segunda-feira, 12 de outubro de 2026

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Convite: Desafio Heróis da Fruta 2026/2027

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Equipa Heróis da Fruta

Movimento UPortugal defende confiança nos serviços públicos e na informação como solução para os desafios da democracia

 

Primeira conferência anual do Movimento UPortugal, que contou com a presença do Presidente da República, António José Seguro, debateu os desafios da Inteligência Artificial e da desinformação. Associação vai apresentar um documento com as principais propostas resultantes do encontro.

O reforço da literacia digital, a necessidade de uma regulação eficaz da Inteligência Artificial e a defesa de políticas públicas de apoio ao jornalismo estiveram entre as principais conclusões da primeira conferência anual do Movimento UPortugal, realizada este sábado, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP-ULisboa) - parceiro institucional do evento - sob o tema “DemocracIA: Media e Futuro”. 

O encontro reuniu especialistas, académicos e profissionais da comunicação social para refletir sobre as transformações tecnológicas e os seus impactos na sociedade e na qualidade da democracia. 

A discussão evidenciou a necessidade de garantir que a Inteligência Artificial permanece ao serviço das pessoas, acompanhada por um investimento consistente na literacia digital, desde as escolas e ao longo da vida. Foi igualmente defendida a importância de assegurar uma regulação eficaz, acompanhada de mecanismos de fiscalização e de recursos humanos qualificados. 

A situação da comunicação social mereceu particular atenção, com a defesa de políticas públicas que contribuam para a sustentabilidade do jornalismo, assegurando a independência editorial e condições dignas para os profissionais do setor. A precariedade nas redações e a crescente disseminação de desinformação foram identificadas como ameaças à qualidade da informação e ao funcionamento das sociedades democráticas. 

“Não podemos combater eficazmente a desinformação se deixarmos morrer a informação de qualidade”, sublinhou Catarina Resende, do Movimento UPortugal, na apresentação das conclusões. 

Na sequência do encontro, a UPortugal comprometeu-se a elaborar um documento que reúna as principais ideias e propostas apresentadas, procurando dar continuidade ao debate e contribuir para a definição de respostas aos desafios identificados. 

No encerramento, Paulo Lopes Silva, presidente do Movimento UPortugal, destacou a importância da confiança enquanto elemento central da qualidade democrática, num contexto de profundas transformações económicas, sociais e tecnológicas. 

“A confiança não se decreta. Constrói-se com competência, transparência, responsabilidade e resultados”, afirmou Paulo Lopes Silva, sublinhando a necessidade de reforçar a confiança dos cidadãos na informação, nas instituições e na capacidade da democracia para responder aos problemas da sociedade. 

Especialistas debateram Inteligência Artificial e futuro dos media 

A conferência contou com dois painéis temáticos. O primeiro, “Inteligência Artificial: Desafios e Oportunidades”, reuniu Goreti Marreiros, Francisco Goiana da Silva e Alfredo Sousa de Jesus, com moderação de Ana Pimentel. O segundo, “A Comunicação Social em Portugal e a Desinformação”, contou com Telmo Gonçalves, Miguel Carvalho e Inês Cardoso, sob moderação de Tiago Sigorelho. O programa incluiu ainda intervenções de Paulo Martins sobre “Inteligência Artificial no Futuro do Jornalismo”, de Carlos Zorrinho, presidente da Assembleia Geral do Movimento UPortugal e de Ricardo Ramos Pinto, presidente do ISCSP – ULisboa. 

A iniciativa contou também com a presença do Presidente da República, António José Seguro, que assistiu à conferência. 

A primeira conferência anual integra o plano de atividades do Movimento UPortugal para 2026–2028, que prevê a realização de iniciativas de debate público, investigação e formação cívica, com o objetivo de promover a participação democrática e contribuir para uma sociedade mais informada e participativa. 


Crónica - Do vinho à Eucaristia, o cálice mais antigo de Portugal

 Encomendado há cerca de mil anos, quando Portugal ainda não existia como reino independente, o Cálice de São Geraldo guarda uma história que atravessa a aristocracia medieval, a ourivesaria peninsular e a tradição cristã. O que começou por estar associado à vida de uma família poderosa acabaria ligado à celebração da Eucaristia, tornando-se uma das peças mais fascinantes do Tesouro da Sé de Braga.
Há objectos que sobrevivem ao tempo e há outros que sobrevivem também às ideias que fazemos do passado. O Cálice de São Geraldo, conservado no Tesouro-Museu da Sé de Braga, pertence a esta segunda categoria, porque basta imaginar os séculos que atravessou para percebermos que estamos perante muito mais do que uma peça antiga de ourivesaria. Antes de Portugal ser um reino independente, antes de D. Afonso Henriques entrar para a História como o primeiro rei português e antes de a actual catedral de Braga adquirir a sua forma românica, já este cálice existia, transportando consigo uma história que começaria num contexto muito diferente daquele que hoje associamos à sua função religiosa.
A sua história remonta aos primeiros anos do século XI, quando o território que viria a constituir Portugal fazia parte de uma realidade política marcada pela autoridade dos condes, pelas relações de vassalagem e pelas disputas entre os poderes cristãos da Península Ibérica. Foi nesse mundo que D. Mendo Gonçalves e a sua mulher, D. Toda, figuras da aristocracia condal portucalense, ficaram associados à encomenda desta peça, cuja inscrição permite conservar os seus nomes muito para além da época em que viveram. A cronologia habitualmente apresentada situa o cálice entre 1004 e 1008, embora as classificações patrimoniais também o enquadrem, de forma mais ampla, nos séculos X e XI. Estamos, portanto, perante um objecto anterior à fundação do reino português, tradicionalmente associada a 1143, e que nos permite entrar num mundo em que as estruturas políticas, sociais e culturais do futuro Portugal estavam ainda em formação.
É precisamente aqui que começa a parte mais curiosa desta história. Quando pensamos num cálice, imaginamo-lo quase sempre nas mãos de um sacerdote, contendo o vinho consagrado durante a missa, no momento em que a liturgia católica celebra a Eucaristia. Porém, nem todos os objectos que hoje associamos ao culto cristão nasceram necessariamente com essa finalidade, e a história do Cálice de São Geraldo é frequentemente apresentada como um exemplo dessa transformação. Segundo a tradição divulgada pela RTP, a peça terá sido encomendada para beber vinho às refeições, antes de ficar associada ao património religioso da Sé de Braga. A interpretação da sua utilização original deve, contudo, ser tratada com prudência, porque a história material de um objecto nem sempre permite reconstituir todos os momentos da sua vida com absoluta certeza.
A ideia permanece fascinante. Um cálice associado à mesa de uma família aristocrática medieval acabaria por integrar um universo de culto, devoção e memória religiosa, atravessando uma transformação que nos obriga a olhar para a Idade Média de outra maneira. Não devemos imaginar uma passagem necessariamente imediata entre a mesa e o altar, como se conhecêssemos todos os episódios intermédios, mas é precisamente a capacidade de sobreviver a diferentes contextos que torna esta peça tão importante. O objecto permaneceu, enquanto o mundo à sua volta mudou profundamente, e aquilo que começou por representar o prestígio de uma família adquiriu, ao longo do tempo, um significado que ultrapassou largamente a sua utilização original.
A inscrição gravada na peça merece, por isso, uma atenção especial, porque é através dela que o passado deixa de ser uma abstracção e ganha nomes concretos. D. Mendo Gonçalves e D. Toda não são apenas figuras perdidas numa genealogia medieval, mas os protagonistas de uma encomenda que chegou até nós quando milhares de outros objectos desapareceram, foram fundidos, destruídos ou simplesmente esquecidos. A prata podia ser reutilizada, as jóias podiam ser desmontadas e os tesouros podiam desaparecer em períodos de guerra ou de instabilidade, mas este cálice sobreviveu, permitindo aos historiadores estudar uma obra que nos aproxima da sociedade aristocrática do Condado Portucalense.
A própria peça constitui um testemunho da qualidade técnica e artística da ourivesaria medieval. Executada em prata dourada e decorada com motivos ornamentais e figuras de animais, apresenta características que têm sido relacionadas com a tradição moçárabe e com o ambiente cultural da Península Ibérica medieval. A palavra «moçárabe» exige algum cuidado na sua utilização, porque designa realidades históricas e culturais diversas, associadas sobretudo aos cristãos que viviam sob domínio muçulmano e às expressões artísticas ligadas a esses contextos. Não permite, por si só, determinar com absoluta segurança o local de fabrico do cálice, mas ajuda a compreender a complexidade do mundo em que a peça surgiu, num território onde as influências artísticas não respeitavam necessariamente as fronteiras religiosas e políticas.
A história peninsular foi feita de conflitos, conquistas e disputas territoriais, mas também de contactos culturais, circulação de técnicas e apropriação de formas artísticas. Por vezes, olhamos para a Idade Média através de uma sucessão de batalhas e esquecemos que, enquanto os exércitos avançavam e as fronteiras se alteravam, os artesãos continuavam a trabalhar, os mercadores transportavam mercadorias e os objectos preciosos circulavam entre diferentes comunidades. O Cálice de São Geraldo permite-nos vislumbrar essa realidade, porque a sua linguagem ornamental recorda que a cultura medieval era consideravelmente mais complexa do que uma divisão rígida entre mundos cristãos e muçulmanos poderia sugerir.
Mas por que razão ficou conhecido como Cálice de São Geraldo? O nome remete para o arcebispo de Braga que governou a arquidiocese entre 1096 e 1108 e cuja memória permanece profundamente ligada à história religiosa da cidade. A designação tradicional associa a peça ao universo patrimonial e devocional de Braga, embora não devamos confundir essa ligação com uma prova de que o próprio São Geraldo a encomendou ou de que conhecemos todos os episódios da sua utilização. A prudência histórica é especialmente importante quando lidamos com objectos que atravessaram tantos séculos, porque a tradição pode conservar memórias relevantes sem que todos os pormenores possam ser demonstrados documentalmente.
Há, no entanto, uma certeza cronológica que torna o cálice particularmente interessante. A actual Sé de Braga começou a ser construída no final do século XI, durante o episcopado de D. Pedro, e o cálice é anterior ao edifício românico que hoje conhecemos. Isto significa que a peça precede não apenas a fundação do reino português, mas também o monumento religioso com o qual acabaria por ficar associada. O visitante que hoje entra no Tesouro-Museu da Sé de Braga encontra, assim, um objecto que já tinha uma história quando as paredes da catedral começaram a erguer-se, como se uma testemunha do passado tivesse esperado pelo nascimento do edifício que viria a acolhê-la.
É também por isso que importa utilizar com rigor a expressão «o cálice mais antigo de Portugal». A peça é frequentemente apresentada como um dos mais antigos exemplares de ourivesaria associados ao culto cristão conservados no território português, sendo destacada pela sua excepcional antiguidade e pela relação com a aristocracia condal portucalense. Contudo, é necessário distinguir a data de fabrico, a função original e a utilização litúrgica posterior, porque são questões diferentes e nem sempre igualmente documentadas. A sua importância histórica não depende de uma afirmação absoluta que dispense discussão: reside no facto de termos diante de nós uma obra de cerca de mil anos, ligada a personagens identificáveis e preservada num dos mais importantes centros religiosos do país.
A transformação de um objecto ao longo do tempo também nos ajuda a compreender a própria história da Eucaristia. Para os cristãos, a celebração eucarística constitui o centro da vida litúrgica, evocando a Última Ceia e a instituição do sacramento por Jesus Cristo. O cálice ocupa nela um lugar de particular significado, porque contém o vinho consagrado que, segundo a fé católica, se torna o Sangue de Cristo. Ao passar a integrar o património religioso, uma peça como esta deixa de ser vista apenas pela matéria de que é feita ou pela habilidade do artesão que a executou, adquirindo uma dimensão simbólica que a comunidade cristã reconhece e transmite às gerações seguintes.
É importante não confundir, porém, a antiguidade do cálice com a antiguidade da Eucaristia em Portugal. A celebração cristã é muito anterior à existência deste objecto e remonta às primeiras comunidades cristãs, pelo que o Cálice de São Geraldo não representa o início da Eucaristia no território. O seu valor reside antes em constituir um testemunho material extraordinariamente antigo da ourivesaria medieval associada ao universo religioso português, permitindo-nos acompanhar a história de uma peça que adquiriu, ao longo dos séculos, um significado que ultrapassa a sua origem.
A ironia histórica é irresistível. Quando este cálice foi encomendado, Portugal ainda não existia como reino independente, mas hoje é precisamente através dele que conseguimos tocar uma parte da história que antecedeu a nacionalidade. A formação de um país não acontece de um dia para o outro, nem começa necessariamente na data que os manuais escolares destacam. Antes de existir uma coroa portuguesa, já havia famílias poderosas, territórios com identidade própria, instituições religiosas e uma vida cultural que preparava o terreno para as transformações políticas futuras. O cálice recorda-nos que o passado não começa quando nasce um reino, mas muito antes, no interior de sociedades que ainda não sabem exactamente aquilo em que se irão transformar.
Talvez seja essa a razão pela qual uma peça aparentemente tão pequena consegue contar uma história tão vasta. Nela encontramos a memória de D. Mendo Gonçalves e de D. Toda, a qualidade da ourivesaria medieval, a complexidade dos contactos culturais peninsulares, a evolução dos usos religiosos e a longa história da Sé de Braga. Não sabemos todos os episódios que marcaram a vida do cálice, nem devemos preencher as lacunas documentais com certezas artificiais, mas sabemos que sobreviveu a cerca de mil anos de transformações e que continua a colocar perguntas aos historiadores.
Quando o visitante se detém diante do Cálice de São Geraldo, no Tesouro-Museu da Sé de Braga, não está apenas perante uma peça antiga de prata dourada. Está diante de um fragmento material de um mundo que desapareceu, mas que deixou marcas suficientemente fortes para chegarem até nós. Talvez tenha começado por acompanhar uma mesa aristocrática; a sua história posterior conduziu-o ao património religioso, onde adquiriu um significado que hoje associamos à tradição eucarística. Entre uma realidade e a outra existe um milénio de história, feito de mudanças políticas, práticas religiosas e memórias transmitidas de geração em geração.
Afinal, a grandeza de certos objectos não reside apenas no ouro, na prata ou na habilidade de quem os fabricou, mas também na quantidade de tempo que conseguiram atravessar e na capacidade de nos obrigarem a olhar de outra maneira para a história que julgávamos conhecer. O Cálice de São Geraldo é uma dessas peças, anterior à nacionalidade e ligado à memória religiosa de Braga, que nos recorda como a história de Portugal começou muito antes de Portugal ter um rei. E talvez seja essa a sua maior lição: antes de o país ter um nome de reino, já havia uma história a ser escrita, e algumas das suas páginas mais antigas continuam, mil anos depois, ao alcance dos nossos olhos.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

Cantanhede | Valores dos impostos municipais aprovados por maioria. Câmara Municipal mantém taxas de IMI, Derrama, IRS e TMDP para 2027

 
O Executivo Municipal deliberou aprovar, por maioria, na última reunião camarária, a proposta de manutenção, para 2027, do Imposto Municipal sobre Imóveis (IMI) em 0,38%, assim como a aplicação do designado IMI Familiar para os agregados familiares com dependentes a cargo, que prevê a redução em função do agregado familiar e que se vai manter nos 30 euros nas famílias com um dependente, 70 euros com dois dependentes e 140 euros com três ou mais dependentes-
Ao manter a taxa fixa de IMI em 0,38% (quando a taxa máxima admitida por lei é de 0,45%), a Câmara Municipal de Cantanhede está a abdicar de uma receita anual na ordem de 1,2 milhões de euros. A este montante junta-se cerca de 133 mil euros pelos benefícios resultantes do IMI familiar.
O mesmo princípio foi aplicado em relação à Derrama [imposto municipal que incide sobre o lucro tributável das empresas], que isenta as empresas com um volume de negócios que, no ano anterior, não ultrapasse 150 mil euros. Ficam assim dispensados do pagamento desta taxa sobre o lucro tributável sujeito e não isento do Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Coletivas (IRC) os agentes económicos que não superem o referido valor de faturação, mantendo-se a taxa em 1,5% para as restantes, abdicando, também nesta situação, de uma receita anual de 1,13 milhões de euros relativa às 851 empresas que em 2025 não pagaram derrama.
“Não seria prudente reduzir estruturalmente uma receita estável enquanto as responsabilidades municipais, os custos e a incerteza face à conjuntura atual permanecerem elevados”, justifica a presidente da Câmara Municipal, Helena Teodósio, adiantando que “a questão decisiva é não comprometer investimento, serviços públicos, equilíbrio orçamental e capacidade de resposta a imprevistos".
Na reunião do Executivo Municipal foram ainda aprovadas, para o ano de 2027, as taxas de 5% no IRS – igual ao ano anterior -, bem como de 0,25% da taxa municipal de direitos de passagem (TMDP).
Os documentos seguem agora para aprovação pela Assembleia Municipal de Cantanhede.

domingo, 11 de outubro de 2026

FINALMENTE...

 
Sim, finalmente, foi encontrada uma solução para o armazenamento da logística (esqueleto) da ADASCA. Obrigado à Câmara Municipal de Aveiro, na pessoa do seu Presidente Dr. Luís Manuel Souto de Miranda como a todas as outras pessoas envolvidas na procura da solução. Não esquecendo a senhora Marina Vieira, proprietária da loja que foi ocupada pela ADASCA durante uns 18 anos em regime de pro bono. Não somos tão ingratos quanto fazem querer.
Os comunicados emitidos para a imprensa, bem podiam ter sido evitados. Devemos destacar que nunca colocámos em causa a realização das obras (nem sequer nos assistia poderes para tal), mas, sim a forma como o processo de desocupação foi conduzido. Oficialmente, nunca fomos notificados através de carta regista c/aviso de recepção como determinam as boas práticas na administração pública (?), nem sequer o direito de resposta funcionou, tudo por via de telefone. Afinal, para que serve o Código de Procedimento Administrativo (CPA)? Apenas para ser visto na secretária ou na estante? Não se aplica aos eleitos em pleno exercício de funções, por via do voto de confiança pedida aos eleitores? Tenho três edições lidas e sublinhadas/anotadas.
Mercado Municipal de Santiago em obras, onde a ADASCA funcionou durante 18 anos.

Vamos deixar que o tempo fale mais alto do que nós. Em abono da verdade, não estávamos preparados para aquela confusão. A ADASCA completa no ano em curso, o seu 20º. aniversário com uma actividade ininterrupta e histórica, de interesse público na área da saúde, com relevantes serviços prestados ao Serviço Nacional de Saúde (SNS). Não são 20 meses e umas quantas semanas...
Nunca nos esquivamos ao diálogo, à palavra dada, compromissos de honra. Todos os elementos dos órgãos sociais (11 no total) são pessoas idóneas, de bem. Como presidente da Direcção estarei sempre na sua defesa. Afinal, para que serve a eleição de um presidente? Segundo o proverbio latino Post nubila phoebus, depois da tempestade vem a bonança. Assim seja, porque necessitamos de bom senso e de quem nos queira ajudar. Quem está interessado na desestabilização? Nós não. Em conformidade com os seus estatutos, a ADASCA é apartidária, sem preconceitos.
Tivemos de nos desfazer de material que posteriormente nos vai ser necessário. Objectivamente, não estamos contra a ninguém, nem colocamos nas suas bocas o que não disseram. Apenas não concordámos como o processo foi conduzido, ponto. A nossa missão é em prol da dádiva de sangue, a favor da comunidade aveirense e daqueles que necessitam de componentes sanguíneos todos os dias.
Recordo uma frase que se aplica neste caso: " Se nada de errado houvesse no mundo nada teríamos para fazer." George Bernard Shaw - 1856-1950, Dramaturgo Irlandês.
Finalmente, chegou a bonança. Acreditamos que sim. Os relevantes serviços que prestamos todos os dias ao SNS deviam calar os maldizentes, os mal intencionados. Vivemos numa sociedade democrática, de respeito pelos que pensam diferente, ou, onde reina o medo? Os mais de 3800 dadores associados estão atentos. Sobre os que estão contra nós (?), oxalá, que nunca venham a necessitar de quem estende os braços. Os dadores de sangue. Deus a seu tempo cumpre com a Justiça Divina.
Quem não nos apoia, não lhe assiste autoridade moral para se pronunciar sobre a ADASCA. “Numa democracia, é essencial a consciência da responsabilidade, a responsabilização daqueles que detêm o poder e o exercem.” Karl Popper (1902-1994).
Quanto ao apoio financeiro, a ADASCA foi ou não excluída? Em que situação se encontra a sua candidatura, entregue dentro prazo, com toda documentação solicitada? Não existem dívidas públicas nem privadas. Quantos podem fazer esta afirmação? Os apoios distribuídos são com dinheiro dos contribuintes. Separar os factos das fantasias. É importante distinguir aquilo que realmente está a acontecer daquilo que apenas imaginamos.

Joaquim Carlos
Fundador/Presidente da Direcção da ADASCA

NB: Disponível no site http://www.adasca.pt/node/2184

Ana Miguel Monteiro eleita Presidente da JSD Aveiro após a maior participação dos últimos anos


A Lista C - Continuar com Aveiro, liderada por Ana Miguel Monteiro, venceu as eleições intercalares para a Comissão Política Concelhia da JSD Aveiro. O ato eleitoral levou 49 militantes às urnas e registou, segundo os dados internos da estrutura, a maior afluência dos últimos anos. 

49 VOTANTES 
A participação assume particular significado num processo eleitoral em que foi publicamente apontada uma alegada «inércia» à JSD Aveiro. Para a Lista C, a mobilização registada neste ato eleitoral demonstra precisamente o contrário: uma estrutura ativa, com debate interno, militantes envolvidos e vontade de participar na definição do seu futuro. 
Ana Miguel Monteiro, que exerceu funções de Vice-Presidente da JSD Aveiro durante o último ano e meio, assume agora a Presidência da Comissão Política Concelhia para concluir o atual mandato. 
«Os militantes demonstraram que a narrativa de inércia na JSD Aveiro é uma falácia. Tivemos a maior participação dos últimos anos e isso mostra uma estrutura viva, mobilizada e com vontade de continuar a evoluir.» 

Continuidade, estabilidade e evolução 
A nova Comissão Política não encara este momento como o início de um novo mandato, mas como a responsabilidade de dar continuidade ao trabalho já desenvolvido, garantir estabilidade à estrutura e continuar o seu processo de evolução. 
A prioridade passa por consolidar o caminho percorrido, manter a proximidade aos militantes e às freguesias e continuar a criar espaço para novas pessoas, novas ideias e maior participação dos jovens do concelho. 
«Este resultado não é um ponto de chegada. É a responsabilidade de continuar um trabalho que já vinha a ser feito, perceber onde podemos melhorar e continuar a fazer evoluir a nossa estrutura.»

Depois das eleições, o foco regressa ao trabalho 
Concluído o processo eleitoral, Ana Miguel Monteiro defende que a prioridade passa agora por unir a estrutura em torno do trabalho a desenvolver até ao final do atual mandato. A nova Presidente pretende manter uma JSD Aveiro aberta ao diálogo, à participação e à apresentação de propostas, independentemente da opção de cada militante neste ato eleitoral. 
«As eleições são um momento de escolha democrática. Depois da escolha, continuamos todos a fazer parte da mesma estrutura. Quero que estes tempos em diante sejam feitos com participação, diálogo e respeito pelas diferentes opiniões.»
A Lista C - Continuar com Aveiro assume, assim, a responsabilidade de concluir o atual mandato da Comissão Política Concelhia da JSD Aveiro, com o compromisso de transformar a mobilização demonstrada nas urnas em participação futura. 
Para Ana Miguel Monteiro, os resultados eleitorais representam sobretudo uma responsabilidade: corresponder à confiança dos militantes, consolidar o trabalho realizado e contribuir para que a JSD Aveiro continue a crescer de forma participativa, próxima e representativa. 

«Hoje termina uma eleição. Amanhã continuamos o trabalho.»

sábado, 10 de outubro de 2026

Opinião - São rosas, meu Senhor

 

As semelhanças entre a Rainha Santa Isabel de Portugal e a Rainha Santa Isabel da Hungria

Há histórias que atravessam fronteiras, vencem séculos e parecem repetir-se como se a História, de vez em quando, gostasse de esconder nas suas páginas os mesmos símbolos, à espera de alguém que os descubra. A lenda do milagre das rosas é uma dessas histórias, associada a duas mulheres que viveram em cortes medievais europeias, conheceram de perto o poder, fizeram da caridade uma missão e acabaram por ser veneradas como santas. Uma foi Isabel da Hungria, princesa da dinastia dos Árpades, que viveu no século XIII; a outra, Isabel de Aragão, rainha de Portugal, que a memória colectiva consagrou como Rainha Santa Isabel. Entre ambas existe uma proximidade histórica e espiritual que merece ser explorada, mas também um pormenor fascinante que importa esclarecer desde o início: o milagre das rosas está associado às duas santas, embora as versões da lenda não tenham exactamente a mesma origem nem a mesma solidez documental.

É precisamente aqui que começa a viagem, porque, quando duas figuras separadas por centenas de quilómetros partilham um nome, uma vocação religiosa, uma condição régia e uma narrativa lendária tão semelhante, vale a pena perguntar o que as aproxima, como se formou essa tradição e de que maneira a memória de ambas transformou a caridade numa das imagens mais duradouras da santidade medieval.

Duas Isabeles, uma mesma Europa medieval

Para compreender esta aproximação, temos de recuar ao século XIII, uma época em que a Europa era atravessada por rivalidades dinásticas, alianças matrimoniais, conflitos entre monarquias e poderes senhoriais, mas também por uma profunda religiosidade, na qual a assistência aos pobres, a protecção dos doentes e a fundação de hospitais constituíam expressões concretas da fé cristã. Foi neste mundo, muito diferente do nosso, que nasceram duas mulheres destinadas a ficar na memória colectiva não apenas pelo sangue régio que lhes corria nas veias, mas sobretudo pela maneira como procuraram colocar a riqueza e a posição social ao serviço dos mais desfavorecidos.

Isabel da Hungria nasceu em 1207, filha do rei André II da Hungria, e foi ainda muito jovem enviada para a Turíngia, no território da actual Alemanha, onde casou com Luís IV, landgrave da Turíngia. A sua vida, porém, não correspondeu ao modelo de existência faustosa que tantas vezes associamos às princesas medievais, pois Isabel desenvolveu uma relação muito próxima com os pobres, os doentes e aqueles que viviam à margem da sociedade, promovendo obras de assistência e participando pessoalmente em actos de caridade. Depois da morte prematura do marido, em 1227, dedicou-se ainda mais intensamente à assistência aos necessitados, tendo vivido os últimos anos em Marburgo, onde morreu em 1231, com apenas 24 anos. A sua fama de santidade espalhou-se rapidamente e foi canonizada pelo papa Gregório IX em 1235, apenas quatro anos depois da sua morte, num processo que demonstra a extraordinária repercussão que a sua vida alcançou no mundo cristão.

Quase quatro décadas depois do nascimento de Isabel da Hungria, veio ao mundo, em 1271, Isabel de Aragão, filha do rei Pedro III de Aragão, que viria a casar com D. Dinis, sexto rei de Portugal, em 1282. E é aqui que a História nos oferece uma ligação que torna esta comparação ainda mais fascinante: Santa Isabel da Hungria era tia-avó da Rainha Santa Isabel de Portugal, uma relação de parentesco que aproxima duas mulheres da mesma família alargada, ligadas pelas complexas redes dinásticas que uniam as casas reinantes da Europa medieval. A rainha portuguesa era descendente da linhagem familiar em que se integrava a santa húngara, pelo que a semelhança entre as duas não se limita à coincidência de nomes ou à partilha de uma tradição religiosa.

A princesa aragonesa chegou a Portugal ainda adolescente e encontrou uma corte onde o exercício do poder, a administração do reino e a vida religiosa coexistiam num equilíbrio nem sempre simples, mas viria a construir uma identidade própria, marcada pela assistência aos pobres, pelo apoio a instituições religiosas e hospitalares e pela intervenção em conflitos que ameaçavam a paz do reino. A sua acção ficou ligada à protecção dos mais vulneráveis e à capacidade de intervir em momentos de tensão política, incluindo as disputas entre D. Dinis e o seu filho, o futuro D. Afonso IV. Morreu em Estremoz, em 1336, e foi canonizada pelo papa Urbano VIII em 1625.

Temos, assim, duas mulheres de sangue régio, pertencentes à mesma família alargada e separadas por várias décadas, que viveram em contextos políticos diferentes, mas partilharam uma concepção da fé que não se esgotava na oração, nos rituais ou na magnificência das cerimónias da corte. Para ambas, a devoção religiosa exigia consequências práticas, significando alimentar quem tinha fome, amparar quem estava doente e reconhecer dignidade a quem a sociedade medieval frequentemente relegava para os lugares mais baixos da hierarquia social. É precisamente nesta convergência entre linhagem, poder e caridade que encontramos a primeira grande semelhança entre as duas Isabeles, antes mesmo de chegarmos às rosas que haveriam de as unir na imaginação popular.

O pão escondido debaixo do manto

Imaginemos agora uma cena de Inverno, um castelo medieval, os corredores de pedra e uma mulher que abandona a segurança da corte levando consigo alimentos destinados a quem pouco ou nada tem para comer. O gesto parece simples, quase banal aos olhos de quem vive num mundo onde a caridade é frequentemente reduzida a uma transferência bancária ou a uma campanha de recolha de alimentos, mas, na sociedade medieval, a distribuição de pão aos pobres podia adquirir uma dimensão social e religiosa extraordinária, sobretudo quando praticada por alguém que ocupava uma posição tão elevada na hierarquia política.

É neste cenário que surge a narrativa que tornou célebres as duas santas. Na versão associada a Isabel da Hungria, a princesa transportaria alimentos para os pobres, escondidos nas dobras do manto, quando se cruzou com o marido, Luís da Turíngia, ou, segundo algumas variantes, com outros membros da família senhorial. Questionada sobre o que levava, teria respondido que eram rosas; ao abrir o manto, em vez do pão que transportava, surgiriam flores, num acontecimento interpretado como sinal da protecção divina sobre a sua caridade. Na versão portuguesa, a cena ganhou uma expressão verbal que se tornou inseparável da identidade nacional da Rainha Santa: Isabel de Portugal levava pães no regaço para os distribuir aos necessitados quando D. Dinis a surpreendeu e lhe perguntou o que escondia. A resposta, segundo a tradição, foi imediata: «São rosas, meu Senhor». O rei, estranhando a existência de rosas em pleno Inverno, terá insistido, e a rainha abriu o regaço, revelando as flores onde deveriam estar os pães.

A semelhança é evidente e não se limita à presença das rosas. Nas duas histórias encontramos uma mulher de sangue real, alimentos destinados aos pobres, um gesto de caridade que suscita uma pergunta e uma resposta que transforma uma situação potencialmente embaraçosa num episódio de significado sobrenatural. O manto ou o regaço funciona como o lugar do segredo, o pão representa a necessidade material e as rosas constituem o sinal visível de uma realidade que ultrapassa a simples troca de objectos. A própria estação do ano, frequentemente apresentada como Inverno, reforça o carácter extraordinário do acontecimento, porque a flor aparece quando a natureza parece negar a sua existência, fazendo da rosa não apenas uma planta, mas uma imagem de esperança, pureza e abundância inesperada.

Há, contudo, uma diferença importante que merece ser sublinhada. Na tradição portuguesa, a pergunta atribuída a D. Dinis e a resposta da rainha ganharam uma formulação particularmente memorável, repetida de geração em geração, ao ponto de a expressão «São rosas, meu Senhor» se ter convertido numa espécie de senha cultural, imediatamente reconhecida mesmo por quem pouco sabe sobre a vida da soberana. No caso húngaro, a narrativa também apresenta o marido a interrogar Isabel, mas as versões variam nos pormenores, na identidade de quem a surpreende e no próprio desenvolvimento do episódio. A tradição popular aproximou as duas histórias até quase as tornar gémeas, mas o historiador tem de resistir à tentação de as tratar como relatos documentais de acontecimentos comprovados, distinguindo a memória religiosa daquilo que as fontes permitem efectivamente demonstrar.

O que nos dizem, afinal, os documentos históricos?

É aqui que a investigação histórica se torna particularmente interessante, porque a semelhança entre as duas lendas não significa que estejamos perante dois acontecimentos comprovados, nem permite concluir, sem mais provas, que uma narrativa foi simplesmente copiada da outra. A hagiografia, isto é, a escrita das vidas dos santos, obedecia a convenções próprias, valorizando virtudes, episódios exemplares e sinais extraordinários que permitissem transmitir aos fiéis uma imagem concreta da santidade. Ao longo da Idade Média, estas narrativas circularam entre mosteiros, ordens religiosas, cortes e comunidades de peregrinos, sendo adaptadas a diferentes contextos e adquirindo novos pormenores à medida que os cultos se desenvolviam.

No caso de Isabel da Hungria, dispomos de documentação muito próxima da sua morte, incluindo testemunhos de mulheres que conviveram com ela e registos associados ao seu processo de canonização, iniciado pouco depois de 1231. Esses documentos permitem conhecer aspectos importantes da sua caridade e da sua espiritualidade, mas a célebre cena dos pães transformados em rosas não aparece nos primeiros testemunhos conhecidos com a mesma configuração que alcançaria nas versões posteriores da lenda. A investigação historiográfica tem, por isso, chamado a atenção para a distância entre a documentação inicial e a tradição popular que se consolidou mais tarde.

A situação portuguesa oferece uma pista igualmente reveladora. Num estudo académico publicado em 2015 no Boletim de Estudos Clássicos, Helena Maria Ribeiro Almeida Costa Toipa analisou a narrativa do milagre das rosas na biografia latina da Rainha Santa Isabel escrita pelo jesuíta Pedro João Perpinhão entre 1557 e 1561. A autora salienta que, segundo o próprio Perpinhão, o episódio não figurava nos documentos escritos anteriores relativos à vida da rainha, sendo conhecido através da tradição oral. O relato escrito que hoje associamos tão intimamente à soberana portuguesa terá, portanto, adquirido forma literária num contexto bastante posterior à sua morte, embora isso não permita determinar com exactidão quando nasceu a lenda ou como circulou nas suas primeiras versões.

Este pormenor altera a maneira como devemos olhar para a história. Não estamos obrigados a escolher entre acreditar ingenuamente em todos os detalhes da narrativa ou rejeitar a importância da tradição por não dispormos de provas documentais suficientes para confirmar o milagre. O trabalho do historiador consiste precisamente em distinguir planos diferentes: a existência histórica das duas mulheres, a documentação das suas práticas de caridade, a evolução dos respectivos cultos e a construção de uma memória religiosa que encontrou nas rosas uma das suas imagens mais poderosas.

E há um aspecto que merece especial atenção: a lenda das rosas não pertence exclusivamente a estas duas Isabeles. Narrativas semelhantes foram também associadas a outras figuras veneradas, entre as quais Santa Zita de Lucca e Santa Cacilda, o que demonstra a capacidade de determinados motivos religiosos para circularem entre diferentes tradições hagiográficas. A investigação de Liliana Sousa, publicada em 2021 na revista Via Spiritus, da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, estuda precisamente os paralelismos entre as vidas e os milagres de Isabel da Hungria e Isabel de Aragão, mostrando como a imagem de ambas foi sendo construída e transmitida ao longo dos séculos.

Não seria, por isso, rigoroso afirmar que o milagre aconteceu exactamente da mesma forma às duas santas, nem que uma delas foi necessariamente a primeira a protagonizá-lo na tradição que chegou até nós. O que podemos afirmar é que a associação das duas mulheres à mesma narrativa constitui um fenómeno histórico e cultural digno de estudo, sobretudo porque ambas partilhavam laços de parentesco e um modelo de santidade profundamente marcado pela caridade.

A herança franciscana: quando a santidade desce do castelo

Existe ainda uma dimensão que aproxima estas duas mulheres e que ajuda a compreender por que razão a sua memória atravessou os séculos com tamanha força: a ligação à espiritualidade franciscana, centrada na pobreza, na humildade e no reconhecimento de Cristo nos mais pobres. Não se trata de afirmar que as duas seguiram percursos religiosos rigorosamente idênticos, mas de reconhecer que a sua imagem de santidade se desenvolveu num ambiente espiritual em que as obras de misericórdia e a proximidade aos mais necessitados assumiam uma importância crescente.

Isabel da Hungria tornou-se uma das figuras mais emblemáticas da espiritualidade franciscana feminina, sendo particularmente relevante para a difusão do ideal de santidade entre mulheres que, apesar de casadas e pertencentes à aristocracia, procuravam viver a fé através da assistência aos pobres, da renúncia ao luxo e do serviço aos doentes. Isabel de Portugal, por seu lado, ficou associada à tradição franciscana e à fundação e protecção de instituições religiosas, tendo terminado a vida junto do mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde aprofundou a sua dedicação religiosa depois da morte de D. Dinis. A aproximação entre ambas não reside apenas na lenda das rosas, mas também na maneira como a tradição cristã passou a representar a mulher de sangue real que utiliza a sua posição para servir aqueles que não dispõem de poder ou riqueza.

A imagem é particularmente expressiva quando pensamos na sociedade medieval, onde o nascimento determinava grande parte do destino individual e a distância entre a corte e os mais pobres podia ser enorme. Uma princesa ou uma rainha que atravessava essa distância para levar alimento a quem tinha fome oferecia, por si só, um exemplo suficientemente forte para alimentar a memória colectiva. A rosa acrescentava-lhe uma dimensão simbólica: aquilo que poderia ser visto como uma simples distribuição de pão passava a representar a transformação da realidade pela caridade, fazendo do gesto quotidiano uma imagem duradoura de santidade.

É também por isso que não devemos reduzir a Rainha Santa Isabel à sua famosa resposta ao marido, como se toda a sua existência coubesse num episódio ocorrido numa manhã de Inverno. A soberana portuguesa desempenhou um papel relevante na mediação de conflitos políticos e familiares, incluindo a tensão entre D. Dinis e o futuro D. Afonso IV, e a sua memória ficou ligada a práticas de assistência e a instituições religiosas que ultrapassaram largamente os limites da lenda. De igual modo, a importância histórica de Isabel da Hungria não se resume às rosas, pois a sua dedicação aos pobres e aos doentes, documentada por testemunhos próximos da sua vida, ajuda a explicar a rapidez com que o seu culto se difundiu pela Europa.

As duas Isabeles foram, portanto, muito mais do que personagens de uma narrativa piedosa. Foram mulheres que viveram numa época em que a religião ocupava um lugar central na organização da sociedade e que, cada uma à sua maneira, contribuíram para consolidar um modelo de santidade em que a compaixão pelos mais vulneráveis se tornava uma forma de intervenção no mundo.

São rosas, meu Senhor

Voltemos, por fim, à frase que dá título a este artigo, porque poucas expressões da tradição portuguesa conseguiram condensar tanta memória histórica e religiosa em tão poucas palavras. «São rosas, meu Senhor» tornou-se uma das respostas mais reconhecidas da nossa cultura popular, repetida em sermões, pinturas, procissões, representações teatrais e conversas familiares, quase sempre acompanhada pela imagem da rainha que, perante a pergunta do marido, revela flores onde deveriam estar os alimentos destinados aos pobres.

Mas a força desta expressão reside também naquilo que nos permite descobrir quando ultrapassamos a fronteira nacional. A mesma imagem encontra-se associada a Isabel da Hungria, tia-avó da rainha portuguesa, mostrando como a memória dos santos não respeita necessariamente as fronteiras que hoje separam os países e como as tradições religiosas europeias partilharam narrativas, símbolos e modelos de virtude. Portugal apropriou-se desta história e fez dela uma das imagens mais queridas da sua identidade religiosa, mas o episódio pertence a um universo cultural muito mais vasto, no qual a caridade, o pão e as rosas constituem elementos de uma linguagem simbólica comum.

Como historiador, considero essencial manter a distinção entre o que os documentos demonstram e aquilo que a tradição transmitiu, porque a História não perde interesse quando reconhecemos as incertezas das suas fontes; pelo contrário, torna-se mais fascinante quando descobrimos como uma narrativa nasceu, se transformou e conquistou o imaginário de diferentes gerações. Não dispomos de provas suficientes para confirmar o milagre das rosas como acontecimento literal, mas dispomos de elementos que permitem compreender a existência histórica das duas mulheres, a sua dedicação aos pobres e a extraordinária vitalidade dos cultos que se desenvolveram em torno delas.

Talvez seja essa a verdadeira razão pela qual as duas Isabeles continuam a falar-nos tantos séculos depois. Numa Europa medieval marcada por hierarquias rígidas, em que o pão representava a sobrevivência e a riqueza se concentrava nas mãos de poucos, a imagem de uma rainha que escondia alimentos para os distribuir aos necessitados tornou-se uma forma de recordar que a grandeza não se mede apenas pelo poder que se possui, mas também pela maneira como esse poder é colocado ao serviço dos outros.

E assim, entre a Hungria e Portugal, entre o século XIII e a memória dos nossos dias, duas mulheres ligadas pelo sangue e pela tradição religiosa continuam a encontrar-se no mesmo símbolo, como se a História tivesse escolhido uma flor para nos recordar que a caridade não conhece fronteiras e que, por vezes, uma lenda pode revelar tanto sobre os valores de uma sociedade como os documentos mais solenes dos seus reis.

Porque, no fim, as rosas não são apenas rosas. São a memória de duas Isabeles, de uma Europa que reconheceu na caridade um caminho para a santidade e de uma frase que Portugal guardou com particular carinho, como se ainda hoje esperasse ouvir, diante de um mundo tantas vezes indiferente à pobreza, a resposta que atravessou os séculos: «São rosas, meu Senhor».

*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

Fontes e leituras para aprofundamento
Liliana Sousa, «As vidas e os milagres de Isabel da Hungria e Isabel de Aragão: estudo de duas Santas dos séculos XIII-XIV», Via Spiritus, n.º 28, 2021, pp. 165–191. Consultar o estudo académico.
Helena M. R. A. Costa Toipa, «O milagre das rosas em De Vita et Moribus Beatae Elisabethae Lusitaniae Reginae de Pedro João Perpinhão», Boletim de Estudos Clássicos, n.º 60, 2015, pp. 131–141. Consultar o artigo.