sábado, 16 de agosto de 2025

Opinião | Cristóvão Colombo, seria português?


Poucos episódios da História alimentaram tantas discussões como a verdadeira identidade de Cristóvão Colombo. A versão mais divulgada apresenta-o como genovês, nascido por volta de 1451, filho de um tecelão, que acabaria por singrar como navegador ao serviço dos Reis Católicos. Essa narrativa tornou-se oficial e repetida em manuais escolares de várias gerações. Porém, a História não é feita apenas de certezas. Entre lacunas, contradições e silêncios, abre-se espaço para hipóteses alternativas. Uma delas, defendida por vários investigadores e retomada por José Rodrigues dos Santos, sugere que Colombo poderia afinal ser português.

Sabe-se que o navegador casou com Filipa Moniz Perestrelo, filha do primeiro donatário da ilha de Porto Santo. Ao fixar-se na Madeira passou a ter acesso privilegiado a rotas atlânticas e aos segredos da náutica portuguesa. O sogro, ele próprio mareante, terá sido quem lhe transmitiu a arte de navegar. O casamento não é um simples episódio biográfico, mas um dado que liga Colombo ao coração da elite marítima de Portugal no momento em que o país liderava a expansão oceânica.
Quando regressou da primeira viagem à América, em 1493, Colombo não se dirigiu de imediato a Castela. A sua primeira paragem foi Lisboa, onde se apresentou perante D. João II. O encontro está documentado e continua a levantar perguntas. Porque razão um navegador ao serviço de Espanha sentiria necessidade de relatar o feito ao rei de Portugal antes de anunciar a vitória na corte castelhana? O itinerário mostra ainda outras paragens discretas em localidades a sul de Lisboa, quase como se estivesse a cumprir compromissos prévios, e só depois seguiu para os Reis Católicos.

Se fosse assumido como português, Castela corria um risco político evidente. As novas terras poderiam ser reivindicadas por Lisboa, colocando em causa o grande triunfo da monarquia espanhola. Mais seguro era fixar a versão genovesa e impô-la como verdade inquestionável. O receio espanhol explica em parte o silêncio e a construção da narrativa oficial.

Alguns detalhes parecem reforçar a hipótese portuguesa. O nome dado à primeira ilha encontrada foi Cuba. Oficialmente o batismo foi casual, mas permanece a dúvida. Existe em Portugal uma vila chamada Cuba, no Alentejo, e não é impossível que Colombo tenha escolhido esse nome em memória da sua terra natal.

As provas da origem genovesa também não são conclusivas. Nos arquivos encontram-se referências a um Cristoforo Colombo, filho de um tecelão de Génova, mas nada garante que se trate da mesma pessoa. Difícil é conciliar um artesão italiano com alguém capaz de escrever em castelhano erudito, de se exprimir em português, de dominar os segredos atlânticos e de se mover com naturalidade nas cortes europeias.

O maior enigma permanece em Sevilha, onde repousam os restos mortais do navegador. Foram já realizadas análises de ADN que confirmaram tratar-se efetivamente de Colombo. A comparação com restos de familiares diretos comprovou a identidade, mas os testes não revelaram a sua nacionalidade. Há indícios genéticos compatíveis com origens sefarditas da Europa Ocidental, embora nada de definitivo. Assim, as análises encerraram uma dúvida mas abriram outra ainda maior.

O que se seguiu ao feito de Colombo também pode ser lido sob outra luz. Portugal aceitou rapidamente negociar o Tratado de Tordesilhas que dividia o mundo em duas partes. Muitos viram nessa cedência a entrega generosa de vastas terras da América do Norte e Central a Castela. No entanto, os portugueses sabiam que essas regiões tinham menos riquezas imediatas do que o Brasil. Ao aceitarem esta partilha, evitavam um conflito direto com os espanhóis, assegurando ao mesmo tempo o território que viria a tornar-se a maior joia do império português. Essa lucidez estratégica só se explica se D. João II conhecia de antemão, talvez pelas informações de Colombo, a geografia aproximada das novas terras.

