domingo, 3 de julho de 2016

OS CACETEIROS

Rui Peralta, Luanda
Num recente memorandum cerca de 50 altos funcionários do Departamento de Estado da administração norte-americana apelavam ao presidente Obama para autorizar o lançamento de uma ataque aéreo e utilização de misseis contra Damasco, para depor o Presidente Bashar al-Assad. Os altos funcionários argumentavam que esta acção militar deveria ser seguida de uma acção diplomática mais agressiva contra o governo sírio e pediam para que fosse aumentada a ajuda às forças da oposição armada na sua luta contra o governo de Assad. Resumindo, o Departamento de Estado propõe bombardeamentos a Damasco, a morte de soldados sírios e dos cidadãos que residam em Damasco para depor Assad e entregar o Poder às forças oposicionistas sírias.

Entre as várias questões que podem ser levantadas por esta atitude por parte de altos dignatários do Departamento de Estado – logo pelo próprio Departamento de Estado – e que podem ter reparos políticos, éticos e morais, uma destaca-se de forma premente e reveladora: é ao Congresso e não ao Presidente que cabe a declaração de guerra e para que isso aconteça seria necessário que a Síria atacasse os USA, algo que não aconteceu. Logo este comportamento do Departamento de Estado parece revelar (o que é inverosímil) um desconhecimento total acerca dos procedimentos institucionais definidos pela Constituição dos USA. Ou será que para o Departamento de Estado a Constituição é acessória?

Por outro lado, assumindo que os bombardeamentos norte-americanos e a agressão declarada – o Estado de guerra – levassem ao derrube do governo sírio, o que aconteceria depois? Um vazio no Poder? E quem iria preencher esse vazio? Obviamente o Estado Islâmico e as restantes forças fascistas sírias, como a al-Nusra, ou seja, o mundo assistiria ao desaparecimento da nação síria, mergulhada no holocausto e no genocídio. Será que depois os marines norte-americanos iriam salvar os xiitas, os alauitas, os cristãos, a diminuta comunidade judaica-síria, os curdos e as restantes composições culturais do mosaico sírio?

De acordo com o senhor John Brennan, o director da CIA, o Estado Islâmico está a penetrar os USA e a Europa. Então faz algum sentido que os USA lancem ataques terrestres e aéreos contra o governo sírio, que é uma das principais linhas de defesa contra o fascismo islâmico e seus bandos terroristas? Se observarmos a ingerência imperialista norte-americana e dos seus parceiros da NATO (pondo de lado as divergências no campo imperialista e os diversos interesses específicos e opostos no campo imperialista) na Somália, Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria e Iémen, constaremos que a destruturação provocada nas respectivas sociedades conduziu estes povos a um intenso sofrimento e a um genocídio muitas vezes camuflado de forma cínica e hipócrita.

Recentemente a força aérea russa, em coordenação com a força aérea síria, lançou uma série de ataques em regiões do país onde se fazia sentir a presença de grupos armados oposicionistas, treinados e armados para derrubar o presidente Assad e o legitimo governo sírio. Mas porque, no meio de uma guerra que deveria ser contra o Estado Islâmico, objectivo que deveria – conforme proposto pela delegação russa em Genebra – provocar uma reconciliação nacional definida através do combate ao inimigo comum, o governo sírio e os seus aliados russos e das milícias xiitas e curdas, têm de combater grupos que – apesar da sua posição contra o Estado Islâmico – continuam a insistir no derrube não negociado do governo sírio? Por uma razão muito simples: porque contam com o apoio dos USA, da NATO e dos Estados do Golfo.

John Kerry, referindo-se aos recentes ataques russos na Síria, afirmou num tom pouco agradável (típico de irlandês irritado) que “a Rússia tem de aprende que a nossa paciência não é infinita”. O senhor Kerry esqueceu-se que a aliança e a cooperação militar entre a Síria e a Rússia tem cerca de meio século. A Síria permite que a Rússia opere no Mediterrâneo e os russos sempre deram apoio politico e económico á Síria, desde os tempos da revolução que levou o Partido Baas ao Poder e que implementou uma serie de reformas económicas e sociais que permitiram aos sírios importantes conquistas sociais e que colocaram o país na sendo do desenvolvimento. O apoio russo é, pois, legítimo e legal pelos princípios do direito internacional. Coisa que não acontece com a acção dos USA que ao armar grupos oposicionistas e ao ingerir nos assuntos internos sírios, está a agir á margem do direito internacional. Não são os USA que têm de ter paciência com a Rússia, mas sim a comunidade internacional que tem de fazer compreender aos USA que a paciência dos Povos e Nações do mundo não é infinita.

No mês passado a NATO efectuou exercícios militares na Polónia e nos países bálticos, ao longo da fronteira com a Federação Russa, mobilizando cerca de 30 mil efectivos militares. Pela primeira vez, desde 1945, tanques alemães pisaram solo polaco. Enquanto isso o USS Porter foi enviado para o Mar Negro. Porquê? Segundo Ray Mabus, o Secretário de Estado da Marinha para “deter uma potencial agressão”. Agressão? A única agressão é a da NATO ao efectuar exercícios militares ao longo da fronteira com a Rússia. Isso é uma manobra provocatória e irresponsável.

Mas a propósito de provocação e irresponsabilidade temos as palavras de Hillary Clinton que comparou Putin a Hitler e as acções da Rússia na Ucrânia às acções da Alemanha nazi na década de 30. Hilária, Hilária, quantas historietas contas e ainda nem lá chegaste (á Casa Branca, claro).

EUA: 20 MILHÕES DE CASAIS POBRES VIVEM EM HABITAÇÕES MÓVEIS (RULOTES)

A vida em um trailer: sem dinheiro para casa própria, moradia sobre duas rodas vira opção para mais pobres nos EUA

Benoît Bréville, Paris - Le Monde Diplomatique, em Opera Mundi (maio 2016)

Em 1975, 9 milhões de norte-americanos viviam em trailers, e hoje já chegam a 20 milhões; parques para habitações móveis acolhem casais pobres, cujos ganhos anuais eram, em 2011, metade da renda média nacional

No minúsculo jardim que cerca sua casa, Francisco Guzman não tem o direito de deixar objetos caírem no chão. Também não pode dispensar o lixo antes do dia da coleta nem ouvir música. “Se eu quiser ter um animal de estimação, ele não deve passar dos 40 cm de altura. E se quiser acolher alguém, mesmo meu irmão ou minha mãe, preciso pedir autorização ao gerente. É incrível, mas ainda assim estou em minha casa!”. Guzman e sua esposa possuem realmente uma moradia, um trailer de dois quartos, mas alugam o terreno num parque de casas móveis em Aurora, Colorado.

Para ocupar um dos 440 terrenos, o jovem casal paga US$ 500 por mês, além de mais US$ 250 de prestação pelo empréstimo de oito anos contraído para adquirir sua moradia de três cômodos e 75 m2. A arquitetura é típica dos trailers dos anos 1970: teto plano, paredes externas de alumínio e fachada branca encardida pelo tempo. “O aluguel inclui água corrente, rede de esgoto e coleta de lixo; há até uma pequena piscina coletiva”, esclarece o jovem. “Eu preferiria, é claro, ter uma casa de verdade, com um jardim de verdade, sem vizinhos a cinco metros de distância. Mas por esse preço, em Aurora, é impossível”. A renda dos Guzman é modesta: entre um emprego num posto de gasolina para ele e alguns turnos numa empresa de limpeza para ela, os dois ganham US$ 2 mil por mês. 

É muito pouco para viver nesse subúrbio residencial sem beleza nem atrativos, mas perto da dinâmica capital do Estado, Denver, onde os preços dos imóveis aumentaram 50% desde 2012. Em outubro de 2015, em Aurora, nenhuma casa estava para alugar por menos de US$ 1 mil, e a mais barata para comprar precisava de reforma completa e custava US$ 130 mil. Na mesma ocasião, um trailer de tamanho equivalente, construído em 1973, estava à venda por US$ 14,5 mil, com os aluguéis nos parques oscilando entre US$ 400 e US$ 600 por mês. “No momento, todos os terrenos estão ocupados. É preciso entrar numa lista de espera. Mas a rotatividade é grande e a coisa pode ser rápida”, assegura-nos o gerente do Friendly Village.

