sexta-feira, 27 de março de 2026

Mensagem da ADASCA para Dia Nacional do Dador de Sangue ano 2026

 
O Dia Nacional do Dador de Sangue celebrado a 27 de Março, foi instituído oficialmente através da Resolução do Conselho Ministros n.º 40/86, tinha por objectivo reconhecer a importância da contribuição desinteressada dos Dadores de Sangue para o tratamento de doentes.
A institucionalização do Dia Nacional do Dador de Sangue deve (devia) constituir, a expressão oficial desse reconhecimento e servir para evidenciar, junto da população em geral, o valor social e humano da dádiva de sangue, estimulando a sua prática como imprescindível. Contudo, a realidade que hoje vivenciamos é bem diferente, na medida em que não existem incentivos à dádiva. Os que existem nem sempre funcionam, são letra morta.
Este dia é comemorado num ambiente de total desunião, de desconforto entre associações de dadores. O sangue é sempre para o mesmo (doente que dele necessita) mas, não é tudo o mesmo.
Tenho afirmado ao longo destes anos, que os dadores não são respeitados no Serviço Nacional de Saúde, somos tratados como dispensáveis. Vive-se esse sentimento. Não pode, nem deve continuar a ser assim, tendo em conta que os dadores não dão prejuízo ao ministério da saúde, bem pelo contrário, a prova disso é que as nossas declarações ainda não foram desmentidas.
A quebra substancial de dádivas no Posto Fixo da ADASCA desde Janeiro, deve-se a diversos factores, sendo um deles as dificuldades de estacionamento das viaturas, como ainda às multas. Alguém está determinado em destruir o nosso trabalho, ou, sacudir as responsabilidades que devia assumir, pela falta de cooperação. Somos ou não necessários?
O sangue é um bem imprescindível e insubstituível, cuja obtenção depende exclusivamente da dádiva voluntária e benévola”. Se é tão imprescindível porque os dadores continuam a ser marginalizados? Porque devem pagar para ser solidários? O desconto no ordenado no final de cada mês é a prova evidente.
Mais: O valor que esta dádiva representa para a comunidade e o mérito dos dadores, que dedicada e persistentemente ao longo de toda a uma vida contribuem de forma desinteressada e altruísta com um bem indispensável à vida daqueles que dele carecem, devem ser mais fortemente sublinhados”. De boas intenções e discursos de circunstância estamos nós saturados.
Justifica-se, pois, que estes actos de inequívoco relevo e solidariedade social sejam reconhecidos ao mais alto nível da hierarquia do Ministério da Saúde. Nada disto corresponde à prática diária. "Bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz" é um ditado popular português que satiriza a hipocrisia de quem aconselha virtudes que não pratica.
A ausência dos dadores no Posto Fixo da ADASCA traduziu-se numa redução brutal e preocupante, tanto que os apelos à dádiva de sangue são uma constante. Somos nós os culpados? Desde 2014 que chamamos a atenção. De Julho a Dezembro de 2025 perdemos mais de 300 dadores.
No que diz respeito aos critérios para atribuição de isenção aos Dadores de Sangue, as Circulares Normativas da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), com os N.ºs 36 e 8, de 28 de Dezembro de 2011 e 19 Janeiro de 2012, explicitam que os Dadores de Sangue podem apenas (!) beneficiar da isenção do pagamento dos valores das taxas moderadoras nas seguintes condições: se tiverem efectuado mais de 30 dádivas na vida (designado por dador benemérito) ou se tiverem duas dádivas nos últimos 12 meses, incluindo os candidatos à dádiva impedidos temporária ou definitivamente de dar sangue desde que tenham efectuado 10 ou mais dádivas válidas (*).
As declarações comprovativas das condições anteriormente referidas são emitidas pelos Serviços de Sangue ou pelo IPSangue,IP. *
Isto revela uma falta de sensibilidade social pela causa da dádiva de sangue, que além surrealista, é injusta. Os dadores são soberanos, respondem com a sua ausência.
O descontentamento e, número de queixas que nos são transmitidas pelos dadores associados da ADASCA é preocupante, muitos declaram mesmo que não doam mais sangue, porque se sentem enganados, aliás, deixaram de comparecer.
O ministério da saúde, esqueceu-se da parte mais importante: as motivações humanas, que levam as pessoas a doar sangue, a sua mais-valia social, pensou (pensa) unicamente no custo-beneficio.
Se os discursos proferidos no Dia Nacional do Dador de Sangue se transformassem em mais um imposto, os responsáveis pela tutela, entre outros, seriam mais prudentes nas afirmações. A escassez de sangue não deve ser imputada aos dadores ou às associações, deve sim ser atribuída a quem destruiu todo um trabalho que demorou anos a erguer.
Há mais para dizer, melhor é ficarmos por aqui, porque nós é que somos os maus da fita, os malandros, os indiferentes, assim nos acusam às famílias dos doentes. Os familiares dos doentes são ou não dadores? Fica a pergunta. Antes dar do que receber.

Joaquim Carlos
Presidente da Direcção da ADASCA
Aveiro, 27 de Março de 2026, embora este artigo tenha sido escrito 2014
*Citação: Circular Normativa Nº 8/2012, de 19 Janeiro da Administração Central dos Sistema de Saúde (ACSS).


Nenhum comentário:

Postar um comentário