A versão genovesa continua a assentar em bases frágeis. A hipótese portuguesa responde a muitas das dúvidas que ainda persistem. Talvez nunca saibamos com absoluta certeza quem foi Cristóvão Colombo. Mas se um dia se autorizar a análise genética completa, a História poderá ter uma reviravolta tão surpreendente como a própria viagem de 1492.

O homem que mudou o mundo pode não ter partido de Génova. Pode ter nascido no coração do Alentejo e levado consigo a memória de Cuba para batizar a primeira ilha do Novo Mundo.

*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

sexta-feira, 15 de agosto de 2025

Cantanhede | Coleção reflete a experiência pessoal e traduz uma intensa viagem interior. Exposição de pintura patente no CIAX da Praia da Tocha até dia 24 de agosto

 
A exposição intitulada “Despertar”, de Monica Mar, foi inaugurada na terça-feira dia 12 de agosto e estará patente no CIAX - Centro de Interpretação da Arte Xávega, na Praia da Tocha, até ao dia 24 de agosto.
Na sessão esteve presente o vice-presidente da Câmara Municipal de Cantanhede, com o pelouro da Cultura, Pedro Cardoso, o presidente da Associação de Moradores da Praia da Tocha (AMPT), Hélder Gonçalves, entidade que em parceria com o Município dinamiza este centro interpretativo, assim como o presidente da Junta de Freguesia de Ourentã, Carlos Ventura, freguesia de onde a artista é natural.
A mostra, promovida pela AMPT com apoio da Câmara Municipal de Cantanhede, reúne cinco quadros de grandes dimensões que espelham a experiência pessoal da autora e revelam uma intensa viagem interior.
“Inserida na política de descentralização cultural, esta exposição evidencia a qualidade minuciosa do traço e a profundidade conferida pelo contraste entre o negro e o claro, ao mesmo tempo que reforça o apoio a novos criadores através da disponibilização de espaços expositivos, numa ação que se insere no compromisso municipal de promover diferentes formas artísticas, da música à dança, do folclore à pintura e à fotografia, oferecendo ainda aos veraneantes uma programação cultural diversificada no âmbito da Animação Cultural de Verão”, sublinhou Pedro Cardoso.
Mónica Marinheiro (1986), natural de Cantanhede, vive atualmente em Ourentã. Arquiteta de formação, trabalhou durante uma década em Inglaterra antes de regressar recentemente a Portugal.
Enquanto artista Monica Mar dedica-se em exclusivo à pintura, assumindo-a como parte essencial da sua vida e do seu percurso profissional.
Após a experiência no estrangeiro, decidiu arriscar e entregar-se por completo à sua arte — uma extensão de si própria e a sua linguagem poética de partilha e diálogo com o mundo e com o público.

Opinião | D. Afonso Henriques liderou a primeira batalha naval da nossa História e... ganhou!

