sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Crónica de Agosto

ARTIGO DE OPINIÃO, JORNAL I, TOMÁS VASQUES
Nestas férias não precisam de ler Marx. Regressem a Eça de Queirós.Descobrem lá quase tudo: este país é uma “choldra torpe”
tomasvasquesAgosto, o último mês do ano no meu calendário, evoca o murmurejar das ondas a desfazerem-se em espuma no extenso areal da ilha de Tavira, a mais bela praia de todas as infâncias e adolescências, por onde passei e que me remete para tempos esquecidos, coisas insignificantes, intimidades. Rememorei agora esse tempo distante que aos poucos se desfizera no interior da memória, tal como os barcos se desfaziam no fio do horizonte quando, ainda criança, me sentava na areia a observar o movimento das ondas e a inquietar-me com o seu murmurejar.
Aconselhado pelo escritor José Marmelo e Silva, meu professor, autor de “O Adolescente Agrilhoado”, livro que me emprestou para ler, aos 11, 12 anos, li tudo o que havia para ler de Eça de Queirós, em livros requisitados na biblioteca da Gulbenkian, situada na Rua da Galeria, em Tavira. Aí comecei a aprender, com João da Ega, que o país que me calhara em destino era uma “choldra torpe”, observação que ainda hoje não destoa, passado mais de um século sobre o que escreveu o autor de “Os Maias” e meio século sobre essas minhas primeiras leituras.
Só mesmo numa choldra torpe o senhor Presidente da República, o senhor primeiro-ministro, a senhora ministra das Finanças e o senhor governador do Banco de Portugal – ou seja, todo o poder que nos pastoreia – podiam jurar, como juraram, a pés juntos, com a mão no peito e ar solene, durante quase um mês, por estas ou outras palavras, que “os portugueses podem confiar no BES, dado que as folgas de capital são mais que suficientes para cobrir a exposição que o banco tem na parte não financeira, mesmo na situação mais adversa” E, depois, quando se percebeu que afinal o que disseram era falso, um engodo para enganar papalvos, a fina flor de um poder à deriva, sem credibilidade nem mérito, partiu para o mar, ali para a Manta Rota ou para a praia da Coelha, ouvir o murmurejar das ondas a desfazerem-se em espuma no areal, como se nada disto lhes dissesse respeito. Sem uma palavra. Sem uma justificação nem um acto de contrição.
Só mesmo numa choldra torpe um governo aprova à socapa, na quinta- -feira 31 de Julho, um diploma que testemunha que a expropriação do BES já estava decidida, pelo menos nesse dia mas certamente antes, omitindo-o no comunicado do Conselho de Ministros, como se o governo estivesse na clandestinidade e este assunto fosse dos “deuses” e não dos portugueses.
Só mesmo numa choldra torpe a decisão do governo, com a conivência do senhor Presidente da República, é conhecida antecipadamente apenas por “gente de bem”, próxima do governo, o que provavelmente permitiu atempadamente a venda de acções do BES pela Goldman Sachs e outros “amigos”, o que levou à monumental queda em bolsa a 31 de Julho e 1 de Agosto, ou à retirada do dinheiro das contas da PT por esses dias.
Só mesmo numa choldra torpe se permite a promiscuidade de comentadores habitual de canais de televisão, ex-presidentes do principal partido do governo, um deles conhecido como a “bruxa de Carnaxide”, que anunciam a solução para o “caso BES” antes de o governador do Banco de Portugal a ter apresentado, supostamente em “primeira mão”.
Só mesmo numa choldra torpe um governo, por razões ideológicas, trata com eufemismo a inevitável nacionalização de um banco, para evitar males maiores, através de uma “engenharia” pirotécnica, em que os contribuintes entram com 90% do capital e a propriedade é entregue às “instituições financeiras a operar em Portugal”, sendo todos os riscos, como bem sabem, de quem paga impostos.
Volto ao começo: nestas férias não precisam de ler Marx. Regressem a Eça de Queirós. Descobrem lá quase tudo. E descubram também o escritor José Marmelo e Silva.
