).

Vivia-se o início da segunda metade da década de 70. Na Europa ocidental e civilizada eram os “anos de chumbo” (uma espécie de ressaca dos “68” de todas as promessas); no Estado espanhol, a transição do franquismo ainda não se dera. Ainda soava nos ares a voz do cantor catalão Lluis Llach, que assinalava a sangrenta repressão junto à igreja de São Francisco de Assis, em Gazteiz (Vitória), a 3 de março de 1976:

“Campanades a morts
fan un crit per la guerra
dels tres fills que han perdut
les tres campanes negres”

No chão, junto à igreja do bairro operário, ficaram tombados cinco mortos (os três da canção e mais dois baleados) e mais de 150 feridos. Os cinco mil operários, reunidos na igreja, tinham sido expulsos do templo a tiros de gás lacrimogéneo. À saída, a polícia franquista tinha-os fuzilado à queima-roupa. Nas ruas cinzentas de Bilbau, alguns jovens tateavam um novo caminho. Tomar os céus de assalto tinha, por enquanto, falhado. Seria possível, pelo menos, mudar a “terra dos que falam basco” (Eukal Herria), salvar a língua e construir uma comunidade imaginada. Três deles simbolizam, muitas décadas depois, os diferentes caminhos da revista “Pott” (como fracasso). Fixemos os nomes: Jon Juaristi, José Irazu Garmendia (Bernardo Atxaga) e Joseba Sarrionandia. Na altura da fundação da revista apenas ultrapassavam os 20 anos e, como se sabe, nessa idade tudo é possível . Na senda do poeta e comunista Gabriel Aresti, falecido prematuramente aos 42 anos, queriam, nas palavras de Atxaga, “escrever numa língua estranha que nunca pisou os jardins da corte”.

Como gritava nas letras Gabriel Aresti, num dos mais célebres poemas bascos da época:

“Tirar-me-ão as armas, e, com as minhas mãos,
eu defenderei a casa do meu pai;
Cortar-me-ão as mãos e, com os meus braços,
eu defenderei a casa do meu pai;
Deixar-me-ão sem braços, sem peito e, com a minha alma,
eu defenderei a casa do meu pai;
Eu morrerei
a minha alma perder-se-á
a minha linhagem perder-se-á,
mas a casa do meu pai
continuará
de pé”

Décadas depois, a “Pott” é uma memória, mas o fracasso perdura. Vejamos os caminhos que levam cada um dos três bascos aos territórios que ocupam. Jon Juaristi converteu-se no intelectual de serviço na denúncia do nacionalismo como identidade assassina. Viveu anos sob a ameaça da ETA Militar, dá entrevistas em sítios secretos e seguros.

Nos seus livros, como “El bucle melancólico”, denuncia histórias escutadas e repetidas na sua juventude: “Muitos bascos da minha geração estiveram expostos aos significantes deletérios deste tipo de histórias – narrações sacrificiais de amor e imolação, de heroísmo e de culpa, de traições e de derrotas” e, acrescenta Juaristi, “porque o nacionalismo basco só sabe uma coisa (…) mas sabe-o muito bem: é necessário perder para ganhar, manter vivos os agravos para que o sacrifício das várias gerações se mantenha politicamente rentável.” Por sua vez, Bernardo Atxaga transformou-se no mais conhecido escritor basco, “Obabakoak”, “El hombre solo” e “Lista de locos” são alguns dos seus livros. Politicamente apoiou, em tempos, a Esquerda Unida (comunistas).

Num pequeno texto do livro “Nueva Etiopía”, Atxaga relata um diálogo com um amigo historiador mantido enquanto estavam parados nos engarrafamentos de Bilbau. O escritor diz ao companheiro de viagem que encontrou um armazém de livros invendáveis, uma espécie de “cemitério de ilusões”. Aqui se encontrariam obras de Mao, Marx, Lenine e Trotski e memórias de mulheres libertadas e revolucionárias.

“Os mesmos livros que há 15 ou 20 anos circulavam entre a juventude inquieta com desejos de mudar a realidade; os mil textos, tantas vezes citados e comentados, que tanto haviam influenciado a vida (…). Não tinha sido preso um companheiro de turma por ter as obras de Mao? Não tinha ido para o campo um grupo de estudantes da nossa faculdade, para trabalhar com os assalariados rurais, porque tinham lido Kropotkin? Por outras palavras, os livros que víamos mortos naquele armazém haviam sido mais do que um monte de páginas: representavam os desejos de muita gente, a sua rebeldia e a sua luta. E agora estavam abandonados naquele armazém perdido da periferia.”