Aurora tem nove parques grandes e mais de 2,5 mil terrenos para trailers. Quase todos estão situados nas imediações da Avenida Colfax, num bairro periférico e pouco atraente da cidade: Hillcrest Village, propriedade da empresa Equity Lifestyle Property, líder do setor com 140 mil lotes no país; Green Acres, que só abriga idosos; Foxbridge Farm, Cedar Village, Meadows etc. Nem esses nomes evocadores de um panorama campestre[1]nem os esforços dos moradores para decorar suas fachadas com bandeirinhas norte-americanas, estátuas da Virgem Maria ou flores conseguem disfarçar a monotonia do urbanismo.

Como os bairros populares, os parques de trailers são concebidos contrariando a trama urbana clássica, separados do resto da cidade, com sistema de limpeza, sinalização e administração próprios. Ruelas mais ou menos bem asfaltadas ladeiam lotes retangulares dispostos perpendicularmente à via principal e separados uns dos outros por uma pequena cerca, uma corrente ou mesmo um simples risco no chão. Cada moradia é identificada por um número que figura no endereço de seus ocupantes, junto com o nome do parque. “Às vezes, gostaríamos de não dizer que vivemos num parque, mas, quando veem nosso endereço, todos ficam sabendo”, lamenta Guzman. “E isso pode causar problemas. Alguns pensam: ‘Hum, ele mora num parque de trailers, não vou contratá-lo porque terei problemas’”.

Habitações sociais sem custo para o governo

Adquirir um trailer nos Estados Unidos é operação simples e barata. Diferentemente de uma casa comum, construída no próprio local por pedreiros, eletricistas, carpinteiros, encanadores etc., ele é inteiramente feito numa fábrica por operários semiqualificados. Sai da linha de montagem pronto para uso, a um preço que desafia qualquer concorrência. E, como se desgasta e se desvaloriza com o tempo (à semelhança de um carro), os modelos 1960 ou 1970 podem ser negociados por menos de US$ 10 mil. No caso dos modelos mais novos, o menor preço é US$ 25 mil (70 m2), frete incluso. Vinte milhões de norte-americanos, dos quais 23% aposentados, vivem hoje nesse tipo de alojamento contra nove milhões em 1975. Os Estados Unidos têm sete vezes mais trailers (8,6 milhões de unidades) que moradias de aluguel social (1,2 milhão)[2]. Acolhem casais pobres, cujos ganhos anuais eram, em 2011, metade da renda média nacional (US$ 26 mil contra US$ 52 mil)[3]. Funcionam como casas populares a custo zero para os poderes públicos, que não precisam construir nada, mas dão muito lucro aos fabricantes.

“O problema não é comprar um trailer, é descobrir um lugar para instalá-lo”, adverte um empregado da loja Clayton Homes, a primeira a vender “casas pré-fabricadas” nos Estados Unidos. A esmagadora maioria das cidades norte-americanas aplica regras de zoneamento rigorosas, que limitam as possibilidades de instalação em terrenos particulares a alguns setores bem precisos e já saturados. Como esses alojamentos têm a fama de desvalorizar os terrenos próximos, os prefeitos evitam cuidadosamente sua proliferação. A menos que se disponham a ir para as zonas rurais, muitos proprietários se veem, então, obrigados a recorrer aos parques particulares, que abrigam 12 milhões de norte-americanos[4].

 medida que nos aproximamos do Novo México, onde a proporção de casas móveis no volume total de alojamentos ultrapassa 15%, os trailers vão se fazendo mais presentes. Espalham-se ao longo das grandes rodovias e das estradas rurais, onde há menos construções e as regras de zoneamento são mais frouxas. Em Trinidad, agrupam-se em uma dezena de parques situados na periferia da cidade, em terrenos baratos. De dimensões modestas, esses aglomerados não lembram acampamentos militares e não têm o caráter impessoal dos parques de Aurora. Em muitos deles, encontramos o proprietário, que não mora longe.

Cidadezinha de oito mil habitantes perdida nas montanhas baixas do Colorado, perto da divisa com o Novo México, Trinidad conheceu seus momentos de glória no início do século XX graças à exploração de carvão e à chegada da ferrovia. Mas, desde a Segunda Guerra Mundial, o município perdeu 40% de sua população e só restam uns poucos vestígios da antiga prosperidade: o velho grand hôtel da rua principal, a majestosa biblioteca construída em 1904 graças a uma doação do barão do aço Andrew Carnegie e a locomotiva a vapor exposta no estacionamento do supermercado. “Empregos não existem. Vivo aqui há cinco anos e nunca vi um contrato de trabalho de mais de dois meses”, confirma Jacqueline Johnson. Por muito tempo funcionária de um hospital de Las Vegas, ela deixou Nevada após se separar do marido, em 2010. Foi então morar com uma meia-irmã, que residia num quarto de motel. “No começo, passamos dois anos no mesmo cômodo, com o fogão encostado na cama. Depois, alugamos este trailer por US$ 550 mensais. É muito caro, mas temos três quartos e uma cozinha de verdade, podendo comer ao ar livre quando o tempo está bom”.

Uma comunidade propícia a fofocas

Com benefícios sociais e alguns bicos, as irmãs ganham cerca de US$ 2 mil por mês. “Pagas as contas e a alimentação, não nos resta quase nada. E só temos um carro para as duas”. Um grande problema: dali, não se pode ir a lugar nenhum a pé, afora um restaurante chinês e seu self-service aberto o dia inteiro. “Quando preciso do carro e minha irmã ainda não chegou, fico louca da vida”, confessa Jacqueline. “Mas aqui todos se conhecem e sempre há um vizinho para nos dar carona. Um parque de trailers é uma verdadeira comunidade”.

Segundo Harry Vallejos, chega a ser “uma pequena família”. Esse aposentado mora no parque Cedar Ridge de Trinidad, onde paga US$ 250 por mês. Com uma doença que reduz sua capacidade de movimento, passa a maior parte do tempo no parque e conhece todos os moradores. Pode dizer o que cada um faz, sua situação familiar e suas opiniões políticas: Annie McDaniel, que com 91 anos não pode mais dirigir e recebe a visita da filha duas vezes por semana; o casal Harold e Hannelore Thomason, de 85 anos, que já mora no local há quatro décadas etc…

A vida num parque de trailers não oferece a intimidade de uma casa comum, onde as pessoas podem se refugiar no quintal, nem o anonimato de um prédio de apartamentos. Com um simples olhar pela janela, o morador fica sabendo se o vizinho está em casa ou foi trabalhar, se tem visitas ou se sua calha entupiu. Não é raro ouvir vozes estridentes e batidas de portas. Essa vida comunitária, ao mesmo tempo que enseja uma sociabilidade de vizinhança, favorece igualmente a disseminação de boatos e fofocas.

Cedar Ridge abriga cerca de vinte casas, a maior parte ocupadas por proprietários idosos. Os raros moradores mais jovens – como a família chegada há pouco do Texas e um homem que só ocupa seu trailer alguns meses por ano – despertam suspeitas dos mais velhos. “Há um ir e vir sem fim na casa deles e eu preciso prestar muita atenção no que é meu”, confidencia Vallejos, que assegura, no entanto, viver “na melhor comunidade das redondezas”.

Por nada no mundo esse aposentado moraria no parque Almar, que goza de má reputação. Na primavera de 2015, a polícia matou lá um rapaz negro que se escondera numa barraca abandonada. O caso, que causou furor nas TVs locais, continua na lembrança de todos. “Patrulhamos constantemente esse lugar, ora eu, ora meu marido”, garante a gerente para tranquilizar os potenciais locatários. “Meu filho trata da manutenção e faz rondas, e sua namorada também. O pai de Nicky [uma moradora do parque] é inspetor de polícia e meus irmãos também moram aqui… Todo mundo vigia todo mundo. Não é raro eu expulsar algum locatário por mau comportamento!”. Segundo ela, o parque Lakeside é que deveria ser evitado.

Aberto há quinze anos, este se resume a um vasto quadrado de terra e cascalho que se transforma em lama quando chove. O lote custa US$ 150 por mês; pagando-se mais US$ 300, é possível ter também um trailer velho de três quartos. Fato curioso em Trinidad, vários terrenos estão vazios, embora seu custo seja o mais baixo da cidade. “Ninguém quer morar lá. Há problemas de drogas, brigas, tiros. É muito ruim para o bairro”, analisa uma vizinha, proprietária de uma casa despretensiosa a 200 metros do parque. Quando lhe pedimos que relate fatos concretos, ela hesita, diz “ouvir sirenes frequentemente” e termina por declarar, irritada, que “não gosta de jornalistas”. Antes do fim da conversa, admite nunca ter posto os pés naquele parque e não conhecer nenhum de seus locatários.