Jornal i
Por Tomás Vasques
Jurista
publicado em 11 Ago 2014 – 05:00
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Um comentário a este artigo de opinião, publicado no “i”, que assino por baixo:
Num país a sério, leia-se um verdadeiro Estado de Direito, já teriam ocorrido detenções. Não admira pois que o “Madoff Português” e respectiva “famiglia” andem por aí impunes. São muitas as ramificações dessa teia onde esses pulhas sempre se moveram. Por isso estão bem protegidos. E com isto não me estou a referir aos seguranças israelitas que o DDT contratou. Vejam só como é possível haver tanta impunidade como se as “trafulhices” desses “santos” (só de nome) fossem “normais”. Relembremos só algumas, para as quais o Ministério Público não parece se incomodar: O caso Portucale, que meteu o abate de sobreiros numa zona protegida, após a aprovação de empreendimentos imobiliários em contra-relógio, em vésperas das legislativas de 2005, por parte de ministros do CDS-PP; O caso dos submarinos, onde se suspeitou de financiamento partidário por parte do consórcio vencedor; O caso Mensalão, mais financiamento partidário, desta vez do PT de Lula da Silva (as notícias do caso levaram a um corte de relações entre o BES e a Impresa); O caso das contas de Pinochet, com dinheiro do ditador chileno a passar, segundo uma investigação americana, pelo banco português, via Miami; O caso das fraudes na gestão dos CTT, incluindo a mediática venda de um prédio em Coimbra, valorizado em mais de cinco milhões de euros num só dia; A interminável Operação Furacão, megaprocesso de investigação de fraude fiscal; O caso Monte Branco, onde Ricardo Salgado constava da lista de clientes da Akoya, rede suíça de fraude fiscal e branqueamento de capitais; O caso dos 8,5 (ou será 14?) milhões de euros que Salgado se “esqueceu” de declarar ao fisco, detectados na sequência das investigações à Akoya, e que teria recebido por alegados serviços de consultadoria prestados a um construtor português a actuar em Angola; O caso da venda das acções da EDP pelo BES Vida, feita dias antes da aprovação da dispersão em bolsa da EDP Renováveis, o que levantou suspeitas de abuso de informação privilegiada; O caso do BES Angola, uma investigação por branqueamento de capitais que acabou por transformar Álvaro Sobrinho, antigo presidente do BESA, num dos inimigos de Ricardo Salgado (o BES, por sua vez, veio acusar Sobrinho de utilizar os jornais da Newshold (o i e o Sol) para ataques pessoais ao presidente do banco); O caso da recente multa (1,1 milhões de euros) em Espanha, devido a infracções “muito graves” de uma norma para a prevenção de branqueamento de capitais (em 2006, a Guardia Civil já havia feito uma rusga a uma dependência espanhola do BES).
Em Portugal há um grupelho de pulhas que domina isto através de um corrupto e promíscuo triângulo de interesses entre a política, o poder económico-financeiro e as lojas maçónicas. São estes “agentes triplos” que capturaram e subjugaram esta nação fazendo-nos crer através dos “media” que controlam que isto aqui é uma democracia. Por isso não se reforma o sistema político e eleitoral. Se houvesse escrutínio nominal sobre os eleitos jamais haveria mais de metade dos deputados com interesses ligados a essa oligarquia e a fazerem lóbi no Parlamento por ela. Foram esses oligarcas os únicos a enriquecer com a crise à custa do empobrecimento de todos. Este país já está cadáver, fedendo por todos os seus poros tal o grau de podridão a que chegou.

Ainda falta compreender tanto…

ARTIGO DE OPINIÃO, EVA PAULINO, JORNAL I
As doenças mentais em geral, e a depressão em particular,têm sido permanentemente relegadas para segundo plano
emapaulinoEsta semana o mundo perdeu uma das suas referências cinematográficas. Robin Williams foi encontrado sem vida em sua casa, depois de se ter, aparentemente, suicidado. Estes são, até agora, os factos que conhecemos. Mas o que de uma forma ou de outra todos gostaríamos de saber, e que sequiosamente procuramos, são as razões por detrás de tão trágico final. Por isso, as conjecturas aparecem, alimentadas por acontecimentos reais que depois nós próprios revestimos de diferentes significados.