O amigo responde-lhe que “seria reacionário recusar a possibilidade de transformar uma realidade que, a todas as luzes, continua a ser indesejável. Porém, recusar um erro, uma simplificação, um ponto de partida falso não pode ter nada de reacionário”. Há livros enterrados que esperam ser redescobertos.

O vértice desta bifurcação em que participam Juaristi e Atxaga é Sarri (aliás, Joseba Sarrionandia), que é preso em 1980, acusado de ser membro da ETA Militar, e condenado a 28 anos de prisão. A 7 de julho de 1985 escapa da cadeia de Matutene, escondido numa aparelhagem sonora que tinha sido utilizada para dar um concerto no estabelecimento prisional. Desde então, este homem, que traduziu Pessoa e Jorge de Sena para euskera, continua fugido. Como por encantamento, todos os anos aparecem livros seus. O lugar onde se encontra permanece secreto; pistas, talvez, só a letra, em português, do fado que mandou ao cantor Mikel Laboa:

“Não és tu faculdade de sentir um espaço/ Terminado por linhas ou superfícies/ E não obstante chove sobre ti na cidade”

Há um poema seu que ilustra bem – provavelmente sem ser essa a intenção do seu autor – a situação de fracasso daqueles que resistem nas suas convicções sem conseguirem fugir a uma lógica perversa, admiravelmente enredados, para além de toda a coerência. Talvez esta seja a conclusão possível desta primeira história.

“El viagero se aventura a través del labirinto aunque apenas sí recuerda cuándo ni por dónde entró.

Supone que el camino ha de ser un laberinto Pues advina en lo nuevo reflejos del ayer. Mas no son reflejos amables, son vástagos del miedo Pues le revelam que cae, que se derrumba hacia el centro.

Pero hay un centro acaso?

No cae hacia los bordes?”

ATENTADOS, GUERRA E INSEGURANÇA, MAS PORQUÊ?



Expresso Curto, por Martim Silva, que está deveras preocupado, como todos nós. Abre ele a cafeína de hoje com atentados, guerra, insegurança… E o mais que vier. Nada de bom. Só desgraças. Pois é, as pessoas estão mesmo revoltadas e fanatizam-se na violência. Pagam da mesma moeda. As sociedades refletem os seus líderes. Lideres de merda produzem sociedades de merda. Economias de casino produzem batoteiros. Desrespeito pelos direitos humanos e outros direitos básicos das sociedades produzem revoltas, ódios, xenofobias, racismos. E assim sucessivamente. E o mal é global. A continuar assim vai desembocar em a humanidade andar toda à porrada. Pagam os que estão mais perto e mais acessíveis, os povos. Os lideres, aqueles líderes de trampa, estão longe, inacessíveis, com segurança armada até aos dentes, protegida dos que lhes querem chegar a roupa ao pêlo mas não conseguem. E depois, mesmo que conseguissem chegar a um ou outro dos que engrossam o grupo dos líderes de merda essa não seria a solução. Há sempre aqueles que estão dispostos a substitui-los e por vezes ainda são mais merdosos. Estamos tramados, estamos feitos. O Martim Silva, preocupado, pode deixar este stresse e fazer o melhor que pode (se é que não faz) quando vota. Votar em quem? Perguntará. Perguntarão. Pois. Isso é que é um grande problema. É que estes líderes que são eleitos não cheiram a merda porque se encharcam em perfumes para nos enganarem. Olhem, votem na paz, na justiça, na democracia de facto, nos direitos inalienáveis que são intrínsecos ao bem-estar das populações, à abolição da exploração de uns quantos homens(?) a milhões de homens, mulheres e crianças… Enfim, na ganância é que não. E então como é que isso se faz? Como se consegue tal proeza? Pois. Não sabemos. Ou será que até sabemos mas que temos medo? Ah, pois. Em Portugal, no 25 de Abril de 1974, eles até se borraram todos… Mas agora já estão aí todos, e os filhos, e os primos, e outros que tais. Então, sabemos ou não sabemos como é que isso se faz? Pois.

