segunda-feira, 26 de outubro de 2026

No âmbito do XXVII Ciclo Teatro Amador do Concelho de Cantanhede Município promove formação sobre “Criação e Presença em Cena”

 
O Multiusos de Febres foi palco, a 17 e 18 de outubro, de uma ação de formação dirigida aos elementos dos diversos grupos de teatro participantes no XXVII Ciclo de Teatro Amador do Concelho de Cantanhede. Promovida pelo Município de Cantanhede e levada a cabo pela Academia de Teatro de Cantanhede (ACA TEA), a ação intitulada “O Teatro é para atores e para não atores / Do Jogo à Cena” foi orientada pelo diretor artístico da Academia de Teatro de Cantanhede, Miguel Matos, e pelo formador Alexandre Santos.
Este workshop teve como objetivo aprofundar o trabalho de criação e de presença em cena, partindo de ferramentas e princípios do chamado “Teatro do Oprimido” de Augusto Boal. Ao longo de dois dias de formação intensiva, os participantes puderam explorar o corpo, a voz, a relação com o outro e com o espaço, procurando transformar experiências, conflitos e situações do quotidiano em matéria teatral.
Através de exercícios práticos, jogos teatrais e improvisação, foi possível experimentar diferentes formas de construir personagens, relações e pequenas cenas, num trabalho que convida à escuta, à disponibilidade, à presença e à capacidade de agir, e reagir, em cena. Mais do que procurar respostas prontas, revelou-se importante experimentar, questionar e criar em conjunto.
O vice-presidente da Câmara Municipal com o pelouro da Cultura, Pedro Cardoso, realçou a importância da formação para o desenvolvimento de competências e capacidades, no âmbito das artes cénicas, para melhores performances, sendo este “um pilar fundamental para a inovação e crescimento dos grupos, numa permanente melhoria conjunta”.
“O plano de formação teatral do Ciclo de Teatro Amador do Concelho de Cantanhede continua a ser uma aposta contínua do Município e consubstancia o seu empenho e compromisso em proporcionar oportunidades formativas de desenvolvimento para o imenso potencial humano presente nos vários grupos de teatro do concelho, num contexto progressivo, estruturado e inclusivo”, sustentou.
O autarca sublinhou ainda “a importância do Ciclo de Teatro para revitalizar a atividade teatral no concelho, através do apoio às associações que têm vindo a desenvolver uma prática regular no âmbito das artes cénicas, pelo que também este momento formativo é uma oportunidade de partilha de conhecimentos e enriquecimento direto e indireto dos grupos participantes”.
O XXVII Ciclo de Teatro Amador do Concelho de Cantanhede decorrerá de 23 de janeiro a 18 de abril de 2027, e vai contar com a participação de 17 grupos cénicos, envolvendo cerca de quatro centenas de atores e outros intervenientes, com apresentações em múltiplas freguesias do concelho, numa clara aposta na diversidade de géneros, na descentralização cultural e no acesso à cultura.

Marinha Grande | PRESIDENTE DA CÂMARA PROMOVE REUNIÃO SOBRE APOIOS ÀS ASSOCIAÇÕES DE BOMBEIROS

 O Presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, Paulo Vicente, promoveu, no dia 23 de outubro de 2026, uma reunião com a Estrutura de Missão para a Reconstrução da Região Centro de Portugal e representantes das Associações Humanitárias dos Bombeiros Voluntários da Marinha Grande e de Vieira de Leiria.
O encontro, realizado no Salão Nobre dos Paços do Concelho, teve como objetivo prestar esclarecimentos sobre os eventuais apoios a atribuir às duas associações humanitárias, no âmbito das candidaturas a apresentar à CCDRC logo que as mesmas sejam anunciadas, para fazer face aos impactos provocados pela tempestade Kristin.
A reunião permitiu partilhar informações e esclarecer questões relacionadas com os mecanismos de apoio disponíveis, tendo em consideração a importante intervenção desenvolvida pelas corporações de bombeiros na proteção e socorro das populações. Através desta articulação, pretendeu-se identificar respostas adequadas às necessidades decorrentes da tempestade e apoiar a continuidade da sua missão ao serviço da comunidade.