Uma dessas conjecturas faz referência à “maldição de Ramsey”, nomeada por conta da teoria de que cada vez que Aaron Ramsey, jogador de futebol do Arsenal, marca um golo, morre uma celebridade. Ora, esta teoria não retrata mais do que a nossa necessidade de encontrar explicações para o inexplicável – mesmo quando a explicação é mais irracional do que o reconhecimento humilde e verdadeiro de que simplesmente não conhecemos muito do que há a conhecer do ser humano… pelo menos, não ainda.
As doenças mentais em geral, e a depressão em particular, têm sido permanentemente relegadas para segundo plano. Não só do ponto de vista clínico, mas também socialmente. Não é raro ouvir indivíduos, incluindo profissionais de saúde, desvalorizarem os sintomas da depressão como sendo algo trivial e de somenos importância. “Afinal, todos nos sentimos tristes de vez em quando…”
Mas, na realidade, desprezar estes sintomas pode não ser muito diferente de desprezar valores de pressão arterial elevada… até que algo trágico acontece. A questão é que há um sentimento generalizado de vergonha, um estigma associado à doença mental, que percorre de forma transversal a nossa sociedade. É frequente, aquando da dispensa de medicamentos indicados para este tipo de patologias, os doentes justificarem a sua toma com factos que ocorreram na sua vida, e referirem que será por pouco tempo, já que vão procurar “dar a volta por cima” o mais rapidamente possível. Ao que tenho que retorquir que o cérebro é um órgão como outro qualquer… se tomamos medicamentos para o coração e não esperamos que as pessoas tenham qualquer controlo sobre a sua necessidade, porque havia o cérebro de ser diferente? Só porque se encontra noutra parte do corpo humano?
Há muito que ainda não compreendemos acerca do nosso cérebro. Um livro que ilustra este mesmo facto intitula-se “Brain on Fire: My Month of Madness”, e foi escrito na primeira pessoa por Susannah Cahalan, uma jornalista de 24 anos que começou a evidenciar sintomas psiquiátricos e que permaneceu internada durante um mês sem qualquer memória do sucedido, até que lhe foi diagnosticada uma encefalite autoimune. O diagnóstico (e subsequente tratamento) surgiu após vários médicos terem feito diagnósticos diversos, incluindo o de que simplesmente bebia demasiado ou estava a sofrer um esgotamento. Este tipo de encefalite só foi identificada em 2007. Quantos casos terá havido anteriormente? E se fosse uma doença associada a um outro órgão qualquer, teria demorado tanto tempo a ser identificada?
Num estudo que decorreu de 2006 a 2008, Portugal apresentou o resultado de prevalência de doença mental mais elevado dos oito países da Europa que integraram o painel. Em 2013, a Direcção-Geral de Saúde publicou o documento “Saúde Mental em Números”, que visou enquadrar e delinear uma estratégia para o desenvolvimento do Programa Nacional para a Saúde Mental.
Há, de facto, necessidade de se diminuir o hiato que existe hoje entre os problemas e as soluções que temos disponíveis. Amanhã, podem ser outras. Mas, as boas notícias são que procurando ajuda precocemente, haverá grandes probabilidades de sucesso no tratamento. Cada um de nós pode e deve evitar as próprias tragédias… agindo aos primeiros sinais.
Jornal i
Por Ema Paulino
Farmacêutica
publicado em 14 Ago 2014 – 05:00
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Uma nação doente

ARTIGO DE OPINIÃO, JORNAL PÚBLICO, SANTANA CASTILHO

A deriva do país, entregue a dirigentes sem ética nem vergonha, não se detecta apenas na Educação.

santanacastilhoA conturbada Prova de Avaliação de Conhecimentos e Capacidades (PACC) foi realizada por 10.220 professores, dos quais 1.473 reprovaram. Esclareço que o uso do qualificativo “professores”, que não “candidatos a professores”, como o ministro da Educação lhes chama, é consciente e está correcto. Porquê? Porque a lei vigente lhes confere esse título profissional, logo que terminam a sua formação superior. Portanto, se os apelidarem de “candidatos”, serão só “candidatos” a um lugar em escolas públicas.