Vá, sigam para o Curto e coisas úteis entre “conversas” da treta com recheios Bilderberg. Bom dia tio Balsemão, como vai hoje essa sua peculiar ganância?  Como de costume? Pois, já se sabe. Saúdinha… (MM / PG)

 Bom dia, este é o seu Expresso Curto 

Martim Silva | Expresso

Atentados, guerra e insegurança. Onde estão as 'linhas vermelhas'?

Bom dia,
bem sei que dizer isto, que repisar nesta tecla, começa infelizmente a parecer banal.

Mas onde é que isto vai parar? 

Egito, depois de Estocolmo, depois de São Petersburgo, depois de Londres, depois de Berlim, depois de Nice, depois de Paris, depois de, depois de, depois de... e o terror continua a cercar-nos.

Não se pode fazer rebut? Desligar e voltar a ligar?

Ontem, dois atentados em duas igrejas coptas no Egito fizeram 44 mortos e mais de 100 feridos. Os ataques já foram reivindicados pelo Estado Islâmico. O governo já declarou três meses de estado de emergência no país. Aqui pode perceber um pouco melhor o que são os cristãos coptas e como têm sido um dos alvos preferidos do EI.

As imagens em que se pode ver o terrorista a fazer-se explodir à entrada de uma das igrejas são particularmente impressionantes. Atenção agora para a visita do Papa ao Egito, daqui a vinte dias (Papa que virá depois a Portugal para o 13 de maio).

Ontem mesmo, mas com menos atenção mediática, outro sangrento atentado ocorreu na Somália.

No sábado, na capa do Expresso colocámos a expressão “Linha Vermelha da Guerra”, a propósito da escalada de violência depois do ataque com armas químicas na Síria e a resposta da Administração Trump com um ataque com mísseis a uma base militar do regime sírio de Bashar al Assad. Agora, são os aliados da Síria - Rússia, Irão e Hezbollah - a ameaçar com uma resposta musculada caso os americanos voltem a passar a linha vermelha.

Ao mesmo tempo, os EUA tentam forçar Putin a retirar o apoio ao “regime criminoso” de Assad. Este pode ser um sinal muito importante, com os norte-americanos a mostrarem que com o raide de sexta-feira podem estar a querer forçar os russos a uma mudança de política na Síria. Aqui se explica o que pode ser a estratégia dos EUA de Trump nos próximos tempos.

Neste trabalho do NYT, podemos perceber quem estava ao lado de Trump durante o ataque aéreo à Síria. Who was in the room?

Noutra frente, os EUA fazem uma demonstração de poderio militar naval para impressionar a Coreia do Norte.

Na Suécia, ainda a chorar as vítimas do atentado de sexta-feira em Estocolmo, já se debate o endurecimento das leis anti-terrorismo.

No meio disto tudo, e como se não bastasse, começam a chegar as primeiras críticas consistentes à atuação de António Guterres como líder das Nações Unidas. Uma responsável da Amnistia Internacional fala em “inação”. O tema merece foto de capa do Público de hoje, que afirma que Guterres chega ao fim dos primeiros 100 dias de mandato “sem estado de graça”.

Tudo isto visto e somado, vai ser essencial nos próximos tempos - e quando parece adquirido que os ataques terroristas feitos por lobos solitários sem grande preparação ou logística não devem ficar por aqui - perceber se o que se passou nos últimos dias marca ou não um antes e depois no conflito na Síria, que se arrasta há sete anos.

Termino este capítulo com uma nota interessante. Aqui chegado, pode ser levado a considerar que o terrorismo está mais sangrento que nunca. Pois, isso não é verdade. É certo que o clima de medo e insegurança existe, e todos o sentimos. Mas os números mostram que na Europa nunca foi tão baixo o número de vítimas. É verdade, a geração dos nossos país sofreu mais. Fica a nota de otimismo, ou pelo menos de não-pessimismo.

OUTRAS NOTÍCIAS

Cá dentro,
Já regressados a Portugal, os jovens finalistas do liceu que deram cabo de um hotel e foram expulsos em Espanha dão hoje uma conferência de imprensa. Segundo a descrição no El Pais, o hotel de Torremolinos nunca tinha assistido a nada igual. O tema tem sido alvo de debate por cá, e deve continuar a sê-lo nos próximos dias.