Trailer trash

Chamados pejorativamente de trailer trash (lixo de trailers), esse tipo de moradia e seus habitantes sempre tiveram uma imagem negativa nos Estados Unidos. Embora abriguem 8,7% de afro-americanos, são associados ao subproletariado branco, aos “refugos brancos”[5], mais ou menos como os bairros de casas populares, no imaginário norte-americano, são associados aos negros. A história começou no período entreguerras, quando os vendedores ambulantes, os trabalhadores agrícolas e os operários da construção civil que percorriam o país em carroças eram acusados de ofender a boa moral e não pagar impostos nas cidades onde se instalavam. Em 1937, a revista Fortune ainda torcia o nariz para essas “colônias superpovoadas de sórdidos hotéis itinerantes”[6].

A população dessas habitações mudou a partir dos anos 1950 com a entrada no mercado de trailers de três metros de largura (antes, tinham apenas 2,40): a partir de então, não era mais preciso passar pelo primeiro quarto para chegar ao segundo. Num contexto de crise de moradia, esse ganho de intimidade levou muitos norte-americanos de renda modesta, em especial idosos e jovens casais de funcionários, a fazer dos trailers seu domicílio fixo e permanente. Os fabricados hoje medem até cinco metros de largura; existem modelos de luxo em parques para aposentados da Flórida e da Califórnia, com vista para as marinas e campos de golfe. De resto, oficialmente não são mais chamados trailers, e sim de “casas pré-fabricadas” (manufactured homes).

Todavia, uma distorção semântica orquestrada por alguns industriais raramente consegue mudar sua imagem: eles continuam a ter má reputação. Na televisão, os noticiários locais cobrem o tempo todo as desgraças (tiroteios, incursões policiais, venda de drogas…) que ocorrem nos parques. Na internet, encontramos o Trailer Park Boys, um programa transmitido há quinze anos no Canadá e nos Estados Unidos. Realizada na forma de um falso documentário, essa série apresenta personagens imbecis e violentos que dividem seu tempo entre pequenos delitos e a cadeia. No cinema, filmes de sucesso como “Meninos Não Choram” (1999) e “Rua das Ilusões” (2002), que conta a juventude do rapper Eminem, também põem em cena lugares onde a violência é onipresente. Mesmo o quadro um pouco mais leve que o escritor Russell Banks pinta de uma comunidade de New Hampshire, em seu livro “Trailerpark” (1981), retoma os temas das drogas e do álcool.

Com tal imagem na cultura popular, não espanta que inúmeros habitantes de Trinidad tenham sua opinião dos ocupantes dos trailers. “Dizem as maiores barbaridades sobre nós”, lamenta uma moradora de Lakeside, que prefere ficar no anonimato. “A maior parte das pessoas aqui é honesta e trabalha duro; é um bom lugar para viver. Mas há muitos trailers para alugar e os ocupantes mudam. Nada mais normal então que apareçam maus elementos. Agora, temos jovens que fumam maconha o dia inteiro. Eles têm um cachorro bravo que late sempre que alguém passa”. A moça censura ainda a proprietária, uma professora aposentada que mora também em Trinidad, por certa irresponsabilidade na escolha dos locatários, dos quais nenhuma garantia seria exigida: “Ela só quer encher os terrenos vazios e pouco se importa com quem vem morar aqui. De qualquer modo, não liga nada para o parque. Quando há um problema, nunca aparece; não cumpre sua obrigação”.

Expulsos em 72 horas

Segundo Dave Anderson, diretor executivo da associação All Parks Alliance for Change, que defende os interesses dos proprietários de trailers, esse caso é típico das moradias situadas em zonas rurais. “Nas áreas metropolitanas”, explica, “onde é alta a densidade demográfica e os preços dos terrenos são caros, o risco para os ocupantes é que os aluguéis aumentem com frequência ou que alguém os expulse para favorecer um projeto imobiliário mais lucrativo. Nas comunidades rurais, esses problemas realmente não existem. Mas os pequenos proprietários possuem capital muito limitado para administrar seus parques e nem sempre conseguem fazer os reparos necessários quando surgem graves problemas de água ou esgoto”. Mas viver num parque familiar, em uma cidade pequena, não deixa a pessoa, forçosamente, livre de aumentos repentinos. Por exemplo, em Almar de Trinidad, os aluguéis subiram 10% em novembro último, passando de US$ 220 para US$ 245 sem razão aparente, e isso quando já tinha ocorrido um aumento há dois anos…

É uma das primeiras coisas que Frank Rolfe ensina aos alunos de sua “universidade dos trailers”: na maioria dos Estados, nenhuma lei impede um proprietário de parque de aumentar seus aluguéis, desde que avise os locatários com algumas semanas de antecedência. Esse diplomado em Economia pela Universidade da Califórnia em Stanford fez fortuna investindo, com seu sócio Dave Reynolds, em terrenos para trailers. Partindo do nada em 1996, orgulha-se de ser hoje o sexto maior empresário do setor, com 170 parques espalhados pelo país. “Exceto na Califórnia, na Flórida e no estado de Nova York, onde as leis são favoráveis demais aos locatários”, explica.

Ansiosos por transmitir sua experiência, Rolfe e Reynolds dão um curso intensivo de três dias, por US$ 2 mil, no qual ensinam os rudimentos da gestão de um parque: não permitir atrasos de aluguel, cobrar multas por infração às regras, evitar a instalação de lavanderias ou serviços coletivos que possam gerar custos inúteis, expulsar locatários indesejáveis... “Os alunos são geralmente executivos cinquentões decepcionados com os lucros de seus investimentos na Bolsa. Esse é um bom momento para entrar no mundo dos negócios, pois nossa economia está em crise há anos e há forte demanda por moradia barata”, analisa lucidamente Rolfe. O método dos dois compadres segue o das imobiliárias quando ocorrem operações de renovação urbana: eles compram parques, sobretudo os de “mamãe e papai”, pertencentes a pequenos proprietários que não os exploram bem, melhoram sua aparência, instalam alguns serviços suplementares e pedem aluguéis mais elevados.

Os locatários ficam impotentes diante desses aumentos. Desde que passaram a medir três metros de largura, os trailers são difíceis de transportar: um carro não basta, é preciso utilizar um caminhão especial, quase sempre mais largo que as estradas comuns. A operação custa vários milhares de dólares; muitos residentes preferem, assim, comprar um trailer novo a deslocar o velho. A imobilidade dessas casas “móveis” fragiliza os ocupantes, que não podem ameaçar ir embora quando o proprietário cuida mal do terreno ou aumenta o aluguel.

Emily Montoya[7] não sabe onde acharia o dinheiro necessário caso precisasse sair de Raton, uma cidadezinha de 6,5 mil habitantes no norte do Novo México, onde aluga um terreno por US$ 150 ao mês. A jovem, que mora com os filhos e o companheiro, não trabalha e o casal não tem nenhuma poupança. No entanto, talvez precise se mudar logo. O Parque das Colinas Encantadas – situado ao lado do cemitério municipal… – foi posto à venda: US$ 320 mil por oito hectares de terreno e 46 lotes. “Fiquei sabendo disso um dia ao voltar para casa: avistei uma tabuleta de ‘vende-se’ na entrada”, conta. “Ignoramos quem vai comprar ou o que será feito disto aqui; só não ignoramos que nos falta dinheiro para a mudança”.

Os vizinhos de Emily temem a mesma coisa, pois, no Novo México, a lei pouco protege os locatários de parques. Eles podem ser expulsos em 72 horas caso não paguem o aluguel; em um mês, caso não respeitem as regras ou “perturbem os outros”; e, quando um parque fecha suas portas, recebem simplesmente um aviso prévio de 60 dias. “Em alguns Estados, como Minnesota, se você precisa mudar e sua casa está em condições ruins demais para ser deslocada, o proprietário tem de lhe pagar uma compensação financeira. Às vezes, você pode até se juntar aos outros moradores para comprar o terreno a preço de mercado e fundar uma cooperativa. Contudo, quase sempre não existe garantia alguma para os locatários”, diz Anderson. O parque de Raton muito provavelmente permanecerá aberto: o lugar não atrai incorporadores e o melhor a fazer quando se possui um terreno situado em zona liberada para trailers ainda é alugar os lotes um a um.