 No século XII, Portugal ainda se debatia contra as forças almóadas, que além de desafiarem do interior, ameaçavam constante e impiedosamente as nossas costas. Em 1179, esses corsários mouros não se ficaram apenas por incursões costeiras: penetraram no estuário do Tejo, capturaram várias galés portuguesas e saquearam arredores, deixando um rasto de destruição que chegava aos portos de Lisboa. Foi esse o estopim que levou D. Afonso Henriques a compreender que a defesa da nação não poderia limitar-se à terra firme
Decidido a interromper o predador marinho, Afonso Henriques encomendou àfiguração de uma marinha de guerra nascente e deu ao bravo D. Fuas Roupinho um navio à altura dos seus talentos – ou melhor dizendo, ainda improvisado para as artes marítimas no reino. Roupinho, que já havia triunfado várias vezes em terra, incluindo um combate próximo de Porto de Mós onde derrotou tropas de Gamir com escassa vantagem numérica, foi elevado a almirante na estreia dessa força naval. Em meados de 1180, sua frota embainhou-se nas galerias do Tejo e rumou para sul, numa missão que juntava retaliação e afirmação territorial.
No dia 15 de julho, ao dobrar o Cabo Espichel, algo ainda inédito na História portuguesa aconteceu. Em frente a Sesimbra, as galés almóadas foram alcançadas serenamente, talvez por estarem más de manutenção ou com velas mais frágeis. O combate que se seguiu pegou o reino desprevenido pela sua intensidade: marinheiros inexperientes tornaram-se feras da coragem, lutar às escuras com a espuma das ondas ao redor, flechas e dardos rasgando o vento, até que os conveses se enchem de tumulto, sensação de madeira estalando sob movimento, e relinchar de aço nas mãos dos homens ferozes que empunhavam lanças e espadas.
Apesar da inexperiência, o sangue fresco e a determinação portuguesa firmaram o triunfo. Os mouros, surpresos com a ferocidade da resistência, viram-se derrotados e várias de suas galés foram capturadas. D. Fuas entrou em Lisboa em triunfo, ladeado por navios inimigos que serviram como troféus, símbolos de um Reino que não se confinava às colinas, mas ousava desafiar o marecido inimigo também nas águas.
O Rei, no entanto, não parou aí. Encorajado pelo sucesso, mandou perseguir os inimigos até ao Algarve e atravessar o Estreito de Gibraltar. Roupinho remou até Ceuta e regressou de lá com presas adicionais, mostrando que o oceano podia ser palco de conquista, não apenas de defesa.
É impressionante pensar que D. Afonso Henriques, um príncipe moldado para o combate terrestre, se tenha mostrado visionário o bastante para criar uma marinha. Ele não foi marinheiro, mas liderou com estratégia, coragem e senso político. A batalha não foi categoricamente documentada em número exato de combatentes, mas sabemos que cada lado reuniu cerca de nove galés, com tripulações suficientes para infligir e resistir aos golpes mais cruéis do artesanato naval medieval.
Este embate foi decisivo: reforçou a segurança das costas, incentivou a circulação mercantil com o Norte da Europa, e lançou as bases daquilo que seria séculos depois a grande proeza portuguesa dos oceanos. Em menos de meio século, Portugal passaria de um reino interior para uma potência atlântica, com feitorias comerciais em Bruges, intercâmbios riquíssimos e uma identidade marítima emergente.
Tudo começou com essa vitória de 15 de julho de 1180, quando o Fundador escolheu desafiar o mar e provou que o seu reino não era apenas de terra, mas também de ondas.

*Paulo Freitas do Amaral
Professor, Historiador e Autor

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Dia Internacional da Juventude assinalado em Oliveira de Frades


No dia 12 agosto celebrámos a energia, a irreverência e a força da nossa juventude com um programa que incluiu diversas atividades desportivas, lúdicas e muita animação. 
Paddle Surf, Hydro Burn, Workshop Graffiti, entrada grátis na Zona de Fruição Ribeirinha de Sejães e um pôr de sol fantástico a contemplar a bela paisagem da Albufeira da Barragem de Ribeiradio, ao som da Dupla de DJ A++ foram alguns dos momentos marcantes deste dia. 
Foi mais do que um evento! Foi um momento para reforçar que os jovens são a força do presente e a esperança do futuro. Continuaremos a criar oportunidades, a apoiar os seus sonhos e a dar palco à sua voz e talento.

*Sara Carvalho
Assessora de Comunicação - Gabinete de Comunicação e Imagem

Exposição: "Já não se contam ovelhas para dormir" no Museu Municipal de Oliveira de Frades

“Já não se contam ovelhas para dormir?” é o nome da exposição, de Andrea Inocêncio, que se encontra patente no Museu Municipal. 
Esta exposição destaca-se pela sensibilidade e profundidade com que aborda o papel das mulheres pastoras, particularmente da região de Tondela. São as guardiãs de saberes ancestrais e de uma presença que muitas vezes permanece invisível. 
A combinação de arte, investigação etnográfica e memória local torna esta mostra um retrato comovente da ligação ao território e da identidade de comunidades tradicionais em evolução. 
Realizada no âmbito de uma Residência Artística, esta exposição é promovida pelo Novo Ciclo ACERT, com o apoio à Programação da DGArtes, e curadoria da Zetavares / ACERT Tondela.