Muito crítico, uma vez mais, o discurso de Passos Coelho sobre a geringonça, aproveitando as divisões entre os três partidos da esquerda sobre os problemas da banca nacional.

Do outro lado da barricada, Jerónimo de Sousa considerou que a discussão do próximo OE é decisiva e, por outro lado, rejeitou uma renegociação do acordo da geringonça. Sinais políticos importantes para irem sendo lidos.

Quem anda por Cabo Verde, a distribuir otimismo e afetos, é o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

De vento em popa parece o mercado imobiliário, com a venda de casas de luxo a preparar-se para bater novo recorde este ano.

Desvios no plano da Caixa podem obrigar o banco a fazer mais cortes, afirma hoje o Negócios, garantindo que as autoridades europeias vão vigiar de perto o rumo do banco agora liderado por Paulo Macedo.

Roubar, enganar, dissimular é sempre censurável. Mas por vezes assume contornos ainda mais chocantes. Seja pelo montante, seja, como neste caso, pela inacreditável capacidade de abusar: num centro de saúde alentejano foi montado um esquema para as equipas médicas ganharem mais dinheiro. Como? Inventando consultas a… mortos!!!

Lá fora,
Morreu Carmen Chacon, aos 46 anos, por problemas cardíacos. uma das mais destacadas figuras do PSOE, a sua imagem fica para a história como a primeira mulher ministra da Defesa em Espanha (quem não se lembra das revistas às tropas quando estava grávida ou da visita aos militares no Iraque aos sete meses de gravidez?). Aqui pode ler um perfil completo de Carmen.

Em França, está a aproximar-se a data das eleições presidenciais e o clima aquece. Um comício de Marine Le Pen na Córsega terminou em violência, com militantes e seguranças da candidata de extrema-direita a envolverem-se com protestantes anti-Le Pen.

Nos EUA, de que já falámos aqui, continuam as mexida na cúpula da Administração, com mais uma saída anunciada do NSC (o poderoso Conselho Nacional de Segurança), depois de na semana passada ter sido o conselheiro e ideólogo de Trump, Steve Bannon, a ser afastado do organismo pelo general McMaster.

Continuam os protestos na Venezuela contra o regime de Nicolas Maduro.

As autoridades da África do Sul decidiram autorizar a comercialização de cornos de rinoceronte.

Esta imagem de uma mulher sorridente a enfrentar um manifestante de extrema-direita em Inglaterra tornou-se viral.

O fenómeno das redes sociais é dos que mais atenção deve merecer a quem se interessa por grandes tendências da humanidade e o seu significado. Este artigo do El Mundo pergunta porque usamos as redes sociais como ‘divã emocional’?

DESPORTO

O Casaco Verde do vencedor do Masters de Augusta de golfe já tem dono este ano, o espanhol Sergio Garcia. Que assim se torna no terceiro espanhol a vencer a prova.

O Benfica manteve a liderança do campeonato nacional depois de um muito sofrido triunfo em Moreira de Cónegos por um a zero. Mas, se bem conheço o nosso país, do que se vai falar mesmo nos próximos dias é da agressão (evidente, e sem castigo do árbitro) do grego Samaris a um adversário. Aposta?

O Canelas voltou a jogar depois do polémico jogo da última semana, e perdeu na Maia. Nunca uma partida da distrital terá tido tanta atenção e adeptos.

O jovem Miguel Oliveira vai subindo degraus e fazendo história no mundial de motociclismo, tendo ontem, depois de partir na pole position, conseguido o seu primeiro pódio da carreira.

EUA, México e Canadá parecem estar a um passo de apresentar uma candidatura conjunta ao Mundial de Futebol de 2026.

NÚMEROS

9,7
Quase dez milhões de euros era o valor da dívida do empresário Nuno Vasconcellos, da Ongoing, ao BCP. Mas quando o banco tentou recuperar o valor percebeu que em seu nome só estava… uma mota de água.

2
O défice do ano passado não vai ser de 2,1% do PIB, como foi muito noticiado recentemente, mas de 2,0%. Quem o garante? Marques Mendes, ontem, na SIC.