Na Califórnia, a situação é inversa: a lei protege bem locatários, mas os incorporadores são muitos. Em vinte anos, o Estado viu desaparecer mais de quatrocentos terrenos, engolfados pela sanha do mercado imobiliário[8]. Desde 2012, quatrocentos moradores de Palo Alto lutam contra o desaparecimento de seu parque, o mais antigo do Vale do Silício, onde o aluguel custa US$ 1 mil (contra o triplo para uma casa modesta na cidade). Depois de aceitar o fechamento, a prefeitura mudou de opinião diante da amplitude que o caso assumiu. Ela agora apoia os moradores e chegou a fazer uma oferta de compra do terreno: US$ 38 milhões por 1,8 hectares 117 lotes. O proprietário recusou, já que, segundo os corretores, o lugar vale mais de US$ 50 milhões.9.

O caso, por enquanto, está nas mãos da justiça. À espera de uma decisão, os moradores do parque Buena Vista de Palo Alto não sabem prever seu futuro, assim como os residentes das “colinas encantadas” de Raton. Como explica Anderson, “os donos de trailers possuem identidade dupla. Ao mesmo tempo proprietários e locatários, não são protegidos pelas leis que regem tradicionalmente as relações entre locadores e locatários nem pelos direitos concedidos aos proprietários”. Para se defender, só podem contar com eles mesmos.

Publicado originalmente pelo Le Monde Diplomatique Brasil - Título PG

[1] “Hillcrest Village” significa literalmente Aldeia no Alto da Colina; “Meadow”, Pradaria; “Cedar Village”, Aldeia dos Cedros etc
[2] American Housing Survey, 2013; “Mobile homes, the low-cost housing hoax” [Trailers, a fraude das casas baratas], relatório do Center for Auto Safety, Grossman Publishers, Nova York, 1975
[3] Ibidem
[4] Gary Rivlin, “The cold, hard lessons of mobile home U.” [As duras e impiedosas lições dos trailers U.], The New York Times, 16 mar. 2014.
[5] Cf. Sylvie Laurent, Poor White Trash. La Pauvreté Odieuse du Blanc Américain [Pobre refugo branco. A pobreza odiosa do branco norte-americano], Presses de la Sorbonne, Paris, 2011
[6] Citado em John Fraser Hart, Michelle J. Rhodes e John T. Morgan, The Unknown World of the Mobile Home [O mundo desconhecido dos trailers], The Johns Hopkins University Press, Baltimore and London, 2002.
[7] O companheiro de Montoya, um mexicano que mora legalmente nos Estados Unidos, não está registrado junto ao proprietário do parque, daí ela preferir usar um pseudônimo
[8] Katie Kramon, “California’s affordable mobile home parks vanishing” [Parques de trailers a preços acessíveis estão desaparecendo na Califórnia], Peninsulapress.com, 11 mar. 2015.

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A GUERRA CONTRA A HISTÓRIA É CAMPANHA A LONGO PRAZO DA OTAN

Mateusz Piskorski*

A OTAN é uma aliança imemorial que libertou a Europa do nazismo e nos protege contra o Urso Russo... é o que deveríamos acreditar. A verdade histórica é bem outra, mas a OTAN está empenhada em revisar. Uma tarefa longa, de consequências sombrias.
Aviso: Enquanto este artigo era publicado em vários idiomas, seu autor foi preso e detido em 18 de maio de 2016.

Nos dias 8 e 9 de julho, Varsóvia vai hospedar a nova cimeira da OTAN, reunião dos chefes dos estados-membros do tratado e da direção da OTAN no formato do Conselho do Atlântico Norte. Esta cimeira será a 25ª de sua história, e nela os acordos firmados na anterior, em Newport, 2014, serão desenvolvidos. Estaremos lidando, em particular, com a criação de uma força de reação rápida em território de países da Europa Ocidental que sejam capazes de conduzir operações de combate no chamado flanco leste do tratado. O Ministro dos Assuntos Externos da Polônia, Witold Waszczykowski, enfatizou que o estabelecimento de bases militares da OTAN e em particular dos Estados Unidos no território da Polônia será anunciado durante a cimeira.

São esperados 2,5 mil participantes e 1,5 mil jornalistas estrangeiros. O moderno Estádio Nacional no centro de Varsóvia foi alugado para o evento. As medidas de segurança foram intensificadas por conta de possíveis ameaças terroristas e protestos de associações civis que já declararam a intenção de realizar uma espécie de anticimeira na capital polonesa.
Em linha com os preparativos, uma intensa campanha de informação vem sendo conduzida com o objetivo principal de espantar os temores quanto a alegadas ações e planos supostamente agressivos da Rússia. A guerra contra a memória histórica é parte desta campanha de longo prazo. Neste aspecto, é preciso reconhecer que a reavaliação dos fatos históricos e a negação do papel da União Soviética na Grande Vitória de 1945 encontram um certo terreno histórico e político nos Estados bálticos e na Romênia, onde os autores da história oficial da OTAN costumam evocar diretamente os movimentos colaboracionistas locais, cujas atividades apresentam como exemplos da “luta pela independência” em relação à União Soviética.

A situação é vista por outro viés na Polônia, onde é muito difícil encontrar adeptos da tese de que não foi a libertação que salvou o povo polonês do genocídio de Hitler. A reformatação da história moderna tem sido coordenada pelas agências nacionais, tais como o Instituto da Memória Nacional polonês (Instytut Pamięci Narodowej. N. do T.). Toda essa atividade almeja evitar a dissonância cognitiva e assim impedir que a população euro-oriental, ao contemplar monumentos, lembre-se de que o Exército Vermelho libertou-a da Alemanha Nazista, algo que a faria duvidar se a Rússia seria mesmo o inimigo e agressor histórico e eterno.

Reformatar as percepções dos fatos históricos é parte deste tão complexo projeto de longo prazo, impossível de ser realizado ao longo dos dois meses que faltam para a cimeira [O artigo original foi escrito em maio de 2016. N. do T.]. Mas outras providências podem ser tomadas.

No contexto da guerra de informação, os meios de comunicação do Leste Europeu publicam regularmente matérias sobre a instalação de ogivas nucleares na região de Kaliningrado. A própria existência dessa região como súdita da Federação Russa é exibida como ameaça à existência dos países vizinhos. No flanco sul, esse papel no processo de aumento da sensação de perigo cabe à Transnístria. Assim, Kaliningrado amedronta os povos bálticos e os poloneses, enquanto a Transnístria é utilizada para atemorizar os romenos e, em menor escala, os búlgaros.

A guerra de informação vem sendo conduzida sistemática e profissionalmente, e começou vinculada à necessidade de preparar a opinião pública para o posicionamento bélico dos sistemas de mísseis defensivos no Leste Europeu.

Quanto ao processo de normalizar as relações entre o Ocidente e o Irã, os encarregados das relações públicas da OTAN tiveram que admitir: os sistemas de mísseis visam exclusivamente à imaginária ameaça russa.

A Polônia vem tentando desempenhar o papel de líder nas zonas setentrionais e bálticas da corrida armamentista no Leste Europeu. A Romênia, por sua vez, tenta tomar a iniciativa na região do Mar Negro. Tarefa bem mais difícil, porém, porque ali a Turquia vem atuando como líder da coalizão antirrussa há mais de ano e meio. Esta mesma Turquia que tem demonstrado certas ambições geopolíticas.

Contudo, Bucareste vem tentando usar a falta de confiança absoluta de Washington em Erdogan para fornecer serviços alternativos ao Pentágono. A iniciativa de criar uma esquadra conjunta da OTAN no Mar Negro com a participação de países ainda não membros da aliança, Ucrânia e Geórgia, como propôs o Ministro da Defesa romeno Mihnea Motoc, é um exemplo de tal abordagem.

A preparação da cimeira vem sendo observada com todo cuidado pelo Departamento de Estado estadunidense. Como representante de John Kerry, Anthony Blinken visitou há pouco alguns países do Leste Europeu. Suas conversas com os colegas europeus orientais encontraram um ponto de encontro: os antigos membros do bloco leste deveriam apoiar sem reservas a posição de Washington durante a cimeira, em especial no tocante ao fortalecimento militar no chamado flanco oriental, e arcar com as despesas de defesa nos respectivos orçamentos nacionais.