*Gabinete de Comunicação e Imagem

Criador do Cubo de Rubik e estrela mundial do xadrez juntos na Universidade de Aveiro em conferência sobre o futuro da inteligência

 
O criador do icónico Cubo de Rubik e a melhor jogadora de xadrez de todos os tempos vão estar juntos na Universidade de Aveiro, a 30 de outubro, num evento que irá refletir sobre o futuro da inteligência num mundo cada vez mais marcado pela inteligência artificial.

Ernő Rubik e Judit Polgár são dois dos convidados de destaque da conferência “The Future of Intelligence”, que reúne especialistas nacionais e internacionais para debater os desafios da inteligência artificial, da neurociência, da psicologia e da educação.

A conversa entre os dois convidados, marcada para as 18h00, constitui um dos momentos mais aguardados do encontro e uma oportunidade para explorar o papel do jogo no desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de decisão.
*Teresa Pereira
Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro
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Criador do Cubo de Rubik e estrela mundial do xadrez juntos na Universidade de Aveiro em conferência sobre o futuro da inteligência
 
Ernő Rubik e Judit Polgár são dois dos grandes nomes internacionais da conferência “The Future of Intelligence”, que decorre a 30 de outubro, na Universidade de Aveiro. Os dois convidados vão protagonizar uma conversa sobre o papel do jogo no desenvolvimento do pensamento crítico, da criatividade e da capacidade de decisão, num mundo cada vez mais marcado pela inteligência artificial.
 
O criador do icónico Cubo de Rubik e a melhor jogadora de xadrez de todos os tempos vão estar juntos na Universidade de Aveiro a participar num evento que pretende refletir sobre uma questão cada vez mais premente: qual o futuro da inteligência humana coletiva num mundo em que a inteligência artificial assume um papel crescente?
Ernő Rubik e Judit Polgár são dois dos convidados de destaque da conferência “The Future of Intelligence”, organizada pela Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro e pela Associação Ludus, que reúne especialistas nacionais e internacionais das áreas da inteligência artificial, neurociência, psicologia, matemática e educação.

Um dos momentos centrais do encontro será a conversa «Vamos brincar com a ideia», marcada para as 18h00, que reúne as duas figuras internacionais em torno do potencial do jogo para estimular o pensamento, a criatividade e a aprendizagem. Como podemos ajudar as novas gerações a desenvolver competências essenciais para o futuro? Que papel podem ter o jogo e o pensamento estratégico num mundo em rápida transformação? Estas são algumas das questões que irão orientar a conversa, moderada por António Feijó, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, e Henrique Leitão, Pró-Reitor da Universidade de Lisboa.
Antes deste encontro, às 15h00, Judit Polgár integra o painel «O Futuro da Educação», com uma apresentação dedicada à entrada das máquinas no xadrez de competição e à forma como a evolução tecnológica transformou a maneira como aprendemos, pensamos e jogamos. Partindo da sua experiência pessoal, abordará a relação entre a inteligência humana e artificial e os desafios de preparar as novas gerações para o futuro.

A conferência “The Future of Intelligence” decorre na sexta-feira, 30 de outubro, entre as 9h30 e as 19h00, no auditório do ISCA, na Universidade de Aveiro. O programa inclui ainda debates e momentos de reflexão sobre os desafios e as oportunidades que nos esperam num mundo cada vez mais marcado pela inteligência artificial, bem como a exposição Puzzles: Engenhos para pensar, com curadoria de Tiago Hirth e Ernő Rubik.

A participação na conferência encontra-se esgotada.

O programa completo está disponível em https://www.ua.pt/fabrica/future-of-intelligence.