*Assessora de Comunicação - Gabinete de Comunicação e Imagem

A caminho da Indonésia!

 Olá Litoral,

Antes de mais, parabéns à minha filha Inês por ter ganho uma bolsa Year of Opportunities, que lhe vai permitir cumprir o sonho de fazer um Gap Year antes de ir para a Universidade. O velhinho Diário da Pikitim terá assim uma nova fase, agora no instagram e pela mão da própria. Sigam a Inês que vai valer a pena.

Pela minha parte, não tenho escrito muito porque tenho andado a preparar uma viagem muito especial. Na verdade, estou desde 2020 para regressar à Indonésia, ano em que tinha planeado passar três meses a explorar algumas das ilhas e regiões que fazem parte do meu imaginário - Raja Ampat, Sulawesi, Flores, Lombok, Sumba e muitas outras. Mas a pandemia obrigou-me a cancelar tudo.

Cinco anos volvidos, é altura de finalmente regressar à Indonésia! - mas focando-me apenas numa dessas regiões. Será um mês de viagem à moda antiga, intenso e desafiante, e estou muito expectante com o choque cultural que aí vem. Parto na próxima semana.

A propósito, nessa viagem vou usar um eSIM para me manter ligado à internet, porque fiquei fã do sistema - a esse respeito, escrevi um artigo sobre os eSIM da Holafly. Uso há relativamente pouco tempo (desde que troquei de telefone) mas quando fui visitar as Seychelles fiquei muito bem impressionado com esses cartões virtuais e, por isso, passei a usar um eSIM nas minhas viagens - e a recomendar.

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A terminar, deixo o habitual pedido para utilizar estes links ao planear as próximas viagens. Para si não faz diferença mas para mim é uma grande ajuda. Muito obrigado.

Grande abraço e boas viagens,

Filipe Morato Gomes

Cantanhede | Apoios institucionais juntam-se ao anterior reconhecimento da TIMEX Portugal. Museu LOAD ZX recebe apoio oficial da família Sinclair e do Grupo TIMEX


No ano em que celebra o seu 5.º aniversário, o Museu LOAD ZX recebeu o apoio oficial da família Sinclair e do Grupo TIMEX, juntando-se este reconhecimento a outros prémios já conquistados e ao tributo dos ex-trabalhadores da TIMEX Portugal.
Numa carta assinada por Crispin Sinclair, filho de Sir Clive Sinclair, a família destaca que o Museu apresenta “a mais completa exposição da vida e obra de Clive” e que “a sua importância vai muito além da nostalgia, servindo como uma instituição crucial para educação, investigação e inspiração”.
O Grupo TIMEX, através do vice-presidente David Payne, sublinha que o Museu desempenha “um papel essencial na preservação e promoção da história do envolvimento da TIMEX na informática”
e que “manter viva a contribuição da TIMEX — especialmente a da TIMEX Portugal — representa um serviço inestimável”.
Para Pedro Cardoso, vice-presidente do Município de Cantanhede e cofundador do Museu LOAD ZX, “este reconhecimento enche de orgulho o Município e reforça a aposta que fizemos neste projeto desde o primeiro momento”.
Já João Diogo Ramos, fundador e curador do Museu LOAD ZX, explica que este reconhecimento é o resultado de anos de contactos e comunicação para demonstrar a singularidade e qualidade do trabalho realizado. “É um sonho tornado realidade e que continua a posicionar o LOAD ZX de uma forma única no mundo”, sublinhou.
O Museu LOAD ZX convida o público a visitar as suas instalações em Cantanhede e a descobrir um acervo premiado e único a nível internacional.