975
Quase mil euros é quanto custou a Caixa Geral de Depósitos a cada português afirma o CM.

O QUE ANDO A LER

Na última semana, andei com o volumoso "Relatório de Combate", de Alberto João Jardim, entre mãos. Tratam-se das memórias políticas do homem que durante quase quatro décadas mandou no PSD Madeira e no Governo do arquipélago. O livro vale pelas histórias de Jardim com os protagonistas destas décadas, de Cunhal a Sá Carneiro, de Cavaco a Soares e Sampaio e Durão, entre outros, que são peças do puzzle que é a nossa história política recente. Como obra literária é menos que sofrível, mantendo o estilo truculento a que Jardim nos habituou como político. O próprio título da obra, que é esta semana posta à venda, não engana. Aliás, antes mesmo do livro propriamente dito começar, na página dos agradecimentos, Jardim começa logo a 'distribuir pancada'. As 800 e tal páginas seguintes são sempre a abrir...

Para arejar da biografia de Jardim, estive a ler (ou melhor, a reler) um daqueles escritores a que sabe tão mas tão bem voltar. Eça. Eça de Queiroz. "O Primo Basílio". Provavelmente, como eu, o leitor desta newsletter já leu o livro. É uma das obras centrais do mais importante romancista da literatura nacional. O que fiz foi tirá-lo da estante, desempoeirá-lo, e depois deixar-me levar pelas aventuras de Jorge, Luiza, Basílio e o conselheiro Acácio, entre outros. Experimente fazer o mesmo.

Já está. Esta newsletter chega ao fim. Obrigado, caro leitor do Expresso. É por si que cá estamos. Volte, volte sempre. Tenha uma grande semana.

PORQUE OS PARAÍSOS FISCAIS NÃO SÃO INVENCÍVEIS


Um ano após o escândalo dos Panamá Papers, surgem propostas concretas para impedir que as megacorporações e os super-ricos continuem praticando sonegação internacional sistemática. Haverá vontade política?

Grazielle David, do Inesc | Outras Palavras

Para marcar o primeiro aniversário do Panamá Papers, escândalo relacionado com paraísos fiscais, organizações e movimentos do mundo todo articuladas por meio da Campanha Multinacionais paguem o justo organizaram nesta semana uma ação global pelo fim dos paraísos fiscais.

Um paraíso fiscal é um país ou território que tem sigilo bancário quase absoluto, baixa ou nenhuma tributação e que permite que corporações e pessoas muito ricas se utilizem de artifícios como elisão e evasão fiscal para pagarem menos impostos, por meio da transferência de renda ou ativos de um determinado país para o paraíso fiscal.

A elisão fiscal, apesar de não ser ilegal, é imoral. Ocorre por meio de um planejamento tributário agressivo, fazendo uso de brechas nas leis para dar vantagens indevidas às empresas, com o apoio de consultorias, especialmente de escritórios de Direito Tributário, que costumam cobrar grandes valores pela assessoria. Já a evasão ou sonegação fiscal é crime e consiste em realizar procedimentos que violam a lei ou um regulamento tributário com o objetivo de suprimir ou reduzir tributos.

Os paraísos fiscais são hoje um dos principais instrumentos para que corporações multinacionais e os super-ricos evitem e soneguem parte do que devem em tributos. Isso resulta em menos recursos para os países onde esses tributos deixam de ser pagos. Com o orçamento reduzido devido à sonegação e evasão fiscais, os países ficam limitados em sua capacidade de financiamento de políticas e serviços públicos essenciais, que promovem direitos e cidadania.

Cada Real perdido para um paraíso fiscal é um Real que poderia ter sido investido para garantir direitos, como construir e manter unidades de saúde e escolas, garantir moradia e transporte público acessível, fazer o saneamento básico das cidades, entre outras medidas. As receitas perdidas para os paraísos fiscais estão aprofundando a pobreza e aumentando as desigualdades pelo mundo. A Tax Justice Network estima que entre U$ 21 trilhões e US$ 32 trilhões estão escondidos em contas de paraísos fiscais, sendo que a maior parte desse dinheiro nunca foi taxada.

É por isso que é tão importante chamar a atenção dos governantes pelo mundo para que atuem pelo fim dos paraísos fiscais e façam com que as corporações multinacionais e os super-ricos paguem o que devem, o justo.