BIOGRAFIAS

Ernő Rubik é inventor, arquiteto e professor de Arquitetura húngaro, mundialmente conhecido pela criação do Cubo de Rubik. Concebido em 1974 como uma experiência para explorar relações espaciais, o puzzle tornou-se um fenómeno mundial e um ícone cultural, influenciando áreas tão diversas como a arte, o design, a ciência e a educação. É também autor do livro Cubed: The Puzzle of Us All e membro da Academia Europaea.

Judit Polgár é considerada a melhor jogadora de xadrez de todos os tempos. Transformou uma vida dedicada ao tabuleiro numa missão global centrada no pensamento, na educação, na criatividade e no prazer de jogar. Protagonista do documentário da Netflix Queen of Chess, lançado em 2026, é uma oradora de renome internacional, fundadora do Judit Polgár Global Chess Festival, Embaixadora da Educação do Chess.com e Bye-Fellow no Christ’s College, da Universidade de Cambridge. As suas memórias, intituladas Queen’s Move, serão publicadas em 2027 pela Penguin Press, nos Estados Unidos, e em dezenas de países.

Fábrica Centro Ciência Viva de Aveiro
Rua dos Santos Mártires, 3810-171 Aveiro
Tel. +351 234 427 053 (chamada para a rede fixa nacional)


Gestão das águas pluviais: experiências e soluções aplicadas em obra

 Com Mário Silva, apoio técnico e comercial na Leca Portugal
A crescente impermeabilização dos solos e a ocorrência de episódios de precipitação intensa colocam novos desafios à gestão das águas pluviais, sobretudo em contexto urbano. A necessidade de controlar o escoamento superficial, promover a retenção e facilitar a drenagem exige soluções técnicas adaptadas às características de cada projeto.
Neste webinar, vamos explorar o contributo da argila expandida Leca® para a gestão das águas pluviais, através das suas propriedades de drenagem, retenção e armazenamento de água.
Mário Silva, do Apoio Técnico-Comercial da Leca Portugal, irá apresentar diferentes soluções e partilhar exemplos de projetos que acompanhou, demonstrando como a argila expandida Leca® pode ser integrada em sistemas de gestão de águas pluviais.
Uma sessão que alia conhecimento técnico e experiência em obra, com destaque para aplicações concretas e para o papel dos materiais na resposta aos desafios da sustentabilidade na construção.
 
PARTICIPE NOS WEBINARS LECA®
Cada participação é um gesto que faz o nosso contributo crescer.
A sua presença corresponde a um donativo de 2€ para uma instituição de solidariedade social.

Marinha Grande | REQUALIFICAÇÃO DO AUDITÓRIO ANTÓNIO CAMPOS EM CURSO

 A Câmara Municipal da Marinha Grande iniciou, na semana passada, a empreitada de requalificação do Auditório António Campos, na Praia da Vieira. A intervenção representa um investimento de 1.198.487,35 euros, acrescido de IVA, e tem um prazo de execução de 15 meses.
Com esta intervenção, o Município pretende dotar a Praia da Vieira de um espaço cultural renovado, funcional e versátil, preparado para acolher diferentes iniciativas e contribuir para a dinamização cultural da freguesia de Vieira de Leiria.
Adjudicada à empresa SUZIFIL – Construções, Lda., a obra permitirá reforçar a oferta cultural e melhorar significativamente as condições de utilização deste equipamento municipal.
O projeto contempla a criação de um auditório multifuncional, com capacidade para 100 lugares de plateia, e de um palco com uma área de base livre. O espaço poderá acolher espetáculos e outras iniciativas culturais, bem como funcionar como sala de ensaio ou área para exposições temporárias.
Está, também, prevista a instalação de uma área expositiva permanente, distribuída por duas salas, e de uma bilheteira, com possibilidade de integração de uma copa e acessos pelo interior e pelo exterior do edifício. O programa funcional inclui ainda instalações sanitárias, áreas de arrumos e espaços técnicos, organizados em torno de um núcleo central.
No interior do auditório serão introduzidos novos elementos estruturais em madeira. Esta opção arquitetónica evoca as antigas habitações da Praia da Vieira, tradicionalmente construídas neste material, reforçando a identidade do equipamento e a sua ligação à memória e à história locais.
A empreitada inclui a beneficiação do pequeno largo exterior, promovendo a valorização do espaço público envolvente e melhorando as condições de fruição e de articulação entre o auditório e a sua envolvente urbana.