Blinken destacou que a Rússia tem intenção de provocar as forças da OTAN antes da cimeira, e citou como prova as patrulhas da Força Aérea Russa sobre o Mar Báltico. Mas esqueceu de dizer que a causa daquela preocupação russa era a presença ali de navios de guerra dos Estados Unidos. Que, para os oficiais estadunidenses, porém, era coisa pouca que não valeria levar em conta na atual situação da guerra de informação.

Blinken assegurou-se de que o presidente dos Estados Unidos vai sentir-se à vontade na capital polonesa. Para manter a boa ordem durante o encontro, o governo de Varsóvia, em atenção à ameaça terrorista, promulgou lei proibindo quaisquer comícios ou exibições durante o transcurso daquele evento internacional tão importante, a cimeira.

Tudo por conta da preocupação com o bem estar do chefe da nova Europa pró-Estados Unidos, Barack Obama. As despesas oficiais do ministério da defesa polonês para a reunião dos chefes da aliança são de 40 milhões de dólares, informação que pode por si só gerar incompreensão e levar os cidadãos da capital polonesa a realizar, em dias de pleno verão, piquetes durante a cimeira da OTAN.

Voltaire.net

Mateusz Piskorski, diretor do Centro Europeu de Análise Geopolítica (Varsóvia) - Tradução José Eduardo Ribeiro Moretzsohn

É Fantástico: a serviço da ocupação israelense, a farsa da divisão religiosa

Leia o artigo da jornalista Soraya Misleh, membro da Diretoria do ICArabe, sobre a reportagem veiculada pelo programa da TV Globo. É senso comum nas palestras e debates sobre a questão palestina a pergunta sobre o papel da religião no "conflito". A história desmonta: a motivação é política, fruto da colonização na região, projeto do imperialismo. Em cinco minutos e 34 segundos, tal representação - que os palestinos tanto lutam para desmontar - teve lugar durante o Fantástico, programa dominical da Rede Globo. A reportagem, exibida no dia 19 de junho último, trazia o popular Padre Fabio de Melo em visita a Gaza. Na chamada, uma aula do que não se deve fazer no jornalismo: imagens soltas e desconectadas do Iraque, da Síria e de Gaza para construir uma narrativa falsa: atrelar o crescimento do Estado Islâmico à redução do número de palestinos cristãos na estreita faixa ocupada por Israel. "Para conhecer de perto a realidade dos cristãos do Oriente Médio, o Pe. Fabio de Melo foi visitar famílias que vivem acuadas pelos extremistas islâmicos em Gaza", relata o repórter Rodrigo Alvarez.

O bloqueio criminoso israelense a que estão submetidos os palestinos há dez anos no pequeno território desaparece e dá lugar ao uso da religião para encobrir os crimes da ocupação e colonização. O desserviço e desinformação permeiam toda a edição, a começar por confundir o autonomeado Estado Islâmico (EI) com os seguidores da religião islâmica, que em sua esmagadora maioria abominam as práticas do grupo - um elemento contrarrevolucionário financiado pelo imperialismo. A reportagem não traz qualquer fonte muçulmana, não apresenta qualquer contextualização histórica, inclusive sobre as relações entre os seguidores das diferentes religiões, mas foca o "fundamentalismo" islâmico como a causa da expulsão de cristãos de Gaza.

Diante da visão orientalista que traz o questionamento sobre as relações inter-religiosas no mundo árabe, é necessário esclarecer: é recorrente a solidariedade entre cristãos e muçulmanos não só na faixa, como em toda a Palestina ocupada. São inúmeros os exemplos. Em novembro de 2007, um livreiro cristão de Gaza, chamado Rami Ayyad, foi assassinado. Em 2014, durante o genocídio israelense, um míssil atingiu a casa da família Ayyad. Imediatamente, em ambos os casos, veio das mesquitas o chamado para acolher e rezar por eles, lado a lado com a Igreja. Há dois anos, reportagem no portal Electronic Intifada trazia a notícia de que, além de rezarem juntos, cristãos e muçulmanos compartilhavam a solidariedade sob outras formas: acolhiam-se mutuamente quando perdiam suas casas em bombardeios. No dia a dia, essa também tem sido a regra nas relações entre os palestinos, diante de uma realidade de desumanização e privações de toda ordem, imposta pelo bloqueio israelense. 

Segundo reportagem publicada em 2007 no portal Electronic Intifada, o chefe da comunidade católica-romana de Gaza, Monsenhor Manuel Musallam, enfatizou: "Rami não era só cristão. Era palestino." Em outro trecho, ele conclui: "Se os cristãos emigram, não é por causa dos muçulmanos. É porque nós sofremos com o cerco israelense e buscamos liberdade, uma vida diferente da vida de cães que somos forçados a viver." No mesmo texto, escrito por Mohammed Omer, vários jovens na faixa de 16 a 18 anos, deixam claro que a religião não é central. "Temos unidade na luta, unidade de objetivos. (...) Essa terra é nossa", declarou Lelias Ali, 16 anos. "Ser cristão ou muçulmano não é uma questão. Vou à casa de meus amigos em ocasiões tristes e felizes, incluindo Natal. Eles me visitam durante o Eid, ao fim do Ramadã", completou Diana al-Sadi, 17.

Essa não é apenas a realidade em Gaza, em que os cristãos somam 3.500 cidadãos -1,25% dos 1,8 milhão de palestinos que ali vivem. Na Cisjordânia, em que são 47 mil, é tradição os cristãos acordarem os muçulmanos durante o período sagrado do Ramadã para suas primeiras orações matinais. Um dos muitos gestos de amizade que se pode encontrar nas ruas da Palestina ocupada.

Colonização

Não há diferença no tratamento desumano que é reservado por Israel a palestinos nem na discriminação que sofrem em toda a Palestina - sejam cristãos, muçulmanos ou não religiosos. 

Durante a nakba (catástrofe representada pela criação do Estado de Israel em 1948), foram destruídas 500 aldeias e expulsos 800 mil palestinos de suas terras. O Frei Martinho Penido-Burnier, brasileiro, presenciou a limpeza étnica e a denunciou em carta endereçada ao ministro das Relações Exteriores, embaixador Raul Fernandes (confira em http://goo.gl/ro4G1R). Relatou as atrocidades cometidas pelos sionistas, inclusive "profanação" de lugares sagrados para os cristãos.

Conforme conta o palestino Abder Raouf Misleh, expulso de sua terra aos 13 anos durante a nakba, até aquele momento, há 68 anos, não apenas cristãos e muçulmanos palestinos, mas também judeus "brincavam juntos, sem rótulos". O sionismo (movimento político pela constituição de Israel como um estado judeu homogêneo em terras palestinas) trouxe uma nova realidade. Isso representou uma quebra nas relações históricas com os judeus, especificamente os sionistas, a maioria imigrante - portanto, não por sua religião, mas por estarem a serviço de um projeto colonial.

A solidariedade expressa em momentos recentes - como apontado neste artigo - foi a regra também em 1948. Cristãos e muçulmanos que tinham família em outras partes da Palestina ainda não ocupadas (o que veio a ocorrer em 1967) dividiram suas poucas terras e parcos recursos. Acolheram amigos e vizinhos refugiados, independentemente da religião que seguiam. Assim tem sido ao longo da história, em pequenos e grandes gestos, na resistência heroica de um povo que se nega a ser subjugado e apagado do mapa. Em solidariedade, é crucial ecoar suas vozes - silenciadas em reportagens como a do Fantástico. Por uma mídia livre, por uma Palestina livre.

Fonte: ICArabe, em Pravda.ru

O POVO CHINÊS SENTE-SE ULTRAJADO

"A China irá reagir se provocada novamente. Está-se a arriscar uma guerra"
Andre Vltchek [*]

Alessandro Bianchi - Começo com uma pergunta brutal: em que se tornou um país que propõe Donald Trump como seu "melhor candidato"'?

AV - Não é muito diferente do país que costumava ser há décadas, até há séculos. Desde o início, os presidentes dos Estados Unidos (todos de stock europeu, claro), promoveram a escravidão, campanhas de extermínio contra a população nativa da América do Norte, bárbaras guerras de agressão contra o México e outros países da América Latina, Filipinas, etc. Mudou alguma coisa agora? Duvido muito. Donald Trump é horroroso, mas ele também é honesto. Ambos os presidentes Clinton e Obama foram grandes oradores, mas impenitentes assassinos em massa.

