segunda-feira, 20 de junho de 2016

Macroscópio – O dia em que os britânicos também votam o nosso futuro

Macroscópio

Por José Manuel Fernandes, Publisher
Boa noite!
 
O referendo de quinta-feira sobre a continuação do Reino Unido na União Europeia é um daqueles momentos que podem mudar mais do que a história de um país. Pode influenciar profundamente a história da Europa e ter um impacto que poucos se atrevem a medir sobre a tímida recuperação económica não apenas no Velho Continente, mas a uma escala mais geral. É também um daqueles momentos em que uma campanha por vezes bem rasteira (e que pode degenerar em momentos de violência, como o do assassinato da deputada trabalhista Jo Cox) é capaz coexistir, e coexiste, com um debate político e intelectual realmente interessante. Neste Macroscópio vamos tentar dar algumas pistas para seguir esse debate com um pouco mais de elevação.

Antes contudo de seguirmos para a imprensa inglesa deixem-me fazer referência a um pouco do que em Portugal tem sido publicado sobre este referendo e a perspectiva de um Brexit. Eis alguns dos textos mais relevantes:
  • A Rainha, a diferença britânica e o Brexit, de André Azevedo Alves no Observador, que recorda a história do Reino Unido para lembrar que “ao contrário do que acontece em muitos outros países, ao longo dos últimos séculos o sistema político britânico conseguiu evoluir gradualmente, num processo de sucessivos ajustamentos adaptativos por tentativa e erro, sem nunca ficar refém desses extremistas e loucos”.
  • O meu voto pelo Remain, de Fausto de Quadros, Professor Catedrático de Direito Constitucional Europeu, também no Observador, onde defende que “O melhor que poderia sair do referendo do dia 23, inclusive para nós, portugueses, seria a permanência do RU na UE e, simultaneamente, um revigoramento da UE no sentido da sua melhor adaptação aos tempos atuais e do seu aprofundamento.”
  • O referendo no Reino Unido e o seu impacto na realidade política europeia, de Francisco Assis, agora no Público, onde o eurodeputado do PS manifesta a esperança de que “um acontecimento tão traumático como seria a saída do Reino Unido [possa] ter o efeito de libertar energias até agora aprisionadas. Quer na França, quer na Alemanha, têm surgido importantes vozes políticas, do centro-esquerda e do centro-direita, a propor a criação de uma espécie de vanguarda europeia inspirada no modelo federalista.”
  • A call to Britain, de José Ribeiro e Castro, igualmente no Público, em que o autor manifesta a esperança de que os britânicos fiquem na Europa porque concorda com muitas das suas críticas à “contínua deriva centralizadora e ao modo autocrático ou oligárquico que prevalece nas instituições europeias”. Por isso o referendo deveria, para ele, “ser o novo Dia D, o dia em que os britânicos dizem isto: “Sim, somos europeus. Mas queremos uma União Europeia diferente; e vamos trabalhar para isso.” Na Europa, há centenas de milhões de cidadãos comuns à espera disto.”
  • O dia seguinte, de Miguel Monjardino no Expresso (paywall), onde se defende que “No dia 24, Lisboa deveria tomar uma iniciativa política — falar com a sociedade portuguesa sobre o futuro do país. Isso deverá suceder independentemente do resultado do referendo no Reino Unido sobre a União Europeia. Porquê? Sobretudo por causa do que tem vindo a acontecer ao nível euro-atlântico”.
  • Referendo britânico e eleições em Espanha: Em defesa do compromisso e da moderação, de João Carlos Espada, de novo no Observador, que nota que “Ao contrário do que tem sido dito por muitos analistas, devemos saudar o facto de a divisão sobre o referendo ter fundamentalmente passado pelo interior do partido conservador — o mais antigo partido de todas as democracias ocidentais, convém recordar.”
  • Contra o brexit marchar, marchar, de Leonídio Paulo Ferreira, no Diário de Notícias, que apesar do título da crónica, desdramatiza: “Prefiro sem dúvida uma União Europeia com os britânicos, mas, mesmo que no dia 23 ganhe o brexit, a geografia e a história continuarão a mantê-los europeus. E de certeza nossos aliados para o que der e vier, depois do choque inicial. É assim há pelo menos 600 anos”.
  • Reinos desunidos, “finis Europae”?, de José Manuel Sardica na Renascença, um texto onde o historiador faz o contrário e dramatiza bastante a sua posição: “Se a Grã-Bretanha sair, será o princípio do fim da UE. No imediato, obrigará a criar cenários e instrumentos nunca previstos nos quadros legais comunitários. (…) A médio prazo, abrir-se-ia o terrível precedente de que é possível… sair. Outros países pensariam no mesmo (…). A lógica da Europa foi sempre a da bicicleta: parar é cair, por isso a rota é em frente e para mais integração.”
  • Uma voz no Brexit, de Lucy Pepper, uma inglesa a viver há muitos anos em Portugal e que no Observador olha para a terra onde nasceu e nota que “o país se está a rasgar em duas partes (no momento em que escrevo, as sondagens dão 50/50), como o fervor nacionalista está a vir ao de cima, e perguntamo-nos se ainda pode ser pior: o país onde nascemos e crescemos está a tornar-se numa coisa que já não reconhecemos. Pelo menos, eu já não o reconheço.”