*Gabinete de Comunicação e Imagem

Opinião - Num Estado laico, os indigentes de Lisboa continuam à porta das mesma História

Há lugares onde a História não passa verdadeiramente. Mudam as épocas, mudam os rostos, mudam as instituições, mas a pobreza, a espera e a dificuldade de viver com dignidade continuam a encontrar morada nas mesmas ruas. Em Lisboa, nos Anjos, esta continuidade histórica tornou-se uma imagem difícil de ignorar, sobretudo quando homens e mulheres, muitos deles imigrantes e refugiados, se veem obrigados a chegar de madrugada para tentar obter uma senha de atendimento da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA).
O cenário tem uma ironia que merece ser contada. Precisamente numa zona de Lisboa associada à assistência aos mais pobres, onde a memória da antiga sopa dos pobres permanece ligada à Igreja dos Anjos e à história da caridade urbana, voltamos a encontrar pessoas vulneráveis à espera de uma resposta que pode determinar o seu futuro. Ontem, procurava-se auxílio para matar a fome; hoje, procuram-se documentos para trabalhar, regularizar a permanência em Portugal, renovar autorizações de residência ou reunir uma família. As necessidades não são iguais, as instituições também não, mas a pergunta histórica permanece: que espécie de sociedade permite que a vulnerabilidade humana continue tão visível no espaço público?
A História de Lisboa está repleta destes contrastes. A cidade dos Descobrimentos, dos navios que partiram para outros continentes e das riquezas que chegaram de terras distantes foi também uma cidade de mendigos, trabalhadores pobres, crianças abandonadas e famílias que dependiam da assistência alheia para sobreviver. A prosperidade de um império nunca significou que todos os seus habitantes partilhassem a riqueza, tal como a monumentalidade dos seus edifícios nunca conseguiu esconder inteiramente a miséria que existia nas ruas.
Por detrás das fachadas dos palácios, das igrejas e dos conventos, havia uma Lisboa menos monumental, onde a sobrevivência quotidiana dependia frequentemente da solidariedade de particulares, das confrarias, das misericórdias e de outras instituições de beneficência. Durante séculos, a Igreja desempenhou um papel central na assistência aos pobres, numa sociedade em que a protecção social não possuía a configuração que hoje conhecemos. A caridade constituía, para muitos, a diferença entre conseguir sobreviver e ficar entregue à própria sorte.
A antiga sopa dos pobres inscreve-se nessa história social da cidade. Mais do que uma iniciativa de distribuição de alimentos, representa uma época em que a pobreza era enfrentada através de formas de assistência que procuravam responder às necessidades mais imediatas, sem que isso significasse necessariamente resolver as causas da exclusão. A sopa alimentava, mas não eliminava a pobreza; a esmola aliviava a necessidade, mas não garantia a autonomia de quem a recebia.
É aqui que o presente se cruza com o passado de uma forma particularmente incómoda. Portugal é hoje um Estado laico, dotado de uma Constituição que reconhece direitos fundamentais e de instituições públicas que têm responsabilidades concretas perante os cidadãos e as pessoas que vivem legalmente no seu território. A assistência social deixou de depender exclusivamente da caridade religiosa, e a Administração Pública tem o dever de assegurar serviços que funcionem de forma acessível, previsível e compatível com a dignidade humana.
No entanto, nos Anjos, a memória da assistência aos pobres encontra uma espécie de continuação involuntária nas filas que se formam durante a madrugada junto dos serviços da AIMA. Homens e mulheres esperam horas, por vezes sem a certeza de conseguirem sequer ser atendidos. Há trabalhadores que precisam de regularizar a sua situação documental, estudantes que receiam ver comprometida a sua permanência em Portugal, pais e mães que procuram resolver processos familiares e pessoas que dependem de uma decisão administrativa para organizar a própria vida.
Não se trata de afirmar que os imigrantes de hoje são os pobres de ontem, nem de confundir a antiga beneficência religiosa com as obrigações de um serviço público moderno. Trata-se de reconhecer uma inquietante continuidade: pessoas em situação de vulnerabilidade continuam a ser obrigadas a expor publicamente as suas dificuldades para tentar obter uma resposta de que necessitam.