Quanto maior a sonegação fiscal, maior é a carga tributária de um país, para compensar as receitas perdidas. Em países com uma carga tributária regressiva, como é o caso do Brasil, onde mais da metade da arrecadação é feita por meio da tributação do consumo em vez da renda e patrimônio, o resultado é um peso cada vez maior sobre a classe média e os pobres, enquanto grandes empresas e os milionários têm maiores facilidades. Isso inverte completamente a lógica do princípio de capacidade de contribuição e isonomia que deveria reger qualquer sistema tributário. Se todos contribuíssem, não sonegando e melhor distribuindo a carga tributária, esta poderia ser inclusive mais leve para a classe média e os pobres.

Historicamente, os mais ricos não contribuíram – e continuam não querendo contribuir – com a construção de um orçamento público adequado e justo, que promova a redução da pobreza e das desigualdades. Em um cenário de crise econômica como a que o Brasil vive no momento, é insustentável a manutenção dessa injustiça fiscal. Está mais do que na hora de as grandes corporações e os super-ricos pagarem seus tributos de maneira justa, contribuindo assim para o financiamento da infraestrutura pública, a garantia de direitos e a construção de uma sociedade mais justa e solidária.

Para conseguir fazer uso dos paraísos fiscais, as corporações multinacionais e os super-ricos, em parceria com advogados tributaristas, contadores, banqueiros, lobistas, montaram um esquema internacional sofisticado para reduzir os tributos devidos sobre seu lucro, renda e fortuna. Apesar de não quererem pagar tributos, as corporações e super-ricos são completamente dependentes da infraestrutura e das instituições públicas. Por exemplo, fazem uso das rodovias, portos e aeroportos construídos pelo Estado; e dependem dos trabalhadores que recebem educação pública como mão de obra que produz riqueza para eles.

O atual sistema de elisão e evasão fiscal faz a riqueza de um país fluir do fundo público para o privado, sendo então escondida em paraísos fiscais. Isso promove uma grande distorção na economia, enfraquece a democracia e priva as pessoas de terem seus direitos adequadamente financiados por meio de políticas e serviços públicos tão essenciais a uma existência com dignidade.

Paraísos fiscais prejudicam direitos humanos e ODS

Todos os países têm obrigação de respeitar os direitos humanos, que incluem os civis e os sociais, e para isso devem investir o máximo de recursos disponíveis. Entretanto, a prática de elisão e sonegação fiscal, e o uso dos paraísos fiscais, reduzem significativamente os recursos financeiros disponíveis dos países, inviabilizando o adequado financiamento dos direitos e retirando a dignidade na existência das pessoas. A ONU e diversos especialistas em direitos humanos defendem que políticas e legislações fiscais e tributárias que permitem elisão e sonegação fiscal estão em desacordo com as obrigações que os países assumiram nos tratados de direitos humanos.

Os países se comprometeram a reduzir a pobreza e as desigualdades até 2030 os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Para isso, é essencial que exista um financiamento adequado, e os países devem levantar progressivamente mais receitas internas. A ONU estima que irá custar U$ 1 trilhão por ano para alcançar os Objetivos nos países de baixa e média renda. Porém, de onde virá esse dinheiro? É essencial que grandes corporações e super-ricos paguem sua parte devida e justa de tributos nos países em que operam, e que os governantes usem esses recursos para financiar as políticas e serviços públicos que promovem os direitos humanos para alcançar os ODS.

Mulheres pagam o preço mais alto

Quando as políticas e serviços públicos não são adequadamente financiados e executados, são as mulheres que mais sofrem, especialmente as mulheres negras. Isso ocorre porque as mulheres dependem mais dos direitos garantidos por meio dessas políticas públicas, uma vez que são elas que gastam 2,5 mais tempo que os homens executando trabalhos não remunerados como os de cuidado com a casa, com crianças, com idosos e doentes. Nos países em que não há orçamento público suficiente para financiar serviços públicos essenciais que garantem os direitos à saúde, educação, creche, é bem mais frequente que sejam as mulheres que assumam essa responsabilidade, reduzindo seu tempo de estudo, de trabalho remunerado e de descanso. O que muitos insistem em ignorar é que esse trabalho não remunerado, porém essencial, das mulheres tem subsidiado a economia dos países, e deve ter um retorno por meio da garantia de seus direitos.

Como mudar esse cenário de crime contra a humanidade?

