Durante séculos, existiram em Portugal instituições que poucos portugueses conhecem e cuja história permanece praticamente esquecida. Chamavam-se gafarias e eram espaços destinados a acolher pessoas atingidas pela lepra, uma doença que provocava medo, rejeição e afastamento social. Localizadas frequentemente fora das muralhas das cidades e das povoações, estas instituições constituíram uma das primeiras formas organizadas de assistência aos doentes e marginalizados na sociedade portuguesa.
Muito antes de existirem hospitais modernos, sistemas públicos de saúde ou instituições de solidariedade social como hoje as conhecemos, já havia comunidades que procuravam encontrar respostas para aqueles que, devido à doença, eram afastados da vida quotidiana. As gafarias são um testemunho particularmente interessante dessa realidade e permitem compreender como a assistência, a religião e a organização social se cruzavam na Idade Média.
A palavra gafaria deriva de gafo, uma designação antiga atribuída às pessoas que sofriam de lepra, actualmente conhecida como doença de Hansen. Esta enfermidade, que pode provocar lesões na pele, perda de sensibilidade e danos neurológicos, era profundamente temida numa época em que o conhecimento médico era limitado e as suas formas de transmissão eram mal compreendidas.
Os doentes eram frequentemente afastados das comunidades, sendo obrigados a viver em espaços próprios, muitas vezes situados nos arredores das localidades. Contudo, seria errado olhar para as gafarias apenas como lugares de exclusão. Eram também instituições de assistência, com património, rendimentos, regras administrativas e responsabilidades na alimentação e no alojamento dos seus habitantes. Algumas possuíam terrenos agrícolas, casas, vinhas e outras propriedades que garantiam parte do seu sustento.
Um dos exemplos mais antigos e documentados encontra-se em Coimbra. Em 1210, D. Sancho I deixou no seu testamento uma verba de 10 000 morabitinos destinada à construção de uma gafaria na cidade, conhecida como Hospital de São Lázaro. Mais tarde, em 1329, D. Afonso IV concedeu-lhe um regimento que estabelecia regras de funcionamento e condições de vida dos seus habitantes. Este documento permite aos historiadores conhecer aspectos muito concretos da alimentação, da administração e da organização quotidiana de uma destas instituições medievais.
Mas a história das gafarias portuguesas não pode ser separada de uma figura fundamental da assistência em Portugal: a rainha D. Leonor.
Viúva de D. João II, D. Leonor esteve na origem da fundação da primeira Misericórdia portuguesa, em Lisboa, em 1498, com o apoio de D. Manuel I. A partir desse momento, as Misericórdias começaram a expandir-se pelo território nacional, assumindo progressivamente um papel central na organização da assistência aos pobres, doentes, órfãos e outros grupos vulneráveis.
Foi precisamente na sequência deste movimento, impulsionado por D. Leonor, que muitas Misericórdias assumiram a administração de antigas gafarias e hospitais de leprosos. Instituições que durante séculos tinham funcionado de forma autónoma passaram, em diferentes localidades, para a responsabilidade destas confrarias, que receberam os seus bens, rendimentos e encargos assistenciais. Este processo não aconteceu de forma simultânea em todo o reino, mas representou uma transformação importante na história da assistência portuguesa.
Um exemplo elucidativo encontra-se em Barcelos. Em 1520, D. Manuel I determinou a entrega dos bens e rendimentos da antiga gafaria e hospital à Misericórdia local, que passou a assumir a sua administração e as obrigações de assistência anteriormente existentes. É um episódio que demonstra como as Misericórdias não começaram simplesmente a construir uma rede de assistência do nada. Em muitos casos, deram continuidade a estruturas medievais que já existiam havia séculos.
E onde podemos encontrar vestígios destas instituições?
Em Lisboa existiu a Gafaria de São Lázaro, associada à zona da antiga Colina de Santana. Em Coimbra, a memória do Hospital de São Lázaro permanece ligada à antiga geografia da cidade e à designação Azinhaga dos Lázaros. Em Santarém existia uma gafaria documentada desde o século XIII, enquanto Beja e Almada também tiveram instituições destinadas aos doentes com lepra.
No Norte, Barcelos, Braga e Guimarães conservam referências documentais a estruturas de assistência relacionadas com os gafos. Estes exemplos demonstram que as gafarias não eram uma realidade exclusiva das grandes cidades. Faziam parte de uma rede assistencial espalhada por diferentes regiões do território português.
Um dos testemunhos arqueológicos mais interessantes encontra-se em Lagos, no Algarve. No chamado Vale da Gafaria, escavações arqueológicas permitiram identificar vestígios de uma antiga leprosaria e de uma necrópole associada, com enterramentos que remontam aos séculos XV a XVII. É um exemplo particularmente importante porque permite observar, através da arqueologia, uma realidade que durante muito tempo apenas conhecíamos através dos documentos escritos.
O desaparecimento progressivo das gafarias esteve relacionado com a evolução dos conhecimentos médicos, as alterações das condições sanitárias e a reorganização das instituições hospitalares. A lepra continuou, contudo, a existir em Portugal durante muitos séculos. Uma nova etapa da assistência especializada surgiu em 1947, com a inauguração do Hospital-Colónia Rovisco Pais, na Tocha, concelho de Cantanhede, concebido para acolher e tratar pessoas afectadas pela doença.
A história das gafarias merece ser recuperada porque nos revela algo que frequentemente esquecemos quando falamos da origem da assistência social portuguesa. Antes das Misericórdias, já existiam hospitais, albergarias e instituições que procuravam responder às necessidades dos mais vulneráveis. A grande transformação iniciada com D. Leonor permitiu reorganizar e integrar muitas dessas estruturas numa rede de solidariedade que viria a marcar profundamente a história nacional.
Há, porém, uma dimensão que ultrapassa a própria História da Medicina. As gafarias mostram-nos como uma sociedade lidava com aqueles que considerava diferentes, perigosos ou indesejáveis. Os doentes eram afastados, mas não eram completamente abandonados. Existia uma preocupação com a sua sobrevivência, ainda que marcada pelos preconceitos e pelas limitações de uma época muito diferente da nossa.
Hoje, quando passamos por determinadas ruas, hospitais antigos ou lugares com nomes como São Lázaro, raramente imaginamos que ali poderá ter existido uma instituição medieval destinada aos leprosos. A própria paisagem urbana conserva, por vezes, vestígios de uma história que já quase ninguém sabe interpretar.
As gafarias são, por isso, muito mais do que uma curiosidade medieval. São uma parte esquecida da história da saúde, da solidariedade e das instituições portuguesas. São também um testemunho de como a tradição assistencial que ajudou a formar as Misericórdias nasceu muito antes de estas adquirirem a importância que hoje lhes reconhecemos.
Porque, na História de Portugal, há instituições que desapareceram, mas cuja memória continua escondida nas ruas, nos edifícios e nos arquivos. O trabalho do historiador é precisamente voltar a descobri-las.
*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

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