AB - Numa pesquisa recente mais de 53% dos americanos estavam contra Hillary Clinton e Donald Trump. Quanto tempo mais se vai continuar a considerar os Estados Unidos uma democracia? E porquê, na sua opinião, é a abstenção a única forma de "rebelião" de uma população completamente excluída das tomadas de decisão?

AV - "Democracia" significa nada mais que, "governo do povo", em grego. Não há nada de democrático nos conceitos políticos dos Estados Unidos e da Europa. E não há absolutamente nada democrático no "acordo global", através do qual o Ocidente tem governando sobre o resto do mundo durante décadas e séculos. A segunda parte, estou convencido, é muito mais importante, muito mais devastador. No Ocidente, as pessoas têm tolerado o seu sistema político insano em troca dos inúmeros privilégios que recebem nos seus países a partir da pilhagem do planeta e da violação de continentes e nações inteiras. Mas na África, Ásia e noutros lugares, essas pessoas, "não povo", não têm absolutamente nenhuma escolha.

AB - Bernie Sanders significa realmente a mudança que muitos na Europa têm descrito?

AV - Bernie Sanders é como aqueles membros liberais do Partido Nazi alemão durante a segunda guerra mundial, ou do movimento fascista italiano durante a Mussolini. Eles fariam socialmente muito pelos seus próprios trabalhadores e camponeses, enquanto os fundos estivessem fluindo dos países saqueados por seu imperialismo. Com Bernie Sanders, os trabalhadores ocidentais estariam definitivamente muito melhor, mas o resto do mundo, os "miseráveis da terra" mesmo assim teriam de pagar a fatura.

AB - O que aconteceria ao mundo sob a Presidência de Hillary Clinton?

AV - Nada de excepcional – as coisas permaneceriam idênticas: patrocínio de "revoluções coloridas" ou quaisquer outras "revoluções", mais alguns golpes, "mudanças de regime", direito de invasão, bombardeamentos, guerra de propaganda contra a China, Rússia, Irão, África do Sul e o que resta das revoluções latino-americanas. Haveria abundância de tortura nos centros "secretos", mas não seria tão anunciado e glorificado como se Trump fosse eleito. A terceira guerra mundial tornar-se-ia uma grande possibilidade, mas tal cenário é perfeitamente possível sob qualquer nova administração dos EUA... Para responder à sua pergunta: apenas negócios, como de costume.

AB - O que sentiu quando viu recentemente Obama falando em Hiroxima e não pediu desculpa pelo que foi feito pelo seu país, declarando quase sarcasticamente – como chefe da maior potência atómica do mundo – a esperança de um mundo sem armas nucleares?

AV - Eu sou completamente imune a tais discursos, você não? Embora, sim... de alguma forma Obama é muito mais nojento do que outros, porque ele é inteligente e "sabemos que ele sabe". Ele é completamente desonesto isso é claro. De alguma forma seria mais aceitável ver George W Bush vomitando sobre sushi. Trump: provavelmente declararia em Hiroxima que iria deitar bombas atómicas sobre metade da Ásia se isso ajudasse o Ocidente a manter o seu controlo sobre o mundo. Pelo menos é um que não dá lugar a falsas esperanças.

AB - Será que o crescente expansionismo dos EUA chegou a um ponto de ruptura e colisão com a China?

AV - Sim, chegará. Não tenho dúvidas sobre isso. A China é uma das maiores culturas da terra e é um dos países que sofreram imensamente, horrores colonialistas e humilhação. Os chineses sentem-se ultrajados. Ultrajados! Durante décadas, apesar de tudo, tentaram fazer a paz com o Ocidente. Eles são, de facto, a grande nação mais pacífica do mundo e o que ganham em troca? Insultos, provocações e intimidação.

O público ocidental deve aprender e lembrar-se de algo essencial sobre a China: não importa o que a propaganda europeia e norte-americana debita sobre a República Popular, a China é muito mais "democrática" do que o ocidente. É democrática à sua própria maneira. Há milhares de anos, desenvolveram o seu próprio sistema político. Aos seus governantes, não importa quem sejam, é-lhes dado pelo povo um direito condicional para governar. No passado, mas até agora é chamado "mandato Celestial". Se os governantes não respeitarem a vontade do povo, eles serão depostos. E o partido comunista da China é muito respeitador dos desejos da maioria do povo chinês. Quando eles querem reformas liberais, elas são entregues. Quando eles querem mais comunismo e uma luta épica contra a corrupção, como agora, o governo da China imediatamente reage. É poderoso e democrático, embora num arranjo muito específico e complexo.

E agora, o povo chinês está indignado e envia sinais claros para Pequim: "não sucumbir perante o Ocidente". "Se o fizerem, a nossa nação sofrerá imensamente, e o resto do mundo ficará em cinzas". Entenda: o povo chinês é brilhante; o Ocidente não pode enganá-lo. Estão absolutamente fartos do imperialismo ocidental. Desta vez, se confrontados e provocados, o governo chinês terá de se render à pressão do seu povo: será forçado a dar ordens para lutar – para defender sua pátria!

AB - Embora seja a NATO que está a levar as suas instalações mais para leste, na Europa o aparelho de comunicação social alimenta a fobia de uma Rússia agressiva. Quem beneficia por se espalharem esses sentimentos russófobos?

AV - Claro, o Império! Claro, a supremacia ocidental! O Ocidente! O povo russo sofreu imensamente com o imperialismo ocidental. Ao longo da sua história, lutaram contra incontáveis invasões lideradas por franceses, escandinavos, ingleses, norte-americanos, alemães, polacos, checos e outros. Dezenas de milhões de russos morreram lutando contra todos os tipos de expansionismo ocidental. Eles derrotaram o nazismo. Eles ajudaram muito a libertar o nosso mundo do colonialismo. Claro, o Ocidente nunca perdoou à Rússia por lutar batalhas épicas contra o expansionismo e o colonialismo.

Mas é não é apenas a propaganda europeia e norte-americana, que é responsável pelo atual estado de coisas: também é o povo, as pessoas absolutamente comuns que vivem no Ocidente.

A FALSA "ESQUERDA" EUROPEIA 

Durante anos, a falsa "esquerda" europeia tentou retratar os cidadãos europeus como vítimas do imperialismo dos EUA. Ainda está tentando fazer com que o mundo sinta pena dos trabalhadores europeus por não terem um acordo justo com seus governos! É completamente absurdo. A esmagadora maioria dos cidadãos europeus está insatisfeita com o acordo social obtido, sim; e é por isso que estão tão furiosos com os seus governos. Porque querem mais, muito mais! Eles não se importam que seus benefícios, salários e outros privilégios, tenham sido, durante décadas e séculos "subsidiados" pela pilhagem de outras partes do planeta; pagos com sangue. Não há absolutamente nenhuma solidariedade no ocidente em relação às suas próprias vítimas e a recente 'crise de refugiados' é prova direta disto mesmo.

Frantz Fanon e Sartre já o tinham determinado há mais de 50 anos atrás, os cidadãos europeus são responsáveis (e têm beneficiado) pelos incontáveis genocídios e desenfreados roubos. Tem que ser repetido uma e outra vez: dar-se aos europeus "todos os benefícios que possam obter". Fazendo-os trabalhar menos horas e dando-lhes mais dinheiro, congratular-se-iam de modo hipócrita, indiferentes ao resto do mundo. A única razão por que muitos estão tão irritados com os EUA é porque vêem a América do Norte a promover um "mau negócio" para suas próprias massas, não porque estão arruinando o resto do mundo!

Então, voltando à Rússia... Na Rússia, apesar de seu intenso namoro com o capitalismo e alguns oligarcas bastante desagradáveis, continuam a construir a sua política externa com os ideais soviéticos do internacionalismo, da solidariedade e da lógica. E mesmo internamente, o Presidente Putin está lentamente, passo a passo, restaurando muitas realizações importantes soviéticas que foram torpedeadas por um imbecil e um gangster – Gorbatchov e Ieltsin. Não nos esqueçamos que sucessivas sondagens demonstram claramente que mais de 50% dos cidadãos russos ainda desejam quer o socialismo quer a URSS de volta. E o governo russo escuta-os.