Vamos construir um momento público e político pelo Fim dos Paraísos Fiscal, solicitando que nossos governantes adotem as seguintes medidas:

1. Exigir relatórios públicos país-por-país de todas as corporações multinacionais. Esta seria uma medida importante para evitar a evasão fiscal em grande escala realizada por empresas multinacionais – como foi revelado por exemplo pelo escândalo LuxLeaks. Esses relatórios permitiriam que a sociedade pudesse ver onde cada empresa está fazendo negócio e quanto ela paga de tributos em cada país onde atua. Isso tornaria mais difícil para as empresas multinacionais burlarem a tributação dos países onde atuam. Alguns documentos ajudam a entender essa questão:

10 razões para adotar os relatórios país-por-país e Nota sobre a necessidade do relatório país-por-país.

2. Estabelecer registros públicos sobre quem são os verdadeiros donos ou os beneficiários finais dos trusts e empresas. Esta seria uma resposta aos problemas revelados por exemplo nos escândalos Panamá Papers, Bahamas Leaks e Lavanderia global. Esses registros públicos permitiriam que a sociedade pudesse ver quem realmente detém os trusts e as empresas que operam em nossos países. Isso tornaria mais difícil para os sonegadores de impostos e outros criminosos esconderem suas fortunas em fundos corporativos e empresas de fachada nos paraísos fiscais. Esses registros já foram introduzidos no Reino Unido e Eslováquia, e em breve serão uma realidade na Dinamarca e Eslovênia, por exemplo.

3. Apoiar o estabelecimento de um Organismo Intergovernamental sobre Sistema de Tributos na ONU, onde todos os países teriam igualdade de opinião e voto na definição de normas fiscais internacionais. Os paraísos fiscais são um problema global, o que requer uma solução global, esse organismo na ONU seria o fórum essencial de negociação fiscal e tributária para os governos, da mesma forma que o fórum de negociações climáticas da ONU é o espaço essencial para o combate às alterações climáticas. Hoje, no entanto, as normas gerais sobre impostos e transparência são estabelecidas, habitualmente de forma não transparente, por organismos como o G20 e a OCDE – também conhecidos como o Clube dos ‘países ricos’. Enquanto isso, todos os demais, que sofrem diversas consequências advindas das normas tributárias internacionais defasadas, não têm direito de voz e voto nesses espaços. Veja esse relatório sobre porque precisamos de um organismo intergovernamental na ONU sobre tributos e esse de Perguntas e Respostas sobre as questões mais frequentes a respeito desse tema.

4. Utilizar as receitas tributárias para financiar os serviços públicos e as proteções sociais com o objetivo de acabar com a pobreza e reduzir as desigualdades. Os governos devem se comprometer a assegurar que essas novas receitas obtidas serão utilizadas para a garantia de direitos.

5. Proteger os denunciantes que expõem globalmente esses crimes tributários internacionais. Os Panama Papers e os Luxemburgo Leaks só vieram a público graças aos denunciantes que agiram em prol do interesse público para promover justiça e revelaram essas sonegações fiscais em grande escala. Hoje, denunciantes não são protegidos contra processos e correm o risco de enfrentar severas sanções. Este foi, por exemplo, o caso dos denunciantes do Lux Leaks, que foram recentemente condenado pelo Tribunal do Luxemburgo.

Sumário dos escândalos tributários internacionais

> O escândalo da Lavanderia Global

Quando: Março de 2017

O que: Entre 2011 e 2014, mais de US $ 20 bilhões da Rússia foram lavados através de mais de 5000 empresas, muitas delas do Reino Unido. O dinheiro acabou em mais de 700 bancos diferentes em 96 países, incluindo vários países da UE.

> Bahamas Leaks

Quando: Setembro de 2016

Milhões de registros vazados de bancos de Jersey e de registros corporativos das Bahamas revelaram como mais de 175.000 empresas das Bahamas e contas bancárias secretas estavam sendo usadas por super-ricos, inclusive políticos, para esconder sua riqueza em paraísos fiscais. Contadores bem pagos e alguns dos maiores bancos do mundo estavam ajudando seus clientes milionários a montar essas estruturas desonestas.