A situação torna-se ainda mais difícil de compreender quando a espera começa de madrugada. Chegar às três ou quatro da manhã para tentar conseguir uma senha não deveria ser uma condição normal de acesso a um serviço público. Para quem tem emprego, filhos, responsabilidades familiares ou vive longe de Lisboa, estas deslocações implicam custos, cansaço e incerteza. Para quem não consegue ser atendido, podem significar a necessidade de repetir todo o processo no dia seguinte, sem garantias de que o resultado será diferente.
E a situação não afecta apenas os imigrantes. Também os advogados que representam os seus clientes enfrentam dificuldades para obter informações e acompanhar processos, vendo-se por vezes obrigados a chegar muito cedo para tentar garantir atendimento. Quando até profissionais que exercem funções essenciais à defesa dos direitos dos cidadãos encontram obstáculos desta natureza, torna-se evidente que o problema ultrapassa a esfera individual e exige uma resposta institucional.
A questão não é negar as dificuldades com que a AIMA se confronta. A gestão de um elevado número de processos migratórios exige recursos humanos, sistemas informáticos eficazes, procedimentos claros e capacidade de resposta. A verificação documental e o cumprimento da legislação são indispensáveis. Uma política de imigração necessita de regras, e essas regras devem ser aplicadas de forma rigorosa e transparente.
Mas a existência de regras não dispensa a Administração de tratar as pessoas com dignidade. A legalidade não pode ser uma desculpa para a ineficácia, tal como a complexidade dos processos não pode justificar indefinidamente a ausência de respostas. Um serviço público não se avalia apenas pelo número de documentos emitidos ou de processos concluídos, mas também pela forma como permite às pessoas aceder aos seus direitos e resolver os seus problemas.
Há uma diferença essencial entre a caridade e a responsabilidade pública. A caridade oferece aquilo que alguém pode dar; um serviço público deve cumprir as obrigações que lhe cabem. O imigrante que procura regularizar a sua situação não está necessariamente a pedir um favor, nem o advogado que procura acompanhar um processo está a reclamar um privilégio. Ambos procuram uma resposta dentro de um sistema que existe precisamente para organizar a relação entre as pessoas e o Estado.
É por isso que a imagem dos Anjos nos obriga a pensar para além da burocracia. Durante séculos, a Igreja procurou responder à pobreza através da assistência e da caridade. Hoje, num Estado laico, a responsabilidade de assegurar o funcionamento dos serviços públicos pertence às instituições democráticas. A Igreja pode continuar a desempenhar um papel social importante, mas não deve caber-lhe compensar as falhas de um sistema administrativo que tem a obrigação de funcionar.
A ironia do título está precisamente aqui. Os pobres continuam à porta da Igreja, mas já não deveriam depender dela para encontrar uma resposta às suas necessidades. A sociedade mudou, o Estado assumiu responsabilidades que outrora pertenciam em grande medida às instituições religiosas e os direitos sociais e administrativos passaram a integrar a vida das democracias contemporâneas. Contudo, a realidade das filas de madrugada recorda-nos que a existência formal de direitos não garante, por si só, que as pessoas consigam exercê-los em condições dignas.
A Lisboa dos nossos dias gosta de apresentar a sua história como uma narrativa de abertura ao mundo. Foi uma cidade de partidas e chegadas, de encontros entre povos, línguas e culturas, marcada pela circulação de pessoas e pela ligação a outros continentes. Essa história não deve ser utilizada para ignorar os desafios reais da imigração, nem para fingir que a integração se resolve sem planeamento, recursos ou regras. Deve, isso sim, servir para recordar que uma cidade com uma história tão ligada aos movimentos humanos precisa de encontrar respostas proporcionais às responsabilidades que assume.
O acolhimento não significa ausência de controlo, assim como a exigência de documentação não deve significar indiferença perante quem espera. É perfeitamente possível defender uma política migratória regulada e, simultaneamente, exigir que os serviços funcionem, que as marcações sejam acessíveis, que os processos tenham acompanhamento e que ninguém seja obrigado a passar a noite na rua para tentar obter uma senha.
A solução passa por reforçar a capacidade de atendimento, garantir informação actualizada, criar mecanismos eficazes de acompanhamento dos processos e disponibilizar alternativas que evitem deslocações desnecessárias. Passa também por assegurar condições adequadas às pessoas que aguardam atendimento, sobretudo quando as próprias instituições sabem que a procura excede a capacidade disponível. Não se trata de exigir privilégios, mas de reconhecer que a dignidade humana não pode ficar suspensa enquanto um processo administrativo aguarda resolução.
A História de Lisboa ensina-nos que as cidades podem mudar profundamente sem eliminar todas as suas contradições. O terramoto de 1755 obrigou à reconstrução de uma capital e transformou a sua organização urbana; as mudanças políticas dos séculos seguintes alteraram as instituições e a relação entre o Estado e a sociedade; a expansão dos direitos sociais modificou a forma como se encara a pobreza e a responsabilidade pública. Seria injusto negar os progressos alcançados. Mas também seria ingénuo acreditar que o progresso se mede apenas pelos edifícios construídos, pelas tecnologias adoptadas ou pelas reformas anunciadas.
O progresso mede-se, sobretudo, pela capacidade de evitar que as pessoas sejam deixadas para trás. Mede-se pela possibilidade de um trabalhador resolver a sua situação documental sem perder sucessivos dias de trabalho, de uma família obter informações sobre um processo sem viver permanentemente na incerteza e de um advogado exercer a sua profissão sem ter de transformar a madrugada numa extensão inevitável do seu horário.
Nos Anjos, a proximidade entre a memória da antiga sopa dos pobres e as filas da AIMA oferece-nos uma lição que não deveria ser ignorada. Não porque a História se repita exactamente, mas porque certas formas de vulnerabilidade sobrevivem às mudanças políticas, às reformas administrativas e às promessas de modernização. Mudam as necessidades concretas, mudam as instituições e mudam os instrumentos utilizados para responder aos problemas, mas a dignidade humana continua a ser o critério pelo qual devemos avaliar a sociedade que construímos.
Talvez seja essa a verdadeira ironia deste lugar de Lisboa. Durante gerações, a pobreza encontrou ali uma porta à qual bater. Hoje, há quem passe a noite à espera de conseguir entrar noutra porta, não para receber uma tigela de sopa, mas para obter os documentos que lhe permitam trabalhar, viver e construir o futuro.
A diferença entre estas duas épocas deveria ser evidente. Já não vivemos numa sociedade em que a assistência depende apenas da generosidade de quem pode ajudar. Vivemos numa sociedade que reconhece direitos e atribui ao Estado a responsabilidade de os garantir. Por isso, quando um serviço público obriga, na prática, alguém a chegar às três da manhã para tentar obter uma resposta, não estamos apenas perante uma falha de organização. Estamos perante uma questão de dignidade humana e de responsabilidade institucional.
Os Anjos não precisam de mais uma placa comemorativa para recordar a sua história social. Precisam de que essa memória sirva para alguma coisa. Porque uma sociedade que conserva a memória da caridade, mas se habitua à humilhação da espera, arrisca-se a transformar a História num cenário bonito e vazio.
E não há modernidade que resista a uma pergunta tão simples como esta: depois de tantos séculos, de tantas transformações políticas, de tantas leis e de tantos avanços tecnológicos, por que razão continuam pessoas a passar a noite na rua para tentar obter uma resposta que pode determinar o seu futuro?
Talvez a História de Lisboa não esteja apenas nos monumentos que preservamos, nos livros que publicamos ou nas datas que celebramos. Talvez esteja também nestas filas, à sombra da Igreja dos Anjos, onde o passado e o presente se encontram de uma forma que nenhum lisboeta deveria considerar normal.
O passado chega primeiro, como tantas vezes acontece. A questão é saber se teremos a lucidez de aprender alguma coisa com ele.

Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

REDE SOCIAL DA MARINHA GRANDE REÚNE PARCEIROS E APRESENTA NOVAS RESPOSTAS SOCIAIS

 O Conselho Local de Ação Social (CLAS) da Marinha Grande reuniu na manhã desta segunda-feira, 26 de outubro, no auditório da Biblioteca Municipal, numa sessão presidida pela vereadora da ação social da Câmara Municipal da Marinha Grande e presidente do CLAS, Carla Santana.
A ordem de trabalhos incluiu a aprovação da ata da reunião anterior, a apresentação da Associação de Pais para a Interajuda de Cuidadores da Marinha Grande (APPIC-MG), a votação da sua adesão ao CLAS, a apreciação da reprogramação temporal do Plano de Ação do CLDS 5G Marinha Social e a apresentação do respetivo relatório de monitorização.
A vereadora Carla Santana destacou que “a Rede Social assume um papel fundamental na promoção da coesão social e na construção de respostas adequadas às necessidades da população. O trabalho articulado entre o Município, as instituições e os restantes parceiros permite reforçar a capacidade de intervenção no território e apoiar quem mais precisa”. 

Associação apoia cuidadores
A APPIC-MG, associação sem fins lucrativos constituída em julho de 2026 e com sede no Edifício IVIMA, apresentou a sua missão de apoiar cuidadores e famílias, promover a inclusão social e educativa de pessoas com perturbações do desenvolvimento e criar respostas de apoio psicossocial, educativo e comunitário.
O Plano de Atividades da associação para 2027 encontra-se organizado em sete áreas de atuação: consolidação da associação; conhecimento das necessidades dos cuidadores; apoio aos cuidadores e às famílias; formação e capacitação; educação, inclusão e comunidade; parcerias e cooperação institucional; e sustentabilidade e financiamento.
Entre as iniciativas previstas para 2027 encontram-se a criação de um Mapa dos Cuidadores da Marinha Grande e dos concelhos limítrofes, a instalação de um gabinete de apoio, a dinamização de grupos de interajuda e a realização de sessões informativas, workshops e ações de sensibilização.
CLDS 5G Marinha Social apresentou resultados
Durante a reunião foi também apresentado o relatório de monitorização do CLDS 5G Marinha Social, relativo ao período compreendido entre 1 de abril de 2025 e 30 de setembro de 2026.
Após 18 meses de execução, as 12 atividades previstas encontravam-se iniciadas, com resultados diferenciados e oportunidades de melhoria. A monitorização revelou uma elevada abrangência nas áreas do acompanhamento social e do apoio à procura de novo emprego, tendo sido identificada a necessidade de reforçar a divulgação, a mobilização de destinatários e a articulação com os parceiros em algumas atividades.
Foram apresentadas como prioridades para o próximo período o reforço da mobilização nas ações com menor execução, a consolidação de parcerias nas áreas do emprego e da qualificação, o aumento das oportunidades de participação cultural e desportiva inclusiva, o aprofundamento da avaliação dos resultados e a manutenção de uma articulação regular entre os parceiros do CLAS e da Rede Social.
No final da reunião, as entidades presentes foram convidadas a refletir sobre o que deve ser garantido para que todas as pessoas possam viver com dignidade. A partir dos contributos partilhados, foi selecionada, de forma participativa, uma nova palavra para integrar a Mala – Museu da Dignidade, simbolizando o compromisso coletivo da Rede Social da Marinha Grande com a inclusão, a igualdade e a defesa dos direitos fundamentais.

*Gabinete de Comunicação e Imagem