A oeste, tanto as elites (conscientemente) como o comum das pessoas (inconscientemente) querem que a Rússia vá para o inferno; desapareça, seja submersa ou vá explodir. Trata-se de a Rússia estar mais uma vez defendendo o humanismo em todo o mundo. Se for bem-sucedida, as elites perdem seu poder sobre o planeta, e os "cidadãos comuns" do Ocidente irão perder seus privilégios; a pilhagem teria de parar, e a vida de um africano ou asiático de repente ganharia o mesmo valor que de um europeu ou norte-americano. E isso seria realmente "inaceitável"!

Além disso, Rússia e China tornaram-se dois grandes aliados. Nunca estiveram tão divididos como durante os anos da guerra fria. A Rússia e a China juntas não podem ser derrotadas militar, económica ou moralmente. O Ocidente só pode tentar destruí-los internamente, através de séries de horrorosos truques, propaganda e mentiras tóxicas. Mas agora até este cenário é improvável. O povo russo, como seus camaradas chineses, está bem ciente do que está acontecendo. E há dezenas de milhões de seus mártires que lhes lembram o que podem esperar do Ocidente.

Cercada e provocada, a Rússia mais uma vez está a transformar-se numa muralha monolítica de defesa. Seu povo está pronto! Quer a paz, acima de tudo. Mas se tiverem de lutar pela sua própria sobrevivência e para a sobrevivência do mundo, eles lutarão. E desta vez de novo, se houver um confronto, as duas nações enormes, Rússia e China, lado a lado, derrotarão o fascismo!

É por isso que a Rússia é odiada. É por isso que a China é odiada. Estes países estão a formar tremenda uma linha de defesa, protegendo a humanidade do terror ocidental.

AB - Desde o advento da chamada "Primavera árabe", que começou com um famoso discurso de Obama na Universidade do Cairo, em 2009, o Mediterrâneo Oriental tornou-se um barril de pólvora. Foi um plano externo – um plano de destruição dos Estados hostis aos governantes de Washington, como a Líbia e a Síria em particular, ou foi uma real busca pela democracia e liberdade?

AV - Ambos. Alguns movimentos socialistas no Egito, Tunísia e Bahrein, por exemplo, eram genuínos. Eu estava fazendo filmes sobre a chamada Primavera Árabe e estou ciente do quanto era realmente complexa a situação. Mas é preciso dizer que o Ocidente imediatamente se infiltrou e "desencaminhou" as revoluções, transformando-as no que você descreveu.

Lembre-se, o Ocidente não tinha absolutamente nenhuma vontade de arriscar os seus poderes ditatoriais sobre a área. Não tinha nenhum desejo de deixar a democracia e as forças revolucionárias assumirem o controlo dos seus países. Porquê? Veja, em escrutínios a maioria do povo árabe vê os Estados Unidos e Israel (definitivamente não o Irão ou a Síria) como o maior perigo para o mundo. Poderia você imaginar o que o povo árabe faria se uma verdadeira democracia saísse vitoriosa? Eles estariam ao lado da Rússia e da China, não do Ocidente. E atirariam as suas "elites" preparadas pelo Ocidente, diretamente pela janela.

AB - Está correto definir hoje Alepo como o "Estalinegrado da Síria" e "o cemitério dos sonhos fascistas de Erdogan", como afirma o presidente sírio Assad?

AV - Sim, é assim, pelo que temos afirmado ao longo destas linhas. Alepo, Homs... Sim. Eu escrevi sobre isso anteriormente, comparando a Síria a Estalinegrado.

AB - Qual a sua opinião sobre o cenário final para a Síria? Corre o risco de cristalização, como a situação de guerra fria-estilo entre os dois blocos – Damasco, Rússia e aliados regionais, por um lado e curdos com os Estados Unidos, por outro lado – e Raqqa, que se tornaria uma nova Berlim?

AV - Os planos ocidentais estão definitivamente a tentar fragmentar todo o Médio Oriente. Eles já o fizeram, em várias ocasiões históricas. Mas este é um novo capítulo. Eles jogam com os países árabes, como se fossem simplesmente algumas vacas leiteiras. Não há nenhuma consideração pelas vidas humanas, ou interesses nacionais locais. É porque o Ocidente, apesar de sua retórica hipócrita (politicamente correta) não considera realmente os não-brancos e não-cristãos como seres humanos. Você mata milhões de pessoas, que assim seja, destrói cinco Estados regionais; quem se importa?

"DIREITOS HUMANOS" 

AB - Qual o papel, na sua opinião, das ONG de direitos humanos no atual contexto internacional?

AV - Até esse termo, "direitos humanos", põe-me doente. Você tem que realmente voltar a Fanon e a Sartre... Eles disseram tudo. Os direitos humanos são apenas para "humanos", portanto, para o Ocidente. Para o resto do planeta, os "direitos humanos" são usados para desacreditar os governos desconfortáveis, mesmo "hostis" através de inúmeros implantes como as ONG. Quem fala sobre as violações de direitos humanos reais, cometidos pelo Ocidente? Os europeus e norte americanos já massacraram centenas de milhões de pessoas. Foram saques, torturas e estupros. Mesmo agora, eles estão matando milhões diretamente e dezenas de milhões indiretamente. Mas isto não conta; Porque as vítimas não são brancas, portanto, não são humanos e em resultado não têm quaisquer direitos.

AB - Há 14 anos, o golpe de estado na Venezuela contra o presidente democraticamente eleito Hugo Chávez falhou e começou a saída dos EUA da América Latina. Pouco depois, os Estados Unidos invadiram o Iraque. Hoje a hegemonia no Mediterrâneo Oriental tropeça e Washington usa todas as armas à sua disposição para retornar à América Latina. Tem, na sua opinião, o Presidente Rafael Correa razão quando diz que estamos diante de um novo plano Condor na região?

AV - Definitivamente! O camarada Rafael Correa tem razão a maioria das vezes. Esta é a nova ofensiva "final" do Império na América Latina. Acabo de regressar da Argentina, Brasil, Paraguai; o que está acontecendo lá é absolutamente horrível. O Império está tentando liquidar quer os BRICS quer todas as revoluções latino-americanas.

AB - Se for o caso, tendo em conta o que aconteceu também no Brasil, Equador e Bolívia, que técnicas estão sendo usadas hoje?

AV - O mesmo que antes, as mesmas técnicas que foram utilizadas contra, por exemplo, o Presidente Allende e a "Unidade Popular' no Chile, antes do golpe de 11/09/1973 orquestrado pelos EUA

O Ocidente está a apoiar, mesmo a financiar os media de direita, está a financiar a "oposição", incentiva a fuga de capitais de milhares de milhões de dólares, trabalha em estreita colaboração com as elites locais para criar défices, incerteza e desespero. Cria escândalos de corrupção, e ainda apoia falsos movimentos de "esquerda" contra o governo. E, claro, treina e corrompe alguns quadros militares chave.

AB - O futuro do mundo, oferece de momento dois caminhos possíveis: um o unilateralismo dos EUA, particularmente no caso da Presidência de H. Clinton, composto por áreas de tratados de comércio "livre" ao redor do mundo sobre o modelo NAFTA (tais como o TTIP na Europa), com milhões desesperadamente pobres como resultado, lucros apenas para as multinacionais e a destruição planeada de todos os países que se rebelam contra essa visão (estilo Líbia e Síria); ou, a segunda possibilidade: um período de multilateralismo, o respeito pela soberania, a autodeterminação e a paz, se prevalecer o projeto alternativo ao "consenso de Washington", que seria o dos BRICS e o da integração regional na América Latina, projetado e construído por Chávez, Lula e Kitchener. E qual dos dois pontos de vista irá prevalecer, na sua opinião?

AV - Haverá grandes batalhas travadas para o futuro do mundo! Os próximos anos serão muito difíceis. Relativamente ao segundo cenário, para vencer, o mundo teria voltar ao ponto onde a luta pela independência e contra o imperialismo e colonialismo ocidental foi perdida ou abandonada há mais de 50 anos. Vamos encarar a situação: o mundo nunca foi na realidade completamente descolonizado. Seria total hipocrisia pretender o contrário.