> Panamá Papers

Quando: Abril de 2016

Em um comunicado de imprensa global coordenado pela ICIJ (International Consortium of Investigative 
Journalists), https://en.wikipedia.org/wiki/International_Consortium_of_Investigative_Journalists 11 milhões de documentos vazados do escritório de advocacia Mossack Fonseca no Panamá revelaram uma rede global de empresas e contas bancárias ocultas que estavam sendo usados para facilitar a evasão fiscal, suborno, armas, financiamento de fraudes e tráfico de drogas. O vazamento de informações mostrou que alguns dos maiores bancos do mundo estavam envolvidos na criação de estruturas secretas offshore para seus clientes, que incluíram um grande número de celebridades, incluindo 140 políticos de 50 países.

> Swiss Leaks

Quando: Fevereiro de 2015

O que: Um vazamento de informações do banco HSBC na Suíça revelou contas ocultas com ativos no valor de mais de US $ 100 bilhões, com links para quase todos os países do mundo. Os clientes incluíam indivíduos ligados ao tráfico de armas, suborno, diamantes de sangue, bem como políticos atuais e antigos de todo o mundo. O vazamento mostrou que o banco mantinha os clientes tranquilos de que nenhuma informação seria fornecida às administrações tributárias dos países, mesmo nos casos em que evidências sugerissem que os ativos estavam vinculados à evasão fiscal.

> Luxemburgo Leaks

Quando: Novembro de 2014

O chamado escândalo Lux Leaks revelou centenas de negócios secretos entre empresas multinacionais e Luxemburgo. Negociados frequentemente por Price Waterhouse Coopers (PwC), eles permitiram que muitas companhias reduzissem seus pagamentos de imposto a níveis muito baixos – em alguns casos, menos de 1% do devido. Empresas envolvidas no escândalo incluíram Pepsi, IKEA, AIG, Deutsche Bank e mais de 300 outras empresas. O escândalo Lux Leaks também se tornou um exemplo famoso da falta de – e necessidade urgente de – proteção dos denunciantes. Em março de 2017, o tribunal luxemburguês determinou que os denunciantes envolvidos na exposição deveriam pagar multas a Luxemburgo e um dos denunciantes, Antoine Deltour, foi condenado a seis meses de prisão.

* Grazielle David, Assessora política do Inesc


Penalizada agente que se ausentou 10 minutos por estar menstruada

Agente foi suspensa durante dois dias por ter ido colocar um penso higiénico enquanto fazia patrulha

REUTERS/DANIEL BECERRIL
Uma agente da guarda civil espanhola está a ser castigada por se ter ausentado do posto porque estava menstruada. A agente sofreu um processo disciplinar e recebeu uma suspensão de dois dias sem salário por ter ido à casa de banho durante 5 ou 10 minutos para colocar um penso higiénico.

O incidente ocorreu a 8 de março, no Dia Internacional da Mulher, segundo o El País. A agente estava de serviço num carro patrulha, a realizar atividades rotineiras e de vigilância na rotunda de uma zona portuária, quando lhe apareceu a menstruação.

A mulher viu-se obrigada a "ir imediatamente a uma casa de banho pôr um penso higiénico para não sujar o uniforme nem o veículo oficial", conforme contou em sua defesa.

A casa de banho era a 300 metros do local e, quando a agente regressou, encontrou o tenente da Guarda Civil junto ao carro. O superior fazia uma ronda de inspeção e repreendeu a agente.

"Não inventes desculpas, vais à casa de banho antes ou depois do ponto de controlo mas não durante", disse o tenente aos gritos, conforme outro polícia que assistiu à cena.


Vais à casa de banho antes ou depois do ponto de controlo mas não durante

A agente pediu para falar com o capitão no mesmo dia para denunciar o comportamento do tenente, mas este recusou, dizendo que ela devia falar com o seu superior hierárquico: o tenente.

Cinco dias depois a agente voltou a tentar apresentar queixa do superior e foi informada mais uma vez de que, para o fazer, tinha de falar primeiro com o tenente. A agente assim o fez e, a 13 de março, disse ao tenente que o iria denunciar aos superiores.

Dois dias depois, a 15 de março, o tenente levantou um processo disciplinar contra a agente alegando que ela "não agiu em conformidade com as ordens recebidas" por se ter ausentado do posto.

A agente pediu, em resposta, que se ative um protocolo contra o assédio laboral na Guarda Civil.

Fonte: DN Mundo