Realizado este rápido “tour d’horizon” da imprensa portuguesa, cruzemos o Canal da Mancha para destacar alguns textos cuja densidade e seriedade, defendendo posições bem diferentes, me chamaram a atenção. Começo por três que defendem a saída do Reino Unido da União Europeia e o fazem em termos que nada têm a ver com o histerismo da campanha ou o extremismo de alguns cartazes anti-imigração.


O primeiro desses textos é o editorial da velhíssima e muito respeitada revista Spectator, que tomou partida pela saída, o "Leave". Em Out – and into the world: why The Spectator is for Leave recorda-se que a publicação ficou muitas vezes isolada no passado e não teme estar de novo em minoria entre as elites. É um texto longo e bem argumentado onde se sublinha a excepcionalidade britânica e se defende a importância da soberania e das instituições: “The value of sovereignty cannot be measured by any economist’s formula. Adam Smith, the father of economics, first observed that the prosperity of a country is decided by whether it keeps its ‘laws and institutions’ healthy. This basic insight explains why nations thrive or fail, and has been the great secret of British success: intellectual, artistic, scientific and industrial. The principles of the Magna Carta and achievements of the Glorious Revolution led to our emergence as a world power. To pass up the chance to stop our laws being overridden by Luxembourg and our democracy eroded by Brussels would be a derogation of duty to this generation and the next.

Uma das vozes mais articuladas da campanha pelo Brexit é a do antigo secretário da Educação, Michael Gove, de que cito o texto publicado na Standpoint, Brexit Would Save Us And Set Europe An Example. É um texto centrado na defesa da ideia de que o acordo negociado por David Cameron para conseguir algumas excepções para o Reino Unido é insuficiente. Escreve ele, em defesa do Brexit: “From a British point of view, we would regain control of our borders, regain control of the £350 million of gross public expenditure which the EU supervises every week, regain control of trade so we could forge agreements with the rising nations of the East and the developing nations of the South, regain control of security so we could lead in the fight against extremism and regain control over our politicians by making them genuinely accountable once more for their actions.”

Tenho citado muitas vezes no Macroscópio o influente colunista de assuntos económicos do Telegraph, Ambrose Evans-Pritchard, e julgo que vale a pena voltar aos seus pontos de vista, agora expostos em Brexit vote is about the supremacy of Parliament and nothing else: Why I am voting to leave the EU. Este é um dos argumentos clássicos do debate britânico, presente tanto à esquerda como à direita e só compreensível se entendermos o respeito que os britânicos têm pelo “governo do Parlamento”, algo que para eles é regra desde a Gloriosa Revolução de 1689. Pequena passagem: “It is a quarter century since I co-wrote the leader for this newspaper on the Maastricht summit. We warned that Europe's elites were embarking on a reckless experiment, piling Mount Pelion upon Mount Ossa with a vandal's disregard for the cohesion of their ancient polities. We reluctantly supported John Major's strategy of compromise, hoping that later events would "check the extremists and put the EC on a sane and realistic path." This did not happen, as Europe's Donald Tusk confessed two weeks ago, rebuking the elites for seeking a “utopia without nation states" and over-reaching on every front.” (Já agora vale também a pena conhecer melhor as palavras de Donald Tusk, pelo que recomendo a leitura de Tusk blames 'utopian' EU elites for Eurosceptic revolt and Brexit crisis).

Passo agora a referir textos onde se defende de forma vigorosa e inteligente o “Remain”, começando também por um editorial de uma revista quase tão vetusta como a Spectator, mas porventura ainda mais respeitada: refiro-me à The Economist. Em Divided we fall faz-se uma defesa vigorosa de que “A vote to leave the European Union would diminish both Britain and Europe”. Eis um dos seus argumentos: “Even if Britain can leave the EU it cannot leave Europe. The lesson going back centuries is that, because Britain is affected by what happens in Europe, it needs influence there. If Germany is too powerful, Britain should work with France to counterbalance it. If France wants the EU to be less liberal, Britain should work with the Dutch and the Nordics to stop it. If the EU is prospering, Britain needs to share in the good times. If the EU is failing, it has an interest in seeing the pieces land in the right place.” (A revista publica também um ensaio mais longo e informativo, Europe: Between the borders, que também merece leitura atenta.)

Assumindo a sua condição de historiador, Antony Beevor (autor de obras como EstalinegradoParis Após a Libertação 1944-1949ou A Guerra Civil de Espanha), lembra a relação do Reino Unido com a Europa ao longo do século XX para defender, no Guardian, que o Brexit would make Britain the world’s most hated nation. É um texto escrito num registo bastante didático: “The origins of the EU lie in the second world war, but not in the way many people on both sides of the debate assume. Brexiters try to imply that European unification descends from Napoleon and Hitler, even though membership has hardly been imposed at the point of a bayonet. At the same time, defenders of the EU like to believe that it somehow prevented a third world war, when in fact peace depends rather more on good governance. Proper democracies do not fight each other.”

O Financial Times tem sido um dos mais vocais defensores da permanência do Reino Unido na União Europeia, o que não surpreende. De entre os muitos textos aí publicados, começo por fazer referência ao mais recente do seu colunista de assuntos europeus, Wolfgang Munchau, European values are more important than economics. Assumido europeísta, Munchau escreve que “So if you, like me, distrust the vastly exaggerated and implausible economic claims made by the Remain campaign, then consider an alternative line of reasoning: our values are under threat from people like Russian president Vladimir Putin, from Donald Trump if he were elected US president, and from bigots everywhere. They are under threat from global corporations that avoid paying taxes, and from countries that fail to respect climate agreements. (…) EU membership is not fundamentally about economics. It is about our way of life.”

Um registo bastante diferente é o do seu comentador económico do FT, o conhecido Martin Wolf, em Brexit imperils the confidence of strangers, um texto onde defende que “The uncertainty caused by a vote to leave the EU might trigger a sharp turnround in capital flows”. Mais: “The consequences of Brexit are unlikely to be limited to the UK. The direct impact of British economic instability on the world might not be large, though the eurozone is not in a good position to cope with negative shocks. But the indirect effects might be sizeable. Outsiders might view the UK’s departure as a sign that the EU is a sinking ship. Inside the EU, nationalists and xenophobes would take heart. Brexit might, in such ways, prove an important blow to the EU. (…) Yet perhaps the most important consequence might be as a signal of the sheer power of populist forces. If the UK can choose Brexit, maybe Donald Trump will become president of the US.”

No fim-de-semana, depois da morte de Jo Cox, as sondagens, que estavam a dar o “Leave” em alta, parecem ter começado a reflectir a tendência inversa. Mas todos sabemos como as sondagens costumam enganar-se no Reino Unido, provavelmente mais do que em qualquer outro lugar. Por isso, seja qual for a nossa inclinação, estes dias são e serão de enorme expectativa. É que mesmo considerando catastrofistas alguns dos cenários que nos têm vindo a ser apresentados, o tempo é de incerteza – e esta pode ser uma incerteza mais informada com a leitura de alguns dos Especiais que o Observador publicou nos últimos dias dedicados a uma abordagem mais aprofundada do Brexit: Brexit. O seu dinheiro está seguro?Caras e coroa. Quem é a favor e contra o "Brexit"; e Será assim tão "real" o risco de Reino Unido sair?

Tenham bom descanso e melhores leituras.

 
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