Uma das visões populares em círculos de esquerda do Ocidente é que na verdade "todos somos vítimas do capitalismo". Eu discordo. Este capitalismo selvagem global é apenas um dos mais terríveis subprodutos da cultura ocidental dominante da ganância, racismo, brutalidade e desejo desenfreado de controlar o mundo. O mundo ainda está sendo agredido pelos dogmas da supremacia ocidental/branca/cristã e pelas práticas dos mais primitivos e fundamentalistas "princípios".

A verdade tem de ser revelada. Se o Ocidente insiste em continuar pressionando, as batalhas terão que ser travadas. E elas serão travadas. E as forças do internacionalismo, humanismo e solidariedade terão de sair vitoriosas ou em breve nada restará da raça humana.

Do mesmo entrevistado em resistir.info

  RDPC: isolada, demonizada e desumanizada pelo Ocidente

[*] Filósofo, romancista, cineasta e jornalista investigador. Fez coberturas de guerras e conflitos em dezenas de países. Os seus livros mais recentes são: Exposing Lies Of The Empire", "Fighting Against Western Imperialism", "Discussion with Noam Chomsky: On Western Terrorism , ou o seu aclamado romance politicoOceania – a book on Western imperialism in the South Pacific . Sobre a Indonésia escreveu Indonesia – The Archipelago of Fear . Presentemente realiza filmes para a Telesur e Press TV. Pode ser contatado através de seu sítio web ou do Twitter

O original encontra-se em L'Anti Diplomatico, publicado na Itália, onde o entrevistador é editor-chefe. A versão em inglês encontra-se em www.informationclearinghouse.info/article44945.htm . Tradução de DVC.

Esta entrevista encontra-se em http://resistir.info/ 

Pensamento do Dia !!!


Sabe o que é a Meia Idade?
  É a altura da vida em que o trabalho já não dá prazer...

...e o prazer, começa a dar trabalho!

Enviado por António Alves Ribeiro

Repassando: A actual situação em Moçambique

Por Momade Assife Abdul Satar 


 
ESTAMOS DE "TANGA"
Desde o dia 23 de Novembro de 2015, que tenho estado a reflectir, em jeito de contribuição para o debate de ideias, sobre a crise económica que afecta actualmente Moçambique. O meu primeiro post dessa época era intitulado: "Moçambique pode entrar em colapso a qualquer momento".
À época dessa primeira reflexão, o dólar norte-americano custava 40 e poucos. E pouca gente, mas pouca mesmo, estava ciente do que estava para acontecer, ou o que levava o dólar a custar 40 meticais. Posso até garantir que muitos não consideraram a realidade da situação ao extremo.
Hoje já é diferente. Custou mas as pessoas despertaram. Percebem que o caos está eminente.
O dólar hoje, no banco, está cotado a quase 70 meticais, e a qualquer momento poderá chegar a 80, 90 ou 100 meticais e para que isso aconteça, não falta muito.
Reflectindo:
A 15 de Janeiro de 2015, quatro dias antes da tomada de posse do nosso Presidente da República e meu conterrâneo Filipe Nyusi, o dólar estava 32,5 meticais. Hoje custa o dobro desse valor.
Os produtos da primeira necessidade estão a subir gradualmente. Assim é porque ainda se trata do stock antigo que os comerciantes têm nos seus armazéns. Daqui a nada, a subida não será gradual, mas, sim, galopante. Se não aumentaram os preços de forma arrepiante é porque também tinham medo de sofrer represálias de quem regula este sector.
Estou convencido que dentro de algumas semanas iremos observar uma subida de preços jamais vista em Moçambique.
Não devemos esquecer que 90% dos produtos em Moçambique são importados. 99% da matéria prima usada para vários fins é importado, o combustível é também importado. Automaticamente, tudo vai subir, desde os transportes até à alimentação.
A economia moçambicana é dolarizada, o que se chama em linguagem técnica de dolarização, daí que alguns serviços são pagos em dólares, ou seja, o seu cálculo é feito nesta moeda. Temos escolas onde paga-se em dólares, bem como alguns exemplos que ora me ocorrem que são a DSTV e a Tv Cabo. Com certeza que estes serviços irão aumentar os seus preços.
Dívidas
Não vou falar das dívidas da Ematum e outras, porque este assunto até já virou chacota. Qualquer criança de três anos em Moçambique, goza com isso. A verdade é que estas dívidas, de cerca de dois biliões de dólares, vão ser pagas. Pode não ser a breve trecho, mas um dia terá de ser e será com juros.
Em Janeiro último, o Banco de Moçambique criou medidas duras sobre cartões de crédito e débito, muitos até criticaram Ernesto Gove, o governador do banco emissor, e Adriano Maleiane, o ministro das Finanças. Ao tomarem estas medidas, quase que cirúrgicas, eles foram claros: " Não temos divisas, Moçambique não exporta nada ".
A mensagem de que Moçambique estava à beira do caos veio camuflada com a nova norma de que cada moçambicano só poderia levantar até um limite de 700 mil meticais. Algumas pessoas perceberam a partir desta decisão do Banco de Moçambique que a economia moçambicana estava a agonizar.
Western Union
Todos os moçambicanos que têm algum familiar no estrangeiro faziam as suas transferências via Western Union ou Moneygram. Acontece, porém, que estes já nem querem saber do metical, apenas dólar. Os que têm necessidade de enviar algum valor para fora, são obrigados a levar um enorme volume de meticais, trocar em USD no mercado negro, depois fazem as suas transacções normais nestas instituições. E aqui também as transferências são limitadas.
Agências de viagens
Todas as agências de viagem em Moçambique podem entrar em ruptura, isto porque quase todas trabalham com a IATA.
A IATA deve pagar às companhias aéreas em dólares. Logicamente, a própria IATA, por estas alturas, tem os mesmos problemas em adquirir a moeda americana nos bancos, por não haver divisas. E isto pode forçar a IATA, a qualquer momento, a suspender os acordos que tem com as agências de viagens.
Os moçambicanos terão que viajar para África do Sul para adquirir passagens aéreas para outras partes do mundo e as viagens custarão muito mais caras porque a cada dia o metical perde o seu valor.
Mercado negro
No 27 de Junho, o BCI vendia o dólar, com comissão, a 69,300 meticais. No mercado negro, o dólar era vendido a 67,300 meticais. Quer dizer, dois meticais mais abaixo do que o banco. Isto significa que há escassez da nossa própria moeda, o metical, nos circuitos normais de circulação. Normalmente deveria ser o contrário, no mercado negro deveria estar a 71 meticais e o banco vender mais baixo.
Financiamentos bancários
Os bancos comerciais em Moçambique estão à beira do colapso, não assumem publicamente apenas porque não têm como devolver o dinheiro dos clientes, estão a ganhar tempo.
Por exemplo:
O banco emprestava dinheiro com uma taxa de juro de 24% ao ano, e só num ano houve desvalorização da moeda em 100% o que. O banco ganhou nesse ano?
Aliás, as taxas directoras do Banco de Moçambique tem estado a ser actualizadas, isto é, quem tem empréstimos vai pagar mais pelo valor que obteve...
Imobiliária
Os preços de imóveis em seis meses caíram cerca de 50%. Um apartamento que era vendido por 200 mil dólares, que na altura eram seis milhões de meticais, hoje custa cerca de 95 mil dólares, sendo que se trata de um valor proibitivo, ou seja ninguém compra.
Rendas
As rendas baixaram acima de 70 % e mesmo assim ninguém quer.
Uma loja que há 15 meses alugava-se por dois mil dólares, hoje a mesma loja está a 50 mil meticais, valor que não chega 800 dólares e mesmo com este preço a procura diminuiu.
Importação
Como disse anteriormente, as importações já caíram quase 90%, primeiro não há divisas nos bancos para importação, segundo, os comerciantes não têm capital suficiente para importar um contentor; está hoje duas vezes mais caro do que anteriormente.
Se o comerciante, porventura importar, corre o risco de não vender porque o produto custa 130% mais caro do que no passado recente, e ainda porque o vizinho que tem o stock antigo vende 100% mais barato do que quem importa agora.
Conclusão:
Moçambique não está em colapso, Moçambique está de "tanga", sinto muito por usar esta expressão.
Sou moçambicano de gema. Sinto quando vejo compatriotas meus a sobreviver. Ademais, há alguns que ainda não caíram na realidade e quando isto acontecer, provavelmente vai ser tarde demais.
Recebi sem indicação do local da publicação
Cumprimentos
Luiz Pinto