Feito este esclarecimento, passemos aos factos e às considerações que me merecem:
1. Segundo os resultados divulgados, relativamente ao item da prova em que se pedia a produção de um texto com uma dimensão compreendida entre 250 e 350 palavras, 62,8% desses textos continham erros ortográficos, 66,6% erros de pontuação e 52,9% erros de sintaxe. Isto é preocupante? É! Seja qual for a área científica da docência, é exigível a um professor que conheça o código de escrita e, muito mais, a sintaxe, sem cujo domínio não se exprimem ideias de forma ordenada e coerente. Como é preocupante o presidente da República dizer, reiteradamente, “cidadões” em vez de cidadãos! Ou recriar o futuro do verbo fazer, de farei para “façarei”. Como é preocupante o primeiro-ministro dizer “sejemos” em vez de sejamos. Como é preocupante encontrarmos no comunicado do Ministério da Educação e Ciência, ironicamente sobre a PACC e no próprio dia em que teve lugar a segunda chamada, um estranho verbo “revir” em lugar de rever. Como é preocupante uma deputada escrever “sensura” por censura, “tulero” por tolero ou “bloquiarei” por bloquearei.
2. Posto o anterior, sucede-se a pergunta óbvia: e agora? Agora temos a humilhação pública de toda uma classe, com todo o cortejo de generalizações abusivas e nada acrescentado à superação de eventuais lacunas na formação dos jovens professores (jovens, sim, porque é bom recordá-lo, falamos de professores que nunca deram uma só aula ou têm menos de cinco anos de contratos precários, em regime de escravatura moderna).
O incremento da qualidade dos professores só se consegue com a valorização da sua formação, inicial e contínua, e com a melhoria das condições de trabalho. Mas Nuno Crato e os que o apreciam como o justicialista do “eduqês” galopam estes resultados como se com eles fosse possível substituir o investimento na formação por uma prova que não destrinça um bom professor de um satisfatório perito em decifração de charadas.
3. Dito o que disse supra, tenho legitimidade para fazer 3 perguntas simples:
– Como se pode confiar na integridade do processo de apuramento dos resultados da PACC, particularmente depois de o Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) ter trocado chaves de correcção e de o país ter conhecido a fraude da avaliação encomendada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, cujo contrato impunha um determinado resultado?
– Como foram contabilizadas, nas estatísticas do IAVE, as provas entregues depois de marcadas com diferentes expedientes de protesto? Foram muitas ou foram poucas? Quantas?
– Que influência tiveram nos resultados os múltiplos tipos de coacção verificados e as grosseiras faltas de condições mínimas para a realização de um exame (ampla e publicamente documentadas nas televisões)?
4. O epílogo desta saga remete-nos, finalmente, para o mais grave problema da nossa sociedade: a pulverização da confiança dos cidadãos no Estado e nas elites que nos governam. A deriva do país, entregue a dirigentes sem ética nem vergonha, não se detecta apenas na Educação. Está por todo o lado, qual tsunami de lama.
O governador do Banco de Portugal e o presidente da República disseram-nos que o BES era sólido e que podíamos estar tranquilos. Com o golpe de mão de 3 de Agosto e a divulgação pública da acta que o consumou, não foi só o BES que foi reduzido a nada. Nenhum dos que “se não sabiam deviam saber” veio a público reconhecer a incompetência com que facilitaram tantos crimes de mercado.
Em 2007 escrevi sobre o drama de Manuela Estanqueiro, professora com 63 anos de idade, 30 de serviço, vítima de leucemia aguda, a quem, por duas vezes, uma junta médica recusou a reforma por doença e obrigou a dar aulas nas vascas da morte e em sofrimento desumano. Um tribunal de segunda instância acaba de condenar a Caixa Geral de Aposentações a pagar à filha uma indemnização de 20.000 euros. Os responsáveis por esta vergonha de uma sociedade sem critério, mais aqueles que tiveram o desplante de recorrer da sentença inicial, pedindo que a indemnização fosse reduzida para 5.000 euros, continuam nos seus postos, sem beliscadura. Como Ricardo Salgado permanecerá no seu iate e na sua mansão, sem que o fisco estranhe que tal cidadão não tenha um só bem em seu nome.
Três anos de austeridade não destruíram só a economia, o emprego e os direitos sociais. Adoeceram a nação.
Público
Santana Castilho
Professor do ensino superior (s.castilho@netcabo.pt)
13/08/2014 – 01:10
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O dia em que os lobos passaram a ovelhas

ARTIGO DE OPINIÃO, JORNAL I, NUNO RAMOS DE ALMEIDA
O primeiro-ministro de um dos partidos que mais tempo estiveram no poder nos últimos 40 anos veio falar da promiscuidade entre política e negócios a propósito do caso BES
nunoramosalmeidaEstamos a um ano das eleições legislativas e, como na Primavera as lagartas se transformam em borboletas, nesta época do ciclo eleitoral os governantes recriam–se em defensores dos pobres e combatentes da corrupção que grassa nos grandes grupos financeiros.
A descoberta de Passos Coelho da incrível promiscuidade entre política e negócios prova que ele tem a invejável capacidade de se abstrair dele próprio em alturas de promessas eleitorais. Nada que nós não soubéssemos do homem que foi eleito a dizer que não aumentava impostos, não cortava nos rendimentos dos reformados que tinham trabalhado uma vida inteira e que a crise não ia ser paga sobretudo por quem trabalha.
Vivemos há 40 anos em democracia, mas quem mandou neste período, salvo durante uma breve interrupção revolucionária, foi a mesma elite económica de antes do 25 de Abril. Há obviamente algumas, muito poucas, modificações no grupo dos homem mais ricos do país, mas Portugal continua a ser um dos países mais desiguais da Europa, em que o poder está na mão de uma minoria.
Mais que democracia e liberdade, o que tivemos até hoje é um jogo, em que tudo parece mudar para que tudo continue exactamente na mesma. A alternância entre PSD/CDS e PS é a base que garante a manutenção do poder dos do costume. É claro que eleitoralmente e historicamente essas forças políticas não são iguais. Mas a sua sucessão é a garantia de uma ilusão de democracia, enquanto se construiu continuamente um regime em que as pessoas têm cada vez menos poder em relação à sua vida. Mais de 90% da população afadiga-se a trabalhar e a sobreviver, enquanto os mais ricos e os seus políticos de companhia decidem e engordam.
Foi esta sucessão de governos que permitiu a completa desregulamentação do mercado financeiro, a multiplicação das imparidades e que distribuiu pelos grupos económicos e financeiros elevadas rendas suportadas pelos contribuintes. O modelo favorito de negócio que estes políticos, em comissão de serviço no governo enquanto esperam lugar à mesa do negócios, são contratos e negociatas em que o Estado paga uma taxa de lucro elevada aos privados e o contribuinte é que corre todos os riscos.
Esta crise sucessiva do modelo económico de acumulação existente configura uma crise política deste regime: de tanto roubarem e especularem rebentaram pelas costuras. Este situação cria a possibilidade da superação democrática deste regime de casta e compadrio. Se cada vez mais gente percebe que esta “democracia” não é democrática, que não podemos ter um poder que é uma espécie de guichet dos interesses corruptos do capital financeiro, então temos uma situação em que a esmagadora maioria da população se opõe a este estado de coisas. É necessário apenas, um apenas que é muito grande, transformar este descontentamento em acção e esta acção em alternativa.
Só os filmes têm finais felizes, e a nossa situação pode apenas piorar. Sem uma ruptura popular e democrática, o caminho conduz-nos a um país cada vez mais dependente em que à população é dado como saída servir os turistas, emigrar ou morrer. Mas o futuro também depende de nós.
Jornal i
Por Nuno Ramos de Almeida
Editor-executivo
publicado em 19 Ago 2014 – 05:00
A descoberta de Passos Coelho da incrível promiscuidade entre política e negócios prova que ele tem a invejável capacidade de se abstrair dele próprio em alturas de promessas eleitorais. Nada que nós não soubéssemos do homem que foi eleito a dizer que não aumentava impostos, não cortava nos rendimentos dos reformados que tinham trabalhado uma vida inteira e que a crise não ia ser paga sobretudo por quem trabalha.
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A verdade é como o azeite


ARTIGO DE OPINIÃO, JORNAL I, TOMÁS VASQUES

O que testemunha a hecatombe da estratégia deste governo é o paradoxo de se vangloriar da ligeira melhoria de indicadores económicos que resultam dos chumbos do TC
tomasvasquesDizem que a verdade é como o azeite: vem sempre ao de cima. Não estou certo que isso aconteça sempre, como diz o ditado popular. Contudo, passados três anos, o rotundo fracasso das políticas do actual governo está a vir ao de cima, com clareza, neste último ano do seu mandato.
Está à vista que o “novo modelo de crescimento”, tão solenemente prometido por este governo, como uma “nova era económica”, assente no crescimento das exportações, o que permitiria o equilíbrio da balança comercial, era uma falácia. Mais do que falácia, era um logro destinado a justificar a estratégia de empobrecimento generalizado e de destruição de parte da economia destinada a satisfazer necessidades de consumo interno consideradas “supérfluas”. É hoje evidente que a saída da recessão, mesmo com um crescimento anémico, e um ténue aumento do emprego, resulta sobretudo do aumento do consumo interno e não das exportações. Neste fracasso do governo, até a balança comercial se inclina para o desequilíbrio estrutural do passado, o que é natural na ausência de qualquer política consistente de desenvolvimento industrial.
Como em vão foram os biliões de euros sacados em impostos, salários e pensões de reforma, atirados para a fogueira do controlo do défice orçamental. Passados três anos, a grande bandeira deste governo – o controlo das contas públicas – está totalmente esfarrapada. Arriscamo-nos a ter, este ano, um défice orçamental próximo dos 8% – uma autêntica queda no abismo. E se a senhora ministra das Finanças chora as decisões do Tribunal Constitucional que, pasme-se, “obrigou a repor salários e impediu a tributação dos subsídios de doença, de desemprego e os cortes das pensões de viuvez”, quanto a outras despesas do Estado, que não resultam de decisões judiciais, o governo abriu os cordões à bolsa.
Como resultado de todos estes fracassos do governo – do empobrecimento, da destruição de parte do tecido económico, da recessão, da total incapacidade para controlar o défice – resulta um significativo aumento da dívida externa, não só em valor absoluto, mas em percentagem do PIB. Isto significa que, se não houver uma reestruturação da dívida, sobretudo quanto a prazos e juros, ficamos condenados, por décadas, a uma pobreza franciscana.
O que testemunha ainda mais a hecatombe da estratégia deste governo é o paradoxo de se vangloriar da ligeira melhoria de indicadores económicos que resultam, exactamente, de situações a que se opõe ferozmente, umas, que condena por razões ideológicas, outras; ou, ainda, que lhe são completamente estranhas. No primeiro caso, estão as decisões do Tribunal Constitucional que, ao impedir cortes de salários, de pensões de reformas e de viuvez, de subsídios de desemprego e de doença, permitiu que as famílias fossem menos espoliadas, facilitando o consumo interno que nos retirou da recessão. No segundo caso, está o emprego privado subsidiado, através de estágios, que tem produzido resultados positivos. Segundo o semanário “Expresso”, 60% dos novos empregos são subsidiados pelo Estado. Isto deve arrepiar os mentores neoliberais do governo, mas no meio do naufrágio, em desespero, e com eleições à vista, até a medidas “socializantes” se agarram. No terceiro caso, estão as situações em que o governo é completamente alheio, como por exemplo, os excelentes resultados obtidos pelo turismo, os quais resultam em parte da insegurança provocada por conflitos, alguns de grande violência, em destinos habituais de europeus no Norte de África e Médio Oriente.
O facto de o governo se vangloriar de resultados a que se opôs, que não deseja ou que lhe são estranhos só aumenta a dimensão do descalabro das suas políticas.
Jornal i
Por Tomás Vasques
Jurista
publicado em 1 Set 2014 – 05:00
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O fim da ética social

ARTIGO DE OPINIÃO, BAPTISTA BASTOS, JORNAL DIÁRIO DE NOTÍCIAS  
baptista_bastosTodos os indícios no-lo dizem que vamos pagar, de viés ou a direito, o buraco de 5 mil milhões legado pelo BES. O dr. Salgado pagou, de presto, os 3 milhões de euros, caução para não ser engavetado; goza as delícias do verão na sumptuosa villa de Cascais; dizem as notícias que possui 200 milhões de dólares criteriosamente divididos em bancos do Oriente; e que vai envelhecer embalando doces memórias, enquanto os seus advogados delegam para as calendas o que a justiça tardará em dizer.
O parágrafo vai longo, mas como estas minudências dos tribunais, em Portugal, são tardas e longas, a justificação está feita. O primeiro–ministro, entretanto, com voz de tenor fanado, insiste em dizer-nos que não esportularemos um cêntimo pelos desmandos dos “privados”. Bom: a impostura não tem pernas para correr. Os cerca de dois mil funcionários ameaçados de despedimento certo; as centenas ou milhares de investidores que vão ficar sem o dinheiro aplicado; a mistificação ultrajante entre o “banco mau” e o “banco bom”, que ninguém sabe rigorosamente o que é, nem, sequer, o inteligentíssimo especialista da SIC, sr. Gomes Ferreira – tudo isto, e o mais que se desconhece, terá de ser pago por alguém, e todos sabemos por quem.
As “análises” consagradas à questão são puros exercícios de balbúrdia, que baralham as pessoas. Apenas Nicolau Santos e Pedro Santos Guerreiro não fazem do parlapié uma conduta de espalha-brasas sobre a natureza do problema. O resto é a triste decepção permanente. Onde está o dinheiro, a “pipa de massa”, para usar a expressão chula do pacóvio Barroso?
Apesar dos avisos cautelares dos responsáveis pelo descalabro, muitos milhares de portugueses apressaram-se a transferir as suas parcas economias para a CGD. O que fornece a dimensão de credibilidade e de respeito que nutrimos pela casta que trepou aos vários poderes.
Estamos num momento crucial: é preciso ir mais além do que se ouve dos políticos e do que secos e do que se lê nos jornais: insanidades e mistificações. O sentido e a prática da democracia não se esgotam nas formas jurídico-políticas, criadas e estruturadas por um “sistema”, o capitalista, bem entendido, cujo significado está cada vez mais vazio, e mais perigoso pela sua vacuidade e objectivos. Já aqui o disse: o Ricardo Salgado não é a causa, é o efeito – deletério e inquietante. Nem por isso deixam de merecer punição adequada, ele e os comparsas desta monstruosa delinquência. Comprou, por três milhões, a prestação para não ser preso. É uma imoralidade absoluta, permitida, aliás, por uma “justiça” criada pelo “sistema” que liquida os seres éticos e as regras de decência previstas pela democracia. Se estes são destruídos – que nos resta?
Diário de Notícias
13/08/2014
por BAPTISTA-BASTOS
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E viva a incompetência

ARTIGO DE OPINIÃO, JORNAL DIÁRIO DE NOTICIAS, NUNO SARAIVA
nunosaraivaPortugal é um lugar estranho, onde, ao contrário de outros poisos, a incompetência é apreciada e, até, premiada.
Esta semana, por exemplo, o presidente da Federação Portuguesa de Futebol chamou a imprensa para fazer um balanço, tardio, da miserável participação da selecção no Campeonato do Mundo. Disse Fernando Gomes que, apesar de terem sido dadas todas as condições, “não fomos capazes, no Brasil, de cumprir o objectivo mínimo exigível”. E acrescentou: “Não fomos competentes.” Vai daí, e perante a repetida confissão de responsabilidade única, honra lhe seja feita, assumida pelo seleccionador nacional, o que é que se faz? Despedem-se os médicos e reforça-se o papel e o poder de Paulo Bento.
O exemplo futeboleiro serve de pretexto para um pequeno escrutínio da nossa memória colectiva. Na verdade, ninguém se lembra de a história registar o despedimento de um qualquer titular de cargo público ou político por incompetência ou má figura.
Senão, vejamos: o actual Governo, manifestamente incompetente no controlo das contas públicas – como se comprova com as derrapagens no défice e com a apresentação de oito Orçamentos Rectificativo em três anos -, ainda merece a confiança de 30% do eleitorado que vota – foi assim nas últimas eleições europeias -, e quem veja as sondagens não pode excluir uma vitória da coligação PSD-CDS em 2015.
Por seu lado, a oposição, que claramente tem sido incompetente, ainda consegue ganhar eleições, ainda que de forma pífia, apesar da devastação que a austeridade colossal tem provocado no País.
Saiamos agora do presente e recuemos no tempo.
Durão Barroso, cujo Governo incompetente até registou, a meio do mandato, uma censura violenta nas urnas que levou à “fuga” do ex-primeiro-ministro, acabou promovido a presidente da Comissão Europeia – lugar que ocupa até Outubro – e, quem sabe, chegará um dia a secretário-geral da ONU, para gáudio do orgulho nacional.
António Guterres, cuja passagem por São Bento não fica certamente na história pela competência e capacidade de tomar decisões, é agora o nome dileto de uma parte da esquerda – mas também de uma certa direita – para ocupar a vaga que Cavaco Silva há de deixar em Belém, lá para Janeiro de 2016.
E, no que a lugares de governação diz respeito, também não foi por incompetência que Pedro Santana Lopes, cujo mandato como primeiro–ministro durou apenas um semestre, acabou por cair. Isto apesar da trapalhada que foi a formação do Governo ou os erros clamorosos cometidos numa abertura de ano lectivo, atrasando o regresso às aulas.
Na regulação bancária também não faltam exemplos de promoção da incompetência. Vítor Constâncio ficará para sempre associado – pela inépcia, para dizer o mínimo – ao BPN, o maior escândalo financeiro, até agora, da história portuguesa. Objectiva e factualmente, a incompetente supervisão do então governador do Banco de Portugal, que não detectou em tempo útil as ilegalidades cometidas no BPN, mereceu ser premiada com uma “promoção” a vice-presidente do Banco Central Europeu.
E até D. Sebastião, que se mostrou incompetente na batalha de Alcácer Quibir contra os muçulmanos, ficou na história como “o desejado”, inspirando o mito sebastianista de salvação da pátria. Logo ele que, pela morte, despoletou a crise dinástica que haveria de nos empurrar para os braços dos Filipes espanhóis, conduzindo-nos à perda da independência nacional.
O que os factos demonstram é que, definitivamente, estamos condenados – por culpa própria – a viver num país que, perante todas as evidências, encolhe os ombros, se conforma na cultura do “tivemos azar, pá!” e é condescendente com a incompetência. Como disse Salgueiro Maia às suas tropas, na madrugada de 25 de Abril de 1974, “há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos”. E o estado a que isto chegou é o de “viva a incompetência”.
Diário de Notícias
30/08/2014
por NUNO SARAIVA
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E ainda acrescento: os tais eleitores que ainda votam não só no PPD e CDS, como também no PS, são o extracto da pura incompetência que grassa neste País, aliada à corrupção, oportunismo, faz-de-conta, amiguismo, fraude, aldrabice, etc. Não é por acaso que hoje li no D.N. uma sondagem (que vale o que vale) em que a pergunta é: «Concorda com o endividamento do Estado para injectar 6 mil milhões na economia?» e as respostas são simplesmente estas: SIM 139 votos(36%) e NÃO 243 votos (64%), ou seja, 36% dos votantes nesta sondagem CONCORDAM COM O ENDIVIDAMENTO DO ESTADO PARA INJECTAREM SEIS MIL MILHÕES NA ECONOMIA, ou seja, na banca e nos falidos…