domingo, 18 de outubro de 2026

Cantanhede | Conversa sobre o escritor ançanense integrada no ciclo “Gente da Nossa Terra”. José Manuel Mendes e José Carlos Vasconcelos recordaram o legado Augusto Abelaira


Dois conhecedores profundos da vida e obra de Augusto Abelaira estiveram na passada quinta-feira, 15 de outubro, em Cantanhede, para uma conversa no âmbito da 5.ª edição do projeto “Gente da Nossa Terra”, que homenageia o escritor, romancista, dramaturgo, professor, tradutor e jornalista natural de Ançã.
Este era, de resto, um dos momentos mais aguardados da programação, porquanto reunia duas reconhecidas personalidades da sociedade portuguesa com uma ligação forte ao percurso de Augusto Abelaira.
O vice-presidente da Câmara Municipal de Cantanhede com o pelouro da Cultura, Pedro Cardoso, realçou a importância e simbolismo desta ação que foi, no fundo, “um tributo ao legado humano-cívico de Augusto Abelaira, enquanto luz do pensamento e da criatividade” e que, segundo os oradores, se distinguiu como um dos maiores escritores portugueses de sempre.
“A sessão comportou como que um apelo imperioso à descoberta e também à releitura dos seus livros e a quanto neles é singularidade estética, livre construção, percurso não apagável, sem esquecer as suas crónicas periódicas em jornais nacionais”, adiantou.
Ainda de acordo com o autarca, “ter a oportunidade de acolher e escutar em Cantanhede testemunhos tão calorosos, tão valorosos e tão pessoais pela proximidade e cumplicidade resultantes dessa vivência estreita com Augusto Abelaira, permitiu a todos os presentes entender melhor a grandeza desta figura cantanhedense, que sempre se pautou por um apego incondicional à liberdade e com uma intervenção cívica ímpar, um escritor maior da Literatura Portuguesa”.
Numa organização do Município de Cantanhede em parceria com a Associação Portuguesa de Escritores, a sessão decorreu no auditório da Biblioteca Municipal e contou com uma plateia bem preenchida, que teve oportunidade de ficar a conhecer duas personalidades de relevo da cultura portuguesa.
José Manuel Mendes é escritor (livros de poesia, romances, coletâneas de contos, crónicas e dispersos), presidente da Associação Portuguesa de Escritores desde 1992 e sócio efetivo da Academia das Ciências de Lisboa.
Já José Carlos Vasconcelos colaborou frequentemente com Augusto Abelaira no “Jornal de Letras, Artes e Ideias” e em “O Jornal”, nos quais foi diretor, dando espaço a comentário político e cultural. Jornalista, escritor e advogado, foi ainda diretor do “JL, Jornal de Letras, Artes e Ideias” e coordenador editorial da revista “Visão”.
Refira-se que 5.ª edição do projeto “Gente da Nossa Terra” homenageia Augusto Abelaira, de 30 de setembro a 28 de novembro, com dezenas de iniciativas multidisciplinares que decorrem em vários pontos do concelho de Cantanhede e fora deste, com o envolvimento de mais de três dezenas de entidades em parceria com o Município de Cantanhede.

Opinião - Os frescos pagãos de Évora que escondem uma crítica ao poder

 Junto ao antigo Palácio da Inquisição, em Évora, sobrevive um dos conjuntos de pintura mural mais invulgares do século XVI português. Entre animais fantásticos, criaturas mitológicas e símbolos que parecem saídos de um sonho, estas pinturas contam uma história que vai muito além da decoração e que ganha uma dimensão especial quando conhecemos o destino posterior do edifício.
Há lugares onde a História parece ter um sentido de humor muito próprio. Em Évora, uma cidade onde cada pedra parece guardar a memória de reis, bispos, nobres e inquisidores, existe um conjunto de pinturas murais que nos obriga a olhar duas vezes, não apenas pelo que representa, mas também pelo lugar onde se encontra. Perto do antigo Palácio da Inquisição, num espaço associado à cultura aristocrática do início do século XVI, sobreviveram imagens de inspiração profana, criaturas fantásticas e motivos ligados a um imaginário que hoje poderíamos considerar pagão, mas que, no Renascimento, possuía uma linguagem simbólica muito mais complexa do que a simples oposição entre o sagrado e o profano.
Estamos a falar das Casas Pintadas de Évora, um dos testemunhos mais raros da pintura mural profana portuguesa do século XVI, cuja importância não reside apenas na sua qualidade artística, mas também na possibilidade de compreender como a nobreza daquele tempo comunicava através de imagens, referências literárias, fábulas e símbolos que nem todos os visitantes estariam preparados para decifrar. Estas pinturas não foram concebidas para ilustrar uma história religiosa convencional, nem se limitavam a embelezar paredes. O seu universo visual sugere uma cultura de corte em que a erudição, o humor, a crítica e o jogo intelectual podiam coexistir nas paredes de uma residência nobre.
É precisamente aqui que a história começa a tornar-se fascinante, porque, quando entramos neste universo de animais imaginários e referências mitológicas, percebemos que o Renascimento não foi apenas a época em que os artistas recuperaram a Antiguidade clássica e os seus modelos estéticos. Foi também um período em que as imagens ganharam novas possibilidades de interpretação, permitindo transmitir ideias sobre o comportamento humano, a ambição, o desejo, a corrupção e os próprios mecanismos do poder, por vezes de forma mais subtil do que um texto escrito. Numa sociedade profundamente marcada pela religião, a presença de um imaginário profano numa residência aristocrática não era necessariamente uma declaração contra o cristianismo, mas podia revelar uma cultura intelectual que sabia recorrer à mitologia, às fábulas e ao simbolismo animal para pensar criticamente o mundo em que vivia.

Um nobre, uma galeria e um mundo de símbolos
A investigação histórica permitiu esclarecer um dos aspetos mais curiosos deste conjunto. Durante muito tempo, as Casas Pintadas foram associadas a Vasco da Gama, uma ligação que alimentou a imaginação de quem procurava relacionar aquelas imagens com as grandes figuras da expansão portuguesa. Contudo, os estudos realizados por Joaquim Oliveira Caetano e José Alberto Seabra Carvalho vieram esclarecer que o responsável pela encomenda foi D. Francisco da Silveira, coudel-mor durante os reinados de D. Manuel I e D. João III, homem ligado à corte e também presente no universo literário do Cancioneiro Geral. A descoberta não diminui a importância do lugar; pelo contrário, coloca-o num contexto cultural mais preciso, o de uma nobreza que não vivia apenas de cargos, terras e privilégios, mas também procurava afirmar a sua posição através da arte e do conhecimento.
As pinturas datam de 1513, num momento em que Portugal vivia a prosperidade associada à expansão ultramarina, enquanto as elites procuravam acompanhar as novidades artísticas e intelectuais que circulavam pela Europa. Na galeria das Casas Pintadas encontramos um bestiário de criaturas reais e imaginárias, animais que parecem ter escapado a um manuscrito medieval, seres fantásticos e composições de inspiração grotesca que desafiam uma leitura imediata. A sua organização não é indiferente: o registo superior inspira-se na tradição dos bestiários medievais, enquanto a faixa inferior recorre a motivos grotescos, numa combinação que revela a persistência de linguagens antigas e a sua transformação no ambiente artístico do Renascimento.
Mas por que razão haveria um nobre de investir numa decoração tão invulgar? A resposta mais interessante não está em imaginar que cada animal escondia necessariamente uma mensagem secreta, mas em reconhecer que estas imagens faziam parte de uma cultura visual capaz de falar por metáforas. O historiador de arte Joaquim Oliveira Caetano tem salientado a dimensão moralizante destas pinturas e a sua vertente crítica em relação ao poder político e amoroso. Os motivos podiam funcionar como um verdadeiro jogo palaciano, destinado a ser reconhecido e interpretado por quem conhecia as fábulas, os códigos literários e as referências culturais da época. A imagem era, assim, mais do que ornamento: podia ser uma forma de comentário sobre os comportamentos humanos, incluindo os daqueles que ocupavam os lugares mais elevados da sociedade.
É neste ponto que o carácter aparentemente pagão das pinturas merece especial atenção. O imaginário clássico, os animais simbólicos e as criaturas fantásticas não devem ser confundidos automaticamente com a prática de um culto pagão ou com uma mensagem de oposição à Igreja. A cultura renascentista apropriava-se de referências da Antiguidade e da tradição medieval, combinando-as com preocupações morais e políticas que podiam ser compreendidas de diferentes maneiras. O que torna as Casas Pintadas tão interessantes é precisamente essa ambiguidade: perante uma criatura fantástica, um animal ou uma cena alegórica, o observador podia encontrar uma referência literária, uma advertência moral ou uma crítica velada, sem que existisse necessariamente uma única interpretação possível.
Também importa não confundir a galeria profana com o pequeno espaço de carácter religioso associado ao conjunto, onde existem pinturas de temática cristã. As Casas Pintadas não constituem, portanto, um manifesto exclusivamente pagão, mas um testemunho de como linguagens visuais distintas podiam coexistir numa residência aristocrática do século XVI. Para compreender o conjunto, é necessário olhar para a diversidade das imagens e para o ambiente cultural em que foram produzidas, em vez de reduzir toda a sua simbologia a uma única explicação.

A sombra da Inquisição
E chegamos à coincidência histórica que torna este lugar especialmente sugestivo. As Casas Pintadas encontram-se junto ao antigo Palácio da Inquisição, mas há um pormenor cronológico que não pode ser ignorado: as pinturas foram realizadas em 1513, enquanto a ligação do espaço ao palácio inquisitorial ocorreu apenas no final do século XVI, quando as Casas Pintadas foram anexadas ao complexo para servirem de residência aos inquisidores. O tribunal do Santo Ofício de Évora funcionou naquele palácio entre 1655 e 1821. Ou seja, as pinturas já existiam muito antes de o edifício passar a integrar o universo institucional da Inquisição.
Esta distinção é fundamental para não transformar uma coincidência histórica numa certeza que os documentos não demonstram. Não temos fundamento para afirmar que as pinturas foram concebidas como uma mensagem contra a Inquisição, nem que os inquisidores procuraram apagá-las por causa do seu conteúdo. O que podemos afirmar é que a história posterior do lugar criou um contraste extraordinário: um conjunto mural de natureza profana, povoado por animais fantásticos e imagens que convidam à interpretação, acabou por ficar associado a um espaço onde a ortodoxia religiosa e a vigilância das ideias desempenharam um papel central na vida portuguesa.
A proximidade física entre estes dois universos convida à reflexão, mas é a cronologia que lhe dá verdadeiro significado. Quando Francisco da Silveira mandou pintar a sua galeria, no início do século XVI, não estava a decorar uma dependência do tribunal inquisitorial que ali viria a funcionar. Estava a afirmar uma cultura aristocrática própria do seu tempo, recorrendo a imagens que exigiam conhecimento e capacidade de interpretação. Décadas mais tarde, o espaço passou a fazer parte de outra realidade institucional, marcada por preocupações muito diferentes. A ironia histórica não precisa de ser inventada: basta perceber como o mesmo lugar atravessou contextos tão distintos.
Talvez seja precisamente por isso que estas pinturas merecem ser mais conhecidas. Num país onde a arte antiga é muitas vezes apresentada apenas pela sua beleza, as Casas Pintadas recordam-nos que as imagens também podem ser documentos sobre a sociedade, os seus valores, os seus receios e as suas contradições. Os animais fantásticos não nos entregam uma chave universal que permita decifrar todos os segredos de uma só vez, mas obrigam-nos a fazer perguntas sobre quem os encomendou, quem os contemplava e que conhecimentos eram necessários para compreender as suas alusões.
Évora conserva, assim, muito mais do que um conjunto raro de pinturas murais. Conserva um fragmento da imaginação de uma elite do século XVI, num espaço onde a cultura profana e o simbolismo convivem com a memória posterior da Inquisição. E, perante estas paredes, vale a pena recordar uma lição essencial para qualquer historiador: a História torna-se verdadeiramente fascinante quando sabemos distinguir aquilo que os documentos provam daquilo que a nossa curiosidade nos leva a suspeitar. As Casas Pintadas oferecem matéria suficiente para ambas as coisas, desde que não confundamos o mistério com a certeza.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor