Estudo
de investigadoras portuguesas identifica os principais fatores que
condicionam as escolhas alimentares e evidencia a distância entre as
preocupações dos consumidores e os seus comportamentos de compra.
Universidade
de Évora, 05 de novembro de 2026
A
preocupação com a saúde e o ambiente tem vindo a assumir um papel
cada vez mais relevante nas escolhas alimentares. Ainda assim,
reconhecer a importância de uma alimentação sustentável não
significa, necessariamente, optar por produtos mais responsáveis no
momento da compra. O
preço, a disponibilidade dos alimentos, os hábitos de consumo e a
confiança na informação disponibilizada aos consumidores estão
entre os fatores que ajudam a explicar esta diferença.
Esta
é uma das principais conclusões de um estudo desenvolvido por
Eunice Venâncio, recém-diplomada do Programa de Doutoramento em
Agronegócios e Sustentabilidade, por Maria Raquel Lucas,
investigadora da Universidade de Évora (MED&CHANGE), e Ana
Marta-Costa, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
(CETRAD). A investigação foi publicada na revista científica
internacional The International Review of Retail, Distribution and
Consumer Research.
Intitulado
Factors influencing food consumption in a sustainability context:
systematic literature review, o
trabalho procura compreender os fatores que influenciam as escolhas
alimentares num contexto de sustentabilidade e identificar os
principais obstáculos à adoção de práticas de consumo mais
responsáveis.
Os
resultados mostram que as decisões alimentares resultam da interação
entre fatores individuais, económicos, sociais e culturais. As
preocupações com a saúde e o ambiente coexistem com critérios
como o preço e o sabor dos alimentos, os hábitos de consumo, as
tradições culturais e a influência da família e dos amigos.
A
informação disponível também desempenha um papel importante,
assim como a confiança nos rótulos e nas certificações, que podem
ajudar os consumidores a identificar produtos alinhados com as suas
preocupações ambientais e de saúde.
Esta
diversidade de fatores demonstra
que as escolhas alimentares não dependem exclusivamente da
consciência ambiental ou do conhecimento sobre os benefícios de uma
alimentação sustentável. As decisões são igualmente
condicionadas pelas circunstâncias económicas, pela oferta
disponível e pelas rotinas de consumo.
Um
dos aspetos centrais identificados no estudo é a diferença
entre aquilo que os consumidores dizem valorizar e aquilo que
efetivamente compram e consomem.
Mesmo
quando existe vontade de adotar uma alimentação mais sustentável,
há obstáculos que podem impedir essa mudança.
Os
preços elevados, a disponibilidade limitada de produtos e a falta de
informação clara e credível dificultam a concretização de
escolhas mais responsáveis.
O
sabor dos alimentos, os hábitos adquiridos e as tradições
culturais são igualmente relevantes.
Alterar os padrões de consumo implica, por isso, mais do que
sensibilizar os cidadãos para as consequências ambientais e os
benefícios para a saúde das suas escolhas alimentares.
A
confiança na informação disponibilizada aos consumidores constitui
outro elemento importante. Os rótulos e as certificações podem
facilitar a identificação dos produtos, mas a sua influência
depende da credibilidade da informação e da capacidade dos
consumidores para a interpretar.
As
conclusões da investigação apontam para a necessidade
de ultrapassar uma abordagem centrada exclusivamente na
responsabilidade individual.
Embora as escolhas dos consumidores sejam importantes, a adoção de
padrões alimentares mais sustentáveis depende também das condições
em que essas escolhas são feitas.
Segundo
os resultados do estudo, é
fundamental criar condições que tornem as opções sustentáveis
mais acessíveis, economicamente viáveis, atrativas e fáceis de
identificar.
O objetivo passa por reduzir os obstáculos que separam a intenção
de consumir de forma responsável da possibilidade efetiva de o
fazer.
Esta
perspetiva tem implicações para diferentes intervenientes do
sistema alimentar, desde as empresas agroalimentares e os
distribuidores até aos decisores políticos e às organizações da
sociedade civil.
O
conhecimento dos fatores que influenciam as decisões de compra pode
contribuir para desenvolver estratégias de comunicação e
comercialização mais eficazes, bem como políticas públicas
capazes de promover sistemas alimentares mais sustentáveis,
saudáveis e socialmente inclusivos.
Ao
evidenciar a distância entre as preocupações declaradas pelos
consumidores e os seus comportamentos efetivos, o
estudo contribui para uma compreensão mais abrangente dos desafios
associados à transição para padrões de consumo alimentar mais
responsáveis.
Para
compreender o que determina as escolhas dos consumidores, as
investigadoras analisaram 110 artigos científicos publicados entre
2010 e 2024, através de uma revisão sistemática da literatura.
* Divisão de Comunicação da Universidade de Évora
Andreia
Rosa [Coordenação]
Marco
Cardoso [Ciência e Investigação]
Pedro
Conceição [Institucional]