Tradicionalmente
associada ao Algarve, a alfarrobeira pode estar a caminho de ganhar
novos territórios em Portugal.
Investigadores
da Universidade de Évora estão a testar dez variedades portuguesas
de alfarrobeira para perceber quais conseguem adaptar-se às
condições do Alentejo. Algumas já revelaram elevada tolerância à
geada. Em paralelo, uma spin-off da Universidade desenvolveu uma
técnica de propagação clonal que permite produzir, em laboratório,
plantas geneticamente uniformes, abrindo caminho a futuros pomares
mais previsíveis.
É
essa possibilidade que uma equipa de investigadores da Universidade
de Évora está a estudar, no âmbito do projeto ALCAROB –
“Aplicabilidade da cultura da alfarrobeira na sustentabilidade da
agricultura no Alentejo”, coordenado por Hélia
Cardoso, investigadora do MED – Instituto Mediterrâneo para a
Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento da Universidade de Évora.
Num
campo experimental no concelho de Évora, estão atualmente a ser
avaliadas
dez variedades portuguesas de alfarrobeira,
com o objetivo de perceber como respondem às condições
edafoclimáticas do Alentejo.
E
há
já um resultado que pode ter particular interesse para a expansão
da cultura:
as
variedades não respondem todas da mesma forma ao frio e aos
episódios de geada.
Resultados preliminares, obtidos no âmbito de uma tese de
doutoramento financiada pela Fundação para a Ciência e a
Tecnologia, mostram
que algumas variedades apresentam níveis elevados de tolerância à
geada.
A
descoberta pode ser particularmente relevante num contexto em que os
agricultores procuram culturas capazes de suportar condições
ambientais cada vez mais exigentes.
A
questão não é apenas saber se a alfarrobeira consegue crescer fora
do Algarve, mas perceber
que variedades devem ser plantadas em cada região
e que material vegetal poderá garantir pomares mais produtivos,
homogéneos e previsíveis.
“Não
basta expandir a cultura. É necessário saber qual o material
vegetal mais adaptado a cada território” — é esta a lógica
subjacente ao trabalho desenvolvido pela equipa.
A
resposta poderá permitir
identificar os genótipos mais adequados a diferentes condições e
criar uma base científica
para uma eventual expansão da cultura para o Alentejo e, em
determinadas zonas, também para outras regiões de Portugal.
Existe,
contudo, um obstáculo importante à propagação vegetativa (forma
de propagação que permite manter as características agronómicas
de variedades de elite) e que corresponde à reduzida capacidade de
formação de raízes adventícias quando o material é propagado por
estacaria. Devido a esta limitação, estas plantas são
frequentemente propagadas por enxertia sobre porta-enxertos obtidos a
partir de semente.
No
entanto, por
resultarem de reprodução seminal, estes porta-enxertos apresentam
variabilidade genética entre indivíduos, o que pode traduzir-se em
diferenças no vigor, na eficiência de absorção de água e
nutrientes e na capacidade de tolerar condições de stress edáfico,
como défice hídrico, salinidade ou outras limitações do solo.
Consequentemente, esta heterogeneidade pode introduzir variabilidade
no comportamento agronómico das plantas enxertadas, dificultando a
obtenção de pomares mais uniformes e previsíveis.
Essa
variabilidade pode influenciar o sucesso da enxertia devido a
questões de incompatibilidade enxerto vs. Porta-enxerto,
traduzindo-se na necessidade de proceder a múltiplas tentativas de
enxertia encarecendo o custo do estabelecimento do pomar. É
aqui que entra a Microplant Lda., spin-off da Universidade de Évora
especializada na propagação de plantas.
A
empresa desenvolveu um protocolo de propagação in vitro que permite
produzir clones de genótipos masculinos de alfarrobeira com
potencial utilização como porta-enxertos.
Na
prática, a
técnica permite multiplicar plantas geneticamente uniformes.
O objetivo é simples, mas pode ter consequências
importantes para a agricultura,
como reduzir a variabilidade entre árvores e tornar o comportamento
de um pomar mais previsível.
Uma
mesma planta pode ter duas funções
O
trabalho desenvolvido pela Microplant tem ainda outra
particularidade: os
genótipos masculinos clonados poderão ser utilizados como
porta-enxertos,
mas as plantas masculinas têm também um papel essencial no próprio
pomar: produzir pólen para assegurar a polinização das variedades
femininas.
A
escolha das plantas masculinas, a sua proporção e a forma como são
distribuídas no pomar podem, por isso, ser determinantes para
garantir uma polinização eficaz.
Ao
mesmo tempo, a
Microplant está numa fase avançada do desenvolvimento de
procedimentos para a produção clonal de plantas femininas,
selecionadas a partir de árvores produtivas identificadas no
Alentejo.
Esta
abordagem abre uma possibilidade particularmente interessante: em
vez de depender apenas de material vegetal genérico, poderão ser
selecionadas árvores que já demonstraram interesse agronómico nas
condições da região e, posteriormente, multiplicadas por
propagação clonal em laboratório.
O
processo começa no terreno, com a identificação e recolha de
material vegetal de árvores com características de interesse.
Depois, esse material entra num processo de propagação in vitro,
permitindo obter plantas geneticamente uniformes, que poderão
posteriormente ser utilizadas na produção de plantas destinadas a
novos pomares.
É
uma abordagem que junta agricultura de campo, genética, fisiologia
vegetal, biotecnologia e produção comercial de plantas.
Uma
nova fileira agrícola para o Alentejo?
A
investigação poderá contribuir para responder a uma questão cada
vez mais relevante para a agricultura portuguesa: que
culturas podem ocupar um lugar num território mediterrânico sujeito
às alterações climáticas, à necessidade de diversificação
agrícola e à procura crescente por produtos naturais e
sustentáveis?
A
alfarrobeira apresenta algumas características que a tornam
particularmente interessante nesse contexto.
Mas os investigadores alertam, na prática, para a necessidade de
evitar uma expansão baseada apenas na expectativa de que “a árvore
aguenta”.
O
desafio passa por selecionar variedades adaptadas, produzir material
vegetal de qualidade, planear corretamente os pomares e garantir que
a produção responde às necessidades do mercado.
O
Algarve pode ter sido o território histórico da alfarrobeira em
Portugal. O
Alentejo pode vir a ser o próximo laboratório para perceber até
onde esta cultura consegue chegar.
O
projeto ALCAROB é financiado pelo Programa Promove da Fundação “la
Caixa”, em parceria com a Fundação para a Ciência e a
Tecnologia, no âmbito dos Projetos I&D Mobilizadores 2024.
Divisão de Comunicação da Universidade de Évora
*Andreia
Rosa [Coordenação]
**Marco Cardoso
[Ciência e Investigação]
**Pedro Conceição
[Institucional]
Universidade de Évora, 27 de outubro de 2027
Nenhum comentário:
Postar um comentário