Miguel Poiares
Maduro, professor universitário e ex-ministro Adjunto e do
Desenvolvimento Regional foi o orador convidado para prosseguir o
ciclo de conferências “Cidadania, liberdade e democracia no século
XXI”, iniciativa inserida no projeto “Jaime Cortesão
Intelectual, Historiador e Resistente: Memória, Exposição e
Musealização”, que visa promover
uma reflexão crítica sobre o significado da cidadania ativa nas
democracias contemporâneas, inspirando-se na vida e obra de Jaime
Cortesão enquanto intelectual, historiador, político, humanista e
resistente.
Os estudos que
avaliam a qualidade da democracia, através de diferentes índices e
classificações dos regimes políticos, analisam a evolução dos
países com base em indicadores como a qualidade dos processos
eleitorais, os níveis de participação política, o pluralismo dos
meios de comunicação social e a liberdade de expressão.
Sob o tema “As
democracias liberais sob pressão: populismo, tecnologia e cidadania
no século XXI,” o
especialista em Direito Constitucional e em Direito da União
Europeia destacou quatro desses principais índices que apontam, nos
últimos anos, para uma degradação da qualidade média das
democracias e para uma diminuição do número de regimes
democráticos.
“Desde a
queda do Muro de Berlim, e o aparecimento de várias democracias na
sequência disso, nunca o número de democracias plenas e os regimes
qualificados como democracia foi tão baixo”, apontou.
De acordo com
Miguel Poiares Maduro, Portugal e a Europa estão perante uma crise
democrática marcada pelo crescimento das forças populistas e pela
consequente perda de confiança dos cidadãos na democracia.
Para o
especialista, este fenómeno explica-se, em grande medida, pela
erosão do sentimento de representação política: os cidadãos
sentem cada vez menos que são ouvidos e representados pelas
instituições e que o regime democrático é capaz de defender os
seus interesses.
“O
‘Terroir’ da democracia é que está a mudar de forma profunda e
está a perder qualidades”, frisou.
Para o
especialista este “Terroir
Democrático” só é viável
se existir um ecossistema
democrático assente na racionalidade, na capacidade de distinguir a
verdade da mentira e no diálogo entre cidadãos. Miguel Poiares
Maduro defende a reconstrução dos pressupostos cognitivos,
epistémicos e relacionais da democracia para devolver à decisão
coletiva um espaço de diálogo, compreensão mútua e construção
de consensos.
Para o antigo
advogado-geral do Tribunal da Justiça da União Europeia a transição
digital está a alterar a forma como formulamos a nossa opinião,
como determinamos aquilo que é verdade ou mentira e como interagimos
com os outros.
“Os meios
digitais não estão apenas a mudar o nosso acesso à informação;
estão a mudar a forma como nos relacionamos com essa informação e
a mudar a forma como os nossos cérebros raciocinam”.
Para Miguel
Poiares Maduro, uma das medidas que poderia ser implementada para
contrariar esta tendência passa pela criação de um serviço de
moderação de conteúdos nas plataformas digitais. Na sua
perspetiva, o Estado poderá também desempenhar um papel na promoção
do pluralismo, garantindo maior diversidade de opiniões e
perspetivas no espaço digital.
O
vice-presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, Pedro Cardoso,
agradeceu a intervenção “notável do conferencista que
transformou uma abordagem complexa numa reflexão acessível e
cativante”.
“Poiares
Maduro conseguiu posicionar-se acima das trincheiras ideológicas e
utilizar o rigor científico e a ética como bússolas. Não é
apenas um analista, mas um construtor de pontes intelectuais que
privilegia a verdade factual, o conhecimento, os estudos, e o
interesse público sobre qualquer conveniência. Elogio a
independência do pensamento, a isenção analítica e a coragem
intelectual”, concluiu o
autarca.
O curador do
projeto, António Rafael Amaro,
investigador na área de
História Económica e Social Contemporânea, professor na Faculdade
de Economia da Universidade de Coimbra, já tinha destacado a
importância desta reflexão sobre
as condições necessárias ao fortalecimento de uma cultura de
cidadania democrática ativa e sublinhado o reconhecido e prestigiado
percurso académico e cívico do palestrante, que o tem afirmado como
uma das vozes portuguesas mais relevantes na reflexão sobre a
democracia, o constitucionalismo, a governação e os desafios
colocados pelas transformações contemporâneas do espaço público.
Depois da
conferência de abertura do passado dia 24 de junho subordinada ao
tema “Ciência, inovação e cidadania: conhecimento e democracia”,
proferida por Elvira Fortunato, e da intervenção de Miguel Poiares
Maduro, o ciclo contará ainda com a participação de outras
personalidades de reconhecido mérito, contribuindo para aprofundar o
debate em torno das questões da cidadania, da liberdade e da
democracia no século XXI.
A participação
é livre e constitui uma oportunidade única para ouvir uma das mais
destacadas figuras da ciência portuguesa e refletir sobre a
relevância do conhecimento na construção de uma sociedade mais
esclarecida, inclusiva